19 julho 2026

Carta Aberta ao Leitor

não, agora que sangram tempos outros
eu falarei como te sendo o ausente
este nada que em nosso horror te sente 
um doentio pelas dementes dos poucos 

pesteado bicho pelos campos solto 
pingo de sangue nos olhares quentes
a poeira de um asteroide incidente 
um palavrão na boca de um louco 

cruel ataque de uma leoa astuta 
de Brahms seus trovejantes quintetos 
os pedaços de carniça em disputa 

a navalha que em meu fígado eu meto 
beijo de mulher julgada de puta
e a tua presença entre meu soneto.

18 julho 2026

Ao Quê?

não diga que um animal 
tem um olhar humano.
alguns humanos é que podem 
ter um olhar de um animal.
os animais são primordiais 
vieram muito antes de nós 
nós é que os imitamos 
em tudo 
desde a fúria até a paz.
queremos voar como as águias 
nadar como os tubarões 
ter radares como os morcegos 
parar no ar como os beija-flores
resistir como um réptil 
correr como guepardos
ser respeitados como leões 
temidos como tigres
estar perto dos céus como condores 
prever a morte como urubus 
saber de tudo como as corujas
perigosos como as cobras 
amar como os pássaros 
ser fiéis como cães 
e perfeitos como gatos.
nós humanos apenas copiamos.
a Quem?

11 julho 2026

Onde está a Evolução?

no que foi que evoluímos?
no que melhoramos?
quando foi que aprendemos a amar?
a sentir a dor do outro?
da outra pessoa do outro animal 
do outro ser vivo?
o que foi que fizemos de melhor?
que grandeza foi que demonstramos?
qual grande sentimento? qual grande ideal? 
quando foi que olhamos nos olhos 
da outra pessoa
e compreendemos seu coração, sua alma?
no que melhoramos a não ser no disfarce?
em fingir que não somos maus, que prestamos?
sempre foi tudo só aparência, faz de conta.
não mudamos nada em nosso interior
onde sempre esteve nosso Ser
e nunca nos demos conta.

04 julho 2026

Versos Diretos n°189, 190 e 191


n°189: não escrevo
para que os outros me leiam
me entendam me decifrem.
escrevo para que eu faça isso 
com os outros.

n°190: para quem diz 
que não entendeu nada 
do que escrevi, respondo:
não escrevo para burros.
(com perdão ao animal injustiçado.)
para quem diz 
que não sentiu nada
do que escrevi, respondo:
não escrevo para mortos.
(com perdão aos Mortos.)

n°191: a poesia é perceber
que não se percebe
é dar-se conta
de que não se dão conta.

22 junho 2026

"bewegt, doch nicht zu rasch"

o título é a designação dada por Schumann 
(que enlouqueceu e quis se matar)
ao primeiro movimento 
de uma de suas últimas obras 
o Trio para Violino Violoncelo e 
piano, op.110.
quer dizer algo como
"movimentado, mas não demais."
se refere à maneira como 
a obra deve ser tocada.

pouco tempo depois 
de concluir essa obra de tensão absoluta 
Schumann tentou suicídio 
se atirando nas águas geladas 
do rio reno.
ele tinha 44 anos.
foi internado num manicômio 
após ser diagnosticado com

"melancolia psicótica"

e morreu dois anos depois.
Schumann ouvia a nota Lá 
em todos os momentos 
dia e noite 
e ele não aguentava mais.

ele recebeu antes de morrer 
a visita da sua amada esposa 
Clara Wieck Schumann
e a abraçou profundamente.
a Clara só foi vista 
depois desse dia
com roupas pretas rigorosas 
em luto por 40 anos.

Brahms, seu amigo 
também o visitou.
e só.
ninguém mais 
deu atenção a um dos maiores 
gênios musicais da história.

e não, 
este poema 
não é 
sobre música clássica.
 

20 junho 2026

Versos Diretos n°187 e 188

n°187: lições felinas;
nunca se curve 
diante de nada
ou diante de tudo.

n°188: uma cruz invertida 
de cabeça para baixo 
conforme de forma universal 
se considera 
é símbolo do demônio.
alguém discorda?
então por que diabos
os ditos cristãos 
quando fazem o sinal da cruz em si
o fazem de uma cruz invertida?
o em nome do pai do filho
e do espírito santo 
forma uma cruz 
invertida.
alguém aí já percebeu?



 

14 junho 2026

Versos Diretos n°184, 185 e 186

n°184: o gato é um ser estranho 
para nós humanos:
ele é 
sem nunca se preocupar
se é ou não:
não quer ser aceito
(nem sabe o que é isso)
não busca agradar 
e nem desgosta se agradar
se gostarem dele, ótimo.
se não gostarem, foda-se.
o gato apenas é.

é muito difícil para os seres humanos 
apenas Ser.


n°185 é belo caminhar 
com o olhar ao alto 
em contemplação ao céu 
e às estrelas.
mas se não se cuidar o chão 
se pisa na merda.

n°186: há música na música 
e música nas palavras:
nebulosas neblinas em névoas sublimes
por exemplo 
é mais música do que palavra:
o significado não importa na verdade 
o que importa é o som
a musicalidade.



04 junho 2026

um motivo maior

devastamos paraísos
massacramos seres e vidas e almas 
destruímos a beleza 
poluímos o que é puro
estupramos a inocência 
fuzilamos o que é terno o que é alto 
e mais ainda o que é fundo 
matamos os olhares e os corações 
aniquilamos a esperança e o futuro 
enterramos o que é grande 
corrompemos o que é nobre 
sangramos a justiça a verdade 
e mais ainda o amor 
e morreremos todos abraçados
(quem diria) 
por um motivo maior:

não quebrar a economia.


31 maio 2026

De Sangue

a história do mundo 
é a história do sangue
desde as paixões até às guerras:
é tudo sangue.
e este sangue em minhas mãos 
é minha história não contada.
a mesma história da humanidade 
aniquilada.

o sangue dos teus olhos quando ódio 
o sangue da tua boca quando doença 
o sangue do teu lábio quando amor
o sangue do teu útero quando vida.


tudo o que se vive
é sangue que goteja 
desde o sangue-seiva do que árvore 
o sangue que nas veias me seduz 
o sangue ao olfato do felino 
até o sangue crístico
que escorre da tua cruz.

a minha obsessão por sangue
não é só pelo vinho que me salva
ou que me mata
ou pelo horror do bicho atropelado
com seu sangue 
derramado pela estrada.
eu sinto sangue por toda parte
e o sangue é uma cor sagrada 
na minha sangrada arte.

29 maio 2026

Música para Despedidas

a última obra de Brahms 
(Onze Prelúdios Corais)
carregada de adeuses finais
contém uma gota 
de cada essência 
de cada um
de todos os Fins.
cada gota 
contém infinitos nãos
e despedidos sins.

é como o último trago
ainda largo
de um vinho 
(ex)tinto.

com a última obra de Brahms 
poderia se despedir 
o mundo inteiro 
(como disse T.S. Elliot)
em seu último giro:
"não com uma explosão,
mas com um suspiro."




17 maio 2026

Algo de Tragédia

até as estrelas um dia se apagam
e a face do Sol é sempre fatal
há um Cisne que canta em todo final
e avisos de anjos há muito te mágoam.

de sonhos-teatros meus lábios se alagam,
nos olhos da alma um  aceno  sinal
martelam os corvos sentença mortal
e asas de loucas aos ares me tragam.

algo de estranho desceu entre mim,
que olhos não veem e de olhares me sinto 
e te assombra como um réquiem em latim.

na mente nas emoções e no instinto 
eu sou o Fim a lutar contra o Fim
e um vinho me arrasta ao sangue que é tinto.

15 maio 2026

Slogan Imbecil

"o melhor é nunca parar".
esses dias vi esse slogan imbecil 
como propaganda 
de suposta automotivação.
nossa sociedade capitalista liberal
mecânica robótica pós-humana
não suporta quem para
quem deixa de produzir.

o que  acontece mesmo
com algo ou alguém que nunca para
que nunca descansa
que nunca se recupera
que nunca dá uma pausa 
que nem sente que nem reflete?

o nunca parar está nos levando 
ao esgotamento total e definitivo 
das nossas vidas
da nossa civilização 
do nosso planeta.
mas antes 
esgotará nossas almas.

08 maio 2026

Uma Década para o Fim

e duas rosas de sangue.  
luas fulvas. duas. curvas.
ao tirar as tuas.
sentença ou sarcasmo?
provável os dois.
sentível provável. 
cheiro quente de marte.
urubus rubros
e sangrosas rosentas.

e tuas gotas de sangue.
cheiro de sangue. ao morno.
tempestade e encharco-me.
horizontes molhados em vinho.
fúlguras férvidas.
trovões úmidos.
cristos em pingos da cruz.
peso as hemácias da luz.

pulsos caem em chuvas
pulsações em marcha fúnebre.
hemorragias de ave. 
coração à mostra. 
despencam pelos caminhos. 
peito aberto de pássaros.
veias como de cristo.
beijos coagulados. cios de gatos.
caninos de tigres e lobos.
gotejo saliva.

um sol de apocalíptico. 
febre escarlatina de olhares.
meus olhos derramados. 
céu de cor-cardíaca.
nuvens menstruadas.
correm pelas tuas pernas.
escorrem das minhas mãos.
e duas gotas de sangue. 
goteja de canto de lábio.
sanguino lenta esperança.

20 abril 2026

Ao Fim da Rosa

rosa que álcool pelo meu sangue 
quem foi que sangrou-te à tormenta?
quem foi que matou-te em meu peito
rosa que verte pelo meu grave?

quem foi que falou-te de amor-te
daquilo que corta e sempre te parte
que alguém arrancou-te da noite
rosa que lábia pelo meu sempre?

quem te avassala pelos teus ventres 
e crava punhais nas veias de prantos 
derrama teu lago no som do meu rastro?
rosa que morre no vinho do sexo.

em que lama deixaram teu passo?
rosa que afoga em tudo que chove...
nas luas que névoam tu te consomes
rosa que vai-te em tudo que passa...

rosa que finda em todo meu nada
rosa esmagada.

12 abril 2026

Alguém sem Coração

todos os males e horrores do mundo 
são frutos da falta de sensibilidade.
a ausência de sentimentos
é a causa de tudo que agoniza e morre.
quem duvida é porque não sente
e quem não sente 
não presta pra nada:
não passa de um robô
a reproduzir seu programa 
que outros pré-determinaram.

sofrer pelo que morre 
e tentar de alguma forma 
evitar/aliviar/consolar 
(como fariam os anjos)?
é absurdo, não?

sentir não importa:
então se deixa que morra
até que um dia 
se bata na nossa porta.

ontem, por exemplo
(e é história real)
eu vi um gatinho atropelado 
seus intestinos estavam pra fora.
os normais jamais se importariam.
mas eu, como sou um doente anormal 
sofri 
e precisei escrever sobre isso.

como civilização 
caminhamos para o abismo 
somos uma humanidade suicida
com um sorriso estúpido na cara.

mas você não sente, eu sei 
e quem não sente não entende quem sente
quem sente, sente sozinho.
mas alguém sem coração 
não é nada 



05 abril 2026

Soneto à Noite

frias lentidões roxas dos destinos 
pelas asas de exangues marchas fúnebres
eternas luas cheias longas lúgubres 
olham verdes ao canto dos felinos

e os sapos me noturnam ao que fascino
violinam árvores pelas artes tênebras
violoncelam céus pelas noites tétricas
e sinto o sangue dos crísticos vinos

ah Noite, a que segredo me destinas?
aspiro teu perfume pelas róseas
me inebrio entre estrelas hialinas

corvo-me pelas tuas tensas trévoas
sangram-me tuas trágicas felinas 
e o dia... ah que ande envolto pelas Névoas.




28 março 2026

Versos Cruéis, Infelizes e Antipáticos

1 - como saber que a humanidade
está acabada?
há um método 
extremamente simples.
observem nos mercados 
quantas pessoas 
levam sacolas retornáveis 
e quantas se entopem até a goela 
de sacolas plásticas.

2 -  enquanto você sorri
e se acha feliz no dia a dia
já pensou em quantas pessoas 
choram e sofrem 
e animais morrem 
e florestas vêm abaixo 
nos exatos segundos do teu sorriso,
seu egoísta?

3 - você contou para sua filhinha(o)
lindas histórias
que um dia acabaram.
bem, chegou a hora de contar 
o Fim da nossa história
em que sua filhinha(o) é personagem, 
da nossa História que chega ao Fim.


22 março 2026

Poema Lírico

aquele monte de merda 
ali sentado como sendo vida 
mantinha um sorriso de bosta 
enquanto observava gatos sendo torturados
na internet.
(eu soubera da história)
então dei um faconaço
naqueles beiços de palhaço 
cortei metade da cara 
(enquanto meus amigos diziam 
"tomara")
delirei vendo o sangue 
chegar aos meus pés
e fui tomar 
os melhores cafés.
pensei em poemas sobre
rosas e vinhos.
até vir a moça 
me dizer:
"outro café?"
disse que sim
afinal 
são coisas simples como essas 
que nos alimentam a fé.


19 março 2026

Versos Diretos n° 181, 182 e 183

n.181: da vida:
uma formiga 
carregando uma folha viva 
é muito mais genial 
do que pousando na lua morta
uma nave espacial.

n.182: desestrelas:
ao ver uma estrela 
(de)cadente
ao final da tarde 
faça uma (des)pedida
ao cair 
da (des)humanidade.

n.183: do esquecimento:
ao longo de tantas guerras 
quantos túmulos 
os homens tiveram
que cavá-los?
mas e o que fizeram 
para os cavalos?

07 março 2026

Soneto ao que é Música

tempestades orquestram pelas flores
entre beijos desastres e outros astros
eu te sangro o perfume dos meus rastros
entre o sol que chorou-se por te pores.

nesta tarde anoiteço as tuas dores
sempre e tanto me trago estes teus vastos
firmo pela tormenta os altos mastros
e me ergo alucinado onde tu fores.

sinto na pele as mortes do que fito
sei de todas paixões por esta súplica
compreendo que não passo de um maldito.

estas tragédias são-me a Lua única:
Lua que impera à Noite ao infinito
e faz da minha dor desejo e Música.