20 abril 2026

Ao Fim da Rosa

rosa que álcool pelo meu sangue 
quem foi que sangrou-te à tormenta?
quem foi que matou-te em meu peito
rosa que verte pelo meu grave?

quem foi que falou-te de amor-te
daquilo que corta e sempre te parte
que alguém arrancou-te da noite
rosa que lábia pelo meu sempre?

quem te avassala pelos teus ventres 
e crava punhais nas veias de prantos 
derrama teu lago no som do meu rastro?
rosa que morre no vinho do sexo.

em que lama deixaram teu passo?
rosa que afoga em tudo que chove...
nas luas que névoam tu te consomes
rosa que vai-te em tudo que passa...

rosa que finda em todo meu nada
rosa esmagada.

12 abril 2026

Alguém sem Coração

todos os males e horrores do mundo 
são frutos da falta de sensibilidade.
a ausência de sentimentos
é a causa de tudo que agoniza e morre.
quem duvida é porque não sente
e quem não sente 
não presta pra nada:
não passa de um robô
a reproduzir seu programa 
que outros pré-determinaram.

sofrer pelo que morre 
e tentar de alguma forma 
evitar/aliviar/consolar 
(como fariam os anjos)?
é absurdo, não?

sentir não importa:
então se deixa que morra
até que um dia 
se bata na nossa porta.

ontem, por exemplo
(e é história real)
eu vi um gatinho atropelado 
seus intestinos estavam pra fora.
os normais jamais se importariam.
mas eu, como sou um doente anormal 
sofri 
e precisei escrever sobre isso.

como civilização 
caminhamos para o abismo 
somos uma humanidade suicida
com um sorriso estúpido na cara.

mas você não sente, eu sei 
e quem não sente não entende quem sente
quem sente, sente sozinho.
mas alguém sem coração 
não é nada 



05 abril 2026

Soneto à Noite

frias lentidões roxas dos destinos 
pelas asas de exangues marchas fúnebres
eternas luas cheias longas lúgubres 
olham verdes ao canto dos felinos

e os sapos me noturnam ao que fascino
violinam árvores pelas artes tênebras
violoncelam céus pelas noites tétricas
e sinto o sangue dos crísticos vinos

ah Noite, a que segredo me destinas?
aspiro teu perfume pelas róseas
me inebrio entre estrelas hialinas

corvo-me pelas tuas tensas trévoas
sangram-me tuas trágicas felinas 
e o dia... ah que ande envolto pelas Névoas.