30 novembro 2020

Tens a Minha Palavra

é a palavra que fala
é a palavra que diz
é a palavra que escreve
é com a palavra que se pensa
é com a palavra que se sente
é a palavra que pede que manda que ora
que sonha que sofre que chora
que cria convida aconselha emociona

ninguém pode saber nada sem a palavra
ninguém pode viver nada sem a palavra
ninguém pode SER nada sem a palavra
ninguém diz que ama sem a palavra
ninguém diz que morre sem a palavra
"me liga", "falamos", "me manda mensagem":
é tudo palavra.

é a palavra que deixa o rastro
é ela que diz o Faça-se e o Acabe-se
em tudo o que se faz ou se deixa de fazer
há uma palavra por trás 
antes da palavra ser dada
não há nada
e chega de conversinhas 
e me perdoem o palavrão
mas a porra da palavra
tem que ser respeitada.



29 novembro 2020

Eu Disse

eu disse às flores que só emitissem perfumes
e só irradiassem suas cores
quando tu passares muito perto delas
eu disse às flores
eu disse às árvores que só ficassem verdes
e as que dão frutos que só dessem seus frutos
quando tu estiveres entre as sombras delas
eu disse às árvores
eu disse às dores que só sofressem tanto
e aos sofrimentos que só pudessem ser
quanto tu fugires para longe deles
eu disse às dores
eu disse às onças que estivessem longe
para vir bem perto de ti quando tu passeares
não para te assustar com seus terrores
mas para te proteger dos teus temores
eu disse às onças
eu disse aos rios que corressem mais limpos
e às suas águas que fossem mais puras
quando tu tocares os teus lábios neles
eu disse aos rios eu disse às águas
eu disse à chuva que só caísse forte
e ao raio que só assombrasse a noite
quando tu sonhares pelos astrais mundos
descuidada por entre sóis e luas
eu disse à chuva eu disse ao raio
eu disse às nuvens que se abrissem todas
quando tu sorrires para o céu com os olhos
eu disse às nuvens
e para o céu eu disse que te mostrasse os anjos
quando tu pensares no amor mais fundo
eu disse ao céu 
e eu disse aos anjos...
aos anjos eu disse que eu te disse tudo.



26 novembro 2020

Robôs Fodidos

as pessoas não querem mais ser gente
não querem sentir nem pensar nem viver 
nem querem saber
suas vidas são só vitrines
é só o que o outro vai achar:
que agora são todos fortes e vitoriosos
todos de sucesso e todos de bem
todos justos e saudáveis
todos felizes com sorrisos constantes
todos amantes e amados
todos ricos e bonitos 
todos certos e espertos
chorar é coisa do passado
sofrer é coisa de fracasso
ninguém mais chora ninguém mais sofre
ninguém mais sente
como diria Fernando Pessoa: 
"onde é que há gente?"
ninguém mais erra ninguém mais falha 
ninguém mais se fode
agora são só robôs sem defeitos
feitos em fábrica e linhas de série
autômatos pré-programados 
todos perfeitos e todos iguais...
e nenhum presta.
é preciso acabar esta humanidade
para que volte a Humanidade.


25 novembro 2020

Desprezo

quero ser aquele gato
negro bicho tão noturno
que não tem culpa de nada
que com nada mais se importa
que não tem seu rabo preso
pra fugir da humanidade
me ocultar entre o oculto
e miar para o infinito
pra ser sempre vagabundo
vendo almas e fantasmas
sem provar pra todo mundo
pra sonhar sem ter os sonhos
e dormir por entre a lua
quero ser aquele gato
ser sagrado e ser profano
ser um deus ser um demônio
e no fundo bem no fundo...
desprezar o ser humano

23 novembro 2020

Kafkiano

chegamos a um ponto 
tão absurdamente absurdo 
de tudo que é absurdo 
que o absurdo nem traz susto 
estamos surdos aos absurdos 
vivemos surtos após surtos
e são tantos os horrores e os mortos 
que o absurdo nem é mais a exceção:
é a própria absurda instituição.

21 novembro 2020

Arcanjo de Vênus

que sonho que eu sou quando eu for-te
em que som deixei-me em que parte
se tanto eu partia em nos ver-te
nem sonho cai mais pelos mares

não tenho onde um sol que vou por-me
ou deixar-te a quem não achar-me
se tanto vi o céu não mais ser-me
nem almas sai mais dos cantares

o Fim me olhou sempre em horror-me
e senti-lo é dever-me de arte
se tanto li a dor do que verte
nem sangue sai mais dos olhares

qual anjo que vem quando há mor-te
no que não deixei-me em que aMarte.

18 novembro 2020

Como se não houvesse Morte

como se houvesse tempo
estão lá com sede de progresso
como se evoluíssem ceifando paraísos
para semear infernos
lucram como se fossem eternos
a transformar vidas em desertos
e é como se nunca bastasse
mentindo como se fosse
para matar a fome
sem ter que distribuir a renda
como se fosse em nome do que fosse justo
como se não fosse pra colher ganâncias
como se fosse ser herói
se enriquecer à custa do que morre
existir à custa do que some

e ainda se acham fortes
e ainda se dizem homens
como se não passassem de parasitas
mais fracos do que cacos
mais fiascos que palhaços
como se não viesse a volta
pelo horror do que plantaram
como se não tivesse preço
todo a beleza desfigurada
como se ficasse por isso mesmo
todo o amor que foi corrompido
e como se não viesse o Tempo
bater no seu endereço

fazem tudo
como se o tudo ficasse mesmo assim:
como se não houvesse o Fim.

16 novembro 2020

Apenas Noite

leis políticas instituições
prédios cidades civilizações
rolarão por terra um dia
mas sempre haverá a noite.

séculos décadas anos
vidas sonhos planos
deixarão a terra um dia
mas ainda continuará a noite.

dados rodas moedas
homens coisas pedras
não serão na terra um dia
no entanto prosseguirá a noite.

planetas sóis luas estrelas
todas as coisas que forem sê-las
não serão no cosmo um dia
e o universo será apenas Noite. 

15 novembro 2020

Mais Alto

um outro sol
um outro sol mais ao alto
se erguerá sobre o sol derradeiro
vitorioso em som sonho e pesadelo
e um outro som mais alto e vermelho
se erguerá em de cada perdido instante
em teu vasto sim de guerra e mais adiante
um outro sou se erguerá em que vai avante
mais alta em larga prata e mortífera espada
de ponta adiante e ainda mais e mais elevada
de ultra e além lâmina e mais afiada em adaga
e um outro canto em soprano surgirá mais além
de sublime em sublime e mais ainda em quem vem
se erguerá mais acima e acima em que nunca ninguém
e se erguerá mais um passo ao alto do horizonte que espanta
e um outro verbo mais grave com fúria aguda venta e se lança
e outro olho mais fundo e avante em outra Força mais alta levanta

13 novembro 2020

Poema Lacônico de Sexta-Feira 13

1.1 - acima das plumas-brancas 
da pomba da esperança
paira a asa-negra do urubu
que voa mais alto.

1.2 - os melhores vinhos
trazem as trevas da noite
e os piores raios
brilham como o dia.

1.3 - no olho do furacão
não há ventos.


12 novembro 2020

Trágico

tristeza de não-antídoto
sorriso de lábio fêmino
um beijo que seja válido
entendo teu gesto lânguido
o sonho em teu rosto sânguino
o longe se arrasta rápido
o tudo que eu digo é símbolo
caminho que seja pórtico
sangue de vela e lâmpada
a chama escarlate tântrica
meus olhos nas luas cálidas
o longínquo em não ser-me ósculo:
trágico é proparoxítono.

10 novembro 2020

De Sangue

sangue nos lábios é perigoso
tanto se vier de fora
como se vier de dentro
mas o sangue vem aos lábios
de qualquer jeito.

vida, sua filhadaputa
ensanguentada louca
que me enche de sangue na boca.

08 novembro 2020

Sofrimento é Algo que Falta

o sofrimento não deve ser medido
pelo tipo de sofrimento
mas pela relação sofrimento x anseio:
sofre a pessoa não pelo que ela é
ou deixa de ser
não pelo que lhe acontece
ou deixa de lhe acontecer
não pelo que ela vive
ou deixa de viver
mas pelo que ela gostaria de ser
ou gostaria que lhe acontecesse
ou que fosse a sua vida
sofrimento é muito mais
o não-vindo.

o tamanho do sofrimento
é o tamanho da insatisfação
o sofrimento é um algo que falta.
uma vida com tudo
ou uma vida com nada
pode dar no mesmo:
o sofrimento se mede pelo desejo
para quem não tem o que comer
o alimento na mesa é a felicidade
para quem tem alimento na mesa
a felicidade está no alimento do sonho
do coração da alma do espírito
e ambos os sofrimentos
são legítimos.



05 novembro 2020

Olhares das Feras


sim, há uma Paz profunda
nos olhares das feras
há verdades silêncios
que se ocultam por eras
saber desde o que é vida
até mortes de estrelas
o olho fogo do tigre
só ao ser se revela 
o olho gelo do lobo
em segredo nos vela

sim, há um Sangue profundo
nos olhares das feras
há tormentas noturnas
que parecem com trevas
são abutres nas árvores
de sentinelas eternas
serpentes que veem almas
de quem passa por elas
é que há um Fim profundo
nos olhares das feras...

04 novembro 2020

Não ter que dizer nada

aquilo que não. que não o quê?
que não tudo.
desde o lá ao agora que não está
ao que seja como sendo
o longínquo de um algo de dentro
o que nunca em nenhum momento
sonho que sona o meu real
o outro lado do que não o outro
além-me-ar estando aqui
pela sanga do teu quintal
flor que cheirou o meu gesto
sem tocar a minha mão
fuga drogada de um verso
ao voo do que não me fui
em estares de imaginação
o  mas do que me distância
e longos pelos teus anelos
olhos  no éter sem sê-los
que terminam em um nada
e começam em um fim
e ainda tem o outro lado
que é aquilo que sim.

01 novembro 2020

Poema de Finados (ou Um Réquiem)


Mozart morreu antes de terminar seu Réquiem
de certeza uma das músicas mais emocionantes comoventes
assombrosas já compostas nessa merda de mundo
até um cara com um coração de pedra esfarelenta
sentiria algum tipo de arrepio de pelos
ao ouvir alguns trechos rápidos
do sobre-humano Réquiem de Mozart.

Mozart finou-se antes de finalizar
a maior Música de Fim da história
ele escreveu sua própria Missa para os Mortos
e morreu aos 35 anos no abandono e na miséria
foi enterrado como indigente e se tornou imortal...
(a vida é uma puta de uma ironia)

adoecido de corpo e de incompreensão
Mozart já não podia suportar o peso
de escrever a música mais trágica de todos os tempos.
outros caras concluíram o Réquiem a partir de esboços de Mozart
mas as partes completadas apenas pelo Amadeus
já dizem tudo e fim de papo.

seu Réquiem é uma titânica súplica desesperada de ajuda
ao mundo a Deus ao universo
uma urgência em pânico daquele que aos 35 anos
era o maior gênio musical de sua geração.

mas o Réquiem de Mozart é muito mais do que 
uma poderosa súplica sobrenatural
é um monumento ao sentimento uma tentativa de salvação
da humanidade pela vivência da própria morte.
a gente se sente um pouquinho salvo
ao ouvir a mais dolorosa música
já arrancada do último amor
antes da Morte.