26 junho 2011

Sinto o sono que não me dorme

a final
o que é que queres de mim?
que eu nade no mar da tua morte
ou que morra no amar do teu nada?
ah quem me dera que o sono me caia
como quem nada e morre na praia
por que é que faço isso que não fiz?
ah que o meu sempre
é sempre por um
triz

semprei-me de lado  a lado
extremando-me de extremo a extremo
e de cada lado e de cima a baixo
só nadei-me por todo veneno
ah quem me dera que meu sonho me saia
como aquele único pedido
que me fizeste
em troca de que eu pedisse
qualquer coisa
que tu quisesses
ah quem me dera
que meu olhar fechasse
que dormisse outra era
que se te durmo
me sumo
de espera

mas agora
o que é que me acorda?
a corda

24 junho 2011

Agora sou frio

fazia frio
fora
e dentro de mim...
isso foi há séculos
agora sou frio.

mas há séculos
passei pela floresta
e na floresta havia um rio
e no rio uma cachoeira
e ao lado da cachoeira
havia uma grande pedra
e sobre a pedra
caía eternamente
um tênue fio de água
do lado esquerdo do rio...
isso foi há séculos
agora sou frio.

há dias
fui ver a grande pedra
não passava
de um pequeno cascalho
o tênue fio de água
de tanto cair em cima
por séculos e séculos consecutivos
a consumiu...
isso foi há dias
agora sou frio.

mas quem ali passou
durante esses séculos
não percebeu
que a pedra estava agonizando
lentamente
sob a água sem nenhum compromisso...

o Fim é isso.

23 junho 2011

O Paulo Leminski, que é um Cachorro Louco

Já disse que o Leminski é um dos meus poetas pós-modernistas brasileiros preferidos. Mas não custa repetir. É. Talvez seja O preferido. Sua poesia é leve e pesada ao mesmo, no sentido de ser agradabilíssima de se ler, de uma inteligência e criatividade ímpares, sutilmente irônica, sem deixar de lado a força emocional, a sua intensa veia trágica. Por isso, deixo aqui alguns dos poemas do "cachorro louco", como ele mesmo já se definiu, para compartilhar com os leitores. Todos os poemas são de seu livro "Caprichos e Relaxos".

Quem nasce com coração?

Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.

Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara.


minhas 7 quedas

minha primeira queda
não abriu o pára-quedas
daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda
da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo


quem me dera um abutre

quem me dera um abutre 
pra devorar meu coração! 
naco de carne crua 
comida de pé no balcão!

quem me dera um apache 
pra colher meu escalpo! 
que desta vez não escape 
nenhum disfarce!

tomara que um furacão 
caia sobre meu navio! 
que nenhum deus nem dragão 
possa ser meu alívio!


tenho andado fraco

tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só 
lembrando que sou pó

tenho andado tanto 
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio 
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo en caminos 
pero que los hay
hay


em matéria

em matéria 
de tino
menino 
eu tenho dez

quiser 
tenho até 
um destino
a meus pés

Paulo Leminski

21 junho 2011

Aceitar as coisas como elas são?

“aceitar as coisas como elas são...”
muito bem...
mas o que são as coisas como elas são?
quais coisas?
e quem disse que tal coisa é assim
e não de outro jeito?
assim como?
quem é que define como devem ser?
o que é afinal que devem ser?
e quem disse que alguém pode definir?
e por que eu devo aceitar?

aceitar as coisas como elas são...
e como que são?
e o que é aceitar?
quem é que percebe as coisas como sendo elas?
estás certo de que as coisas são o que são?
conheces as coisas?
estás seguro de que não seria melhor
se não as aceitasses?

e ainda que as coisas sejam o que são
serão eternamente assim?
e ainda que sejam de alguma forma
(que forma?)
eternamente
aceitar ou não
não passa da minha opção

enfim
aceitar as coisas como elas são
é tão vago sem-sentido e estúpido
que nem sei mais do que estou falando...

prefiro aceitar as coisas
como elas não são

20 junho 2011

de Números e de Cosmos

há sempre (o) um que é o último:
por mais infinitos que sejam os números
ninguém os conta para sempre...
há sempre (a) uma que é a última
por mais infinito que seja o cosmos
ninguém o percorre no seu todo...

mas se o cosmos é infinito
o que é afinal isso de ser?
se eu estou aqui
por que um outro não pode estar lá?
e por que um outro lá e não eu?
o que existe infinitamente
pode existir e ser como sem-limite
e tudo pode (deve) ser possível:
dizer “é infinito”
é sustentar que tudo existe
então por que não posso buscar
e não ser alcançado?
por que faço um pedido
que não me é dado?

mais ainda assim
há um momento em que não mais
há sempre um último
em tudo que é
(ou que não foi)
que pode ser o primeiro
de um outro outro
mais acima
ou mais abaixo
em que não acho...

mas (e) há uma indizível volta
após uma derradeira vinda...
quem dera este poema
ainda dissesse mais
mas ele aqui se finda

18 junho 2011

Algumas Ironias

Encontrei na internet as imagens abaixo. Adaptei a cada uma delas trechos de poemas conhecidos. A reunião das imagens com os trechos eu já publicara como álbum no orkut. Agora, publico no blog. 

"Falas de amor, e eu ouço tudo e calo./O amor na humanidade é uma mentira./É. E é por isso que na minha lira/De amores fúteis poucas vezes falo." Augusto dos Anjos




"Pensava em ti, nas horas de tristeza..." Fagundes Varela




"Dá-me mais vinho/ que a vida é nada." Fernando Pessoa




"É necessário estar sempre bêbado... Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos;
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha." Baudelaire




"O ser humano não aprende as lições da vida nem a canhonaços." Samael Aun Weor




"Se a água de tua boca então/ Aflora em teus dentes,/ Bebo um vinho que me infunde/ Amargura e calma." Baudelaire



"O homem está colocado onde termina a Terra./ A mulher, onde começa o Céu." Victor Hugo





"O livro caído n'alma/ É gérmen que faz a palma,/ É chuva que faz o mar..." Castro Alves




De dois efes se compõe/ Esta cidade a meu ver:/ um furtar, o outro, foder." Gregório de Matos




"Escarrar de um abismo noutro abismo,/ Mandando ao céu o fumo de um cigarro./ Há mais filosofia neste escarro,/ Do que em toda a moral do cristianismo." Augusto dos Anjos




"Minha tripa cortai, a mais sonorosa!.../ Façam dela uma corda, e cantem nela/ Os amores da vida esperançosa!" Álvares de Azevedo




"Minha desgraça, ó cândida donzela,/ O que faz que o meu peito assim blasfema,/ É ter para escrever todo um poema,/ E não ter um vintém para uma vela." Álvares de Azevedo

16 junho 2011

Tudo é Cálculo

gosto de não ser entendido
é bom não ser o que se é
(é o que mais me faz sentido)
que a poesia é para se ser
(independente de acessível ou grega)
e isso chega

além do mais
(o que é além do mais?)
por que querer que eu seja
o que sou aqui?
sou no verso que deixo
mas não sou o que deixo do verso
e meu vou muito mais disperso
e falo do que não é meu eu
porque somente sou
e bem mais o que se perdeu
mas o verso fica
e eu não irei junto com ele
portanto não me confundam
com o que eu disse
e vice-versa e versa-vice

as palavras que fatalmente digo
nem sei se estão comigo
elas vieram e eu as disse
como o mafioso que atira
porque tem que atirar
(é sua função
como quem vive aspira (a)o ar)

porém
cada palavra é calculadamente meditada
(me ditada)
que tudo (tudo) é cálculo
por mim mesmo feito
ou até mim enviado
(por algum outrem
em inconcebível jeito)
e este mesmo poema é um plano...

(talvez meu talvez não
talvez prenúncio de furacão)
...
vamos ver o que ele será
daqui a um ano...

15 junho 2011

Eu não Falo de Coisa Alguma

olho aquele olhar que nos olha
sem que esteja
em algum lugar que se entenda
sei que ele gosta de não estar lá
e não se ouve uma palavra
do que ele não diz
até porque ele nunca diz
o que se pensa que é dito
o que não significa que nada faça
mas pelo contrário:
ele se realiza não se importando
e deixando que se fale ou cale
aliás ele não se importa nem em deixar
ele passa sempre a um passo
enquanto se pensa (nós)
no que se pode ser
mas aqueles que julgam pensar
nunca pensam em ele
o que muito lhe agrada
pois quando estivermos indo
ele terá ido voltado
e nem estará mais aqui
e há até os que pensam
que falo de Deus
sinal que não
pensam de nenhum jeito
aliás eu não falo de coisa alguma
e este poema sequer
chegou a ser feito

13 junho 2011

Fernando Pessoa e suas Quadras

Hoje, o mundo comemora os 123 anos do maior gênio da poesia em língua portuguesa na minha opinião: o inatingível Fernando Pessoa. Sua obra é vastíssima. E algumas delas ainda são bem pouco conhecidas. Por exemplo, as suas "Quadras ao Gosto Popular". Simples, melodiosas e belíssimas, intensamente poéticas. Em homenagem ao nosso maior poeta, deixo algumas dessas quadras. Quase todas são como declarações de amor ternas, melancólicas. Por vezes, amargas e irônicas.

Quadras ao Gosto Popular (apenas algumas poucas)

Morto, hei de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou -
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...

Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?

Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?

Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!

Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.

Adivinhei o que pensas
Só por saber que não era
Qualquer das coisas imensas
Que a minh'alma sempre espera.

Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.

Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.

Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.

Dei-lhe um beijo ao pé da boca
Por a boca se esquivar.
A ideia talvez foi louca,
O mal foi não acertar.

A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.

12 junho 2011

Poeta é Aquele que Nunca Descansa (2º versão)*

o poeta vive cada momento
não por viver cada momento
mas para vivê-lo e usá-lo:
poeta é aquele
que tudo que vive
vive com segundas intenções...
utiliza tudo na vida
como combustível de versos:
cada instante ao poeta
é infinito de universos

por isso é que o poeta trabalha
enquanto os outros vivem:
o poeta é um vagabundo
que trabalha 24h por dia:
enquanto dorme
deve lembrar do sonho e pesadelo do sono
e se acordado
deve sentir o sonho e pesadelo da vida
o poeta deve entrar em todas as coisas
mas nunca encontrar a saída

poeta é aquele que nunca descansa:
o poeta é um sempre ausência
há que nunca estar (mas sendo)
pela manhã pela tarde pela madrugada:
e extrair tudo de tudo que vive
e nunca esperando nada de nada

* Realizei uma revisão neste poema já publicado aqui no blog e posto-o como uma 2ª versão.

10 junho 2011

um Trago do que Sinto

talvez deixasse aqui
o que sinto no momento...
mas é claro que não conseguiria:
sempre seria mais rápido
ou mais lento
e tudo o que escrevesse
não seria o que seria dito
não estaria meu ser
se estivesse meu eu
e vice-versa...
não sou
o que escreveu...

e por que beber do que sinto
se em tudo que trago minto?
é sempre pior do que falo
é sempre mais do que digo
não poderei nem assim
estar a sós comigo...

então deixo o que há mais
e que entendam os loucos
os fracassados os insensatos
e os transcendentais

escrevo o que não consegui
que é para a poesia ser
sem o meu eu
e deixar-me com o meu nada
e o meu ninguém:
deixo que a arte
se eternize
bem mais além...

08 junho 2011

A Palavra que Não

qual é a palavra que é a necessária?
qual é a que deve ser dita?
qual afinal a sua dita?
devo encontrar o que não pode
em contra algum vir de encontro?
talvez  ela existir
seja o meu próprio confronto
talvez resulte em palavra mágica
que ao ser dita me desfaça
veneno tragado
como vinho em taça
ou talvez seja exata a aquela
que a(s)cende o que é febre na vela...

há uma
palavra
perdida em tudo que faço
tudo que faço é lançar o meu laço
em meio do horror em que escrevo
que se caótica aceso
aquela palavra que Deus disse
que talvez não (me) existe:
pensei que estivesse
nas auras de algum átomo
e depois
na deusa de uma estrela...

(eu que a busquei tanto)
encerro este poema
sem ter conseguido dizê-la

por enquanto...

06 junho 2011

Para que se ouça...

quando silencio o que há em torno
do silêncio em que me vou tornando
lento observo em silente lente
como há um som oculto
em tudo que se revela
(há sempre outra chama
no embaixo da vela...)
e em cada desejo e suspiro
há outro além em que se deseja e suspira
aquele outro além que em si silencia
(e deixo que minha voz
simplesmente sorria...)
mas que forma tornados em torno
depois que se ouve o seu houve
como um sussurro que  ao longe...
e sei que há algo mais
(então deixo que meu verbo
verbe somente sinais...)
até mesmo no que há de menos
por isso irei no ora do agora
silenciar este poema
e deixá-lo sozinho

(para que se ouça
o que ele murmura baixinho...)

05 junho 2011

E o Rio Uruguai aos poucos vai morrendo...

Hoje, dia 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, não há nada a comemorar. Talvez devêssemos nos debruçar chorando sobre o nosso destino. Que os rios brasileiros, de forma geral, vão de mal a pior, todos sabem. Mas a  agonia do nosso querido (querido? não seria odiado?) rio Uruguai, símbolo da Fronteira-Oeste do RS, rio do pampa, sempre muito cantado por aqui, desperta em nós, gaúchos (ainda mais para os que vivem próximos ao rio), um sentimento de profunda tristeza. Quer dizer, não sei se essa tristeza é despertada em muita gente, a maioria com certeza não está nem aí, com rio nenhum aliás, e por isso mesmo os rios se encontram nesse catastrófico estado.

Foi realizado um estudo sobre os abusos e crimes contra a Bacia do Rio Uruguai, conforme notícia veiculada no jornal Correio do Povo de 30 de maio de 2011. O resultado foi assustador. As avaliações da água captada em  seis diferentes pontos mostram os seguintes resultados. Confira com atenção.

Nível de oxigênio: entre 3,9 mg/L e 4,66 mg/L. O NÍVEL MÍNIMO previsto pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente é 6 mg/L.

Nível de fósforo: entre 0,173 mg/L a 0,352 mg/L. NÍVEL MÁXIMO PERMITIDO: 0,1 mg/L.

Nível de ferro: entre 12 mg/L a 54 mg/L. NÍVEL MÁXIMO PERMITIDO: 0,3 mg/L

Nível de cobre: entre 0,08 mg/L a 0,12 mg/L. NÍVEL MÁXIMO PERMITIDO: 0,009 mg/L.

Nível de alumínio: entre 16 mg/L a 116 mg/L. NÍVEL MÁXIMO PERMITIDO: 0,1 mg/L.

Nível de cromo: entre 0,01 mg/L a 0,74 mg/L. NÍVEL MÁXIMO PERMITIDO: 0,05 mg/L.

Vale lembrar que peixes contaminados por cromo tornam-se impróprios para o consumo. Aí estão os índices de poluição do rio Uruguai. Nada de mais, não é mesmo? Apenas um insignificante acidente de percurso dessa humanidade em seu progresso que não pode parar.

03 junho 2011

Em Meio à Noite

quando é que vais acordar-te
do teu sono sem sonhar-se?

deixar de lado esta cama
a reacender a grã-chama?
voltar a ter os teus lagos
a sons de destinos vagos?
reperfumar as tuas flores
em meio a tantos horrores?
ou ao sempre irá esconder-te
no incessante do que verte?

quem foi que fez-te teu sono?
mostra-nos causa e teu como
o tempo que alto alarmava
sangue que queima esta lava
a trompa que ergue levanta
fim da sagrada tua planta
entre o tempo que se passa
esvazia-se tua taça...

em meio à noite do que não sou
teus olhos dormiram do amor
mas é bom
que abandones a humanidade
Tu, ó Sol!

02 junho 2011

Esta é a Tua História (ou O Pesadelo) - Final

As cédulas serão necessárias para o necessário investimento. E a tarde vai passando. Passando como se não passasse. Ou como se passasse de forma total e devastadora. E não deixaste nada de nada. Como se não fosse nada. Mas sendo tudo para ti. O tempo morreu. Foste tu que o mataste.

Finalmente, o momento de deixar o escritório. Alívio. Poder pensar em outras questões... Talvez mais profundas... Talvez mais sublimes... Mas o que há de mais profundo e sublime que o trabalho? E aquele relatório, que não há maneira de concluir, não te abandona a racionalidade. E jamais se finda aquela angústia de ter que fazer o que tens que fazer pelo simples fato de que tens que fazer.

Eras o que pensavas enquanto conduzias dormindo o veículo pelas ruas povoadas. Dormindo não de dormir, embora com os sonhos já sonhasses. Com os sonhos não da vida, mas do sono. Pouco sono, aliás. Que o teu pesadelo voltará... Tu sabes. Mas os sonhos da vida... Estes não germinam na alma empedrada de compromissos.

Na avenida de intenso movimento, um acidente. O motorista da moto morreu. Contemplaste como se nunca morrerás. Com piedade do morto. E refletiste sobre o que iria acontecer com o motorista. Talvez nada. Talvez tudo. O homem pensa em tudo para ter uma vida cada vez mais cômoda. Mais tecnológica. Tecno lógica. Tudo deve ser lógico e confortável... Para isso o dinheiro. Para explicar tudo. Aliás, amanhã deves comprar um sofá novo. Dás duro. Mereces. Mas o motoqueiro morreu. O vermelho do sangue congestionando teus olhos. Para onde ele haverá de ir? Foi no que pensaste. Sabes? Não queres nem saber. Não sabes o porquê de saber? Rapidamente substituído pelos olhos da moça do escritório. Rapidamente substituídos pelo relatório de amanhã.

Chegaste. Belíssimo jardim ostenta tua casa. Mal pisaste nele desde que foi construído. Para não matar as gramas, argumentas para ti mesmo. Sabes que mente. Para não matar teu tempo. Tempo é trabalho. Exausto, a cerveja desceu aliviando teus músculos e nervos. Isso é reconfortante. Principalmente antes da academia, para revigorar.

Tua esposa também chegou. Os olhos da moça do escritório são mais doces que o da tua esposa. Aliás, ela também está muito cansada. Até porque recém chegara da academia. Agora é a tua vez de ir. Beijo no rosto. Tchau. De carro para a academia. Por que não a pé? Ah, a violência. Estás certo. A violência das grandes cidades não combina com a preservação ambiental. Nada combina com a preservação ambiental. Principalmente o homem. Principalmente o mundo de que o homem necessita. Mas não é coisa para se pensar agora. É coisa para se pensar no nunca. Agora pensarás na academia, pois já estás nela. Não, pensas no relatório de amanhã, no sofá que irás comprar, no dinheiro que estão te devendo, no crescente da tua empresa. Estás conseguindo. Mesmo. Só não consegues o que não sabes que queres.

Exercitar-se é um saco, pensaste. Já não aguentas mais. Mas é necessário. Assim como trabalhar. Não fossem os exercícios, talvez a moça do escritório não teria te olhado. Ainda assim, terias bolso.

Em casa, outra vez, que alívio. Nas impossibilidades da vida, os rios límpidos e serenos emitem as vozes aéreas dançantes de tudo que não podes. E elas queimam rápido no teu sentir. Mas é noite, e a noite nunca tarda, e a noite é um réquiem. Descanso. Delicioso jantar escorreu mecânico pelo teu esôfago. Até te sentiste um pouco mal. O jeito foi deitares mais cedo na noite, mesmo com o medo do pesadelo... Na noite que convidava ao amor... Que espécie de amor? O que sentes pela tua esposa? Sentes? Ou o desejo que se intensifica pelo olhar da moça do escritório? Não sabes. Mas certamente era esse tipo de amor que a cumplicidade da lua, que a violência emocional em silêncio da noite te convida. O sonho...

Dormiste pensando em coisas importantes... No relatório de amanhã, por exemplo. No sucesso da tua vida, sem dúvida, plena de sucesso. Mas o pesadelo te despertou. Pesadelos têm por princípio despertar os homens que dormem. Agora, o silêncio da noite era fúnebre como a morte. Havia algo de estranho pairando no ar. Pensaste lento em coisas distantes. O pesadelo foi absolutamente misterioso. Mistério era tudo o que respiravas agora... Estavas certo que nele, alguém ou algo chamou teu nome. No pesadelo, tu não eras tu. Tu fingias que era feliz, mas sabias que não eras. Tentavas enganar a ti mesmo. Em outro momento de teu pesadelo, enlouquecias, eras o mais insensato dos homens, e então te sentias bem.

Acordava sempre imerso na dúvida. Alguma coisa esquisita vibrava em tua alma. Lembravas da música do pesadelo. Estavas certo que era Bach. Talvez não fosse pesadelo, talvez fosse um sonho mirífico. Alguém batia na porta, pesadas batidas. Não tinhas coragem de atender. Sinuoso e enigmático. Densificou-se o alimento de tua respiração. Algo de impalpável te alarmava.

O sopro das narinas em sono de tua mulher intensificava a tensão. Algum oculto flutuava no desconhecido da noite. O Desconhecido... Um sino soava como uma voz de fêmea. O mistério que te falava e que eternamente sustinha suas asas negras sobre tua alma. Que crescia e fitava-te nos olhos, em paroxismos e apoteoses, dizendo-te de tudo que nunca fizeste, que nunca tentaste, que nunca viveste, que nunca beijaste...

Mas amanhã é dia de trabalho. Deves dormir. Tentando esquecer o pesadelo, conseguiste. E horas depois, acordaste para o teu novo dia. Novo... Como seria o teu novo dia? Basta que releias esta história, que é a tua história...

01 junho 2011

Esta é a Tua História (ou O Pesadelo) (Parte 1)

Esta é a tua história. E o teu sono foi regado de sonhos e pesadelos. Gotejou a lua nos teus desejos. Abriste os olhos com receio. Alguma coisa não estava correta. Por que sonhar e acordar, se não podes realizar nada do que sonhas? Mas os teus pesadelos eram demasiado reais. Desespero foi a primeira palavra que ensombreceu a tua mente, quando puseste o pé esquerdo no chão. Talvez tudo não estivesse correto. Fracassaste tão logo acordaste. Mas disso não te deste conta.

Olhaste pela janela. 7 horas da manhã. Raios de sol iluminavam teus olhos. De nada adiantaria. Fazias isso todos os dias, todas as manhãs o mesmo ato. Já estavas anestesiado e mecânico. Passado e futuro digladiavam-se em tudo o que sentias. Nunca o presente. E o presente é extremamente cruel. O presente é sempre extremamente cruel. Fracassaste em teu presente. Tens tudo. Mas no fundo não queres nada do que tens. O que realmente, ou iludidamente, queres é sempre o que não alcanças. Mas não sabes disso.

Abriste a geladeira, e ela estava abarrotada de coisas. Sem tempo para comer. Um suco escorregou sem graça pelo teu esôfago. A garganta continuou seca. A laranja não tinha culpa de nada, talvez pensaste.

A roupa que vestiste era impecável. Hoje precisarias de teu melhor terno. O trabalho dignifica. És um homem digno. As ruas pelas quais passavas agora eram de uma magnificência encantadora. Todos os dias o mesmo trajeto. Mal as viste. Exausto sem ainda estar, cansado sem cansaço, o cosmos falava pelo canto dos pássaros. Já estavas atrasado. O salário era alto, como não poderia deixar de ser. Sempre valia a pena o esforço, o sacrifício e a dedicação extremados. Imensidões de esperança despencavam de céu irrepreensivelmente azul. Já estavas no escritório.

Cumprimentaram-te de acordo com toda a necessidade do respeito que te é devido. Há muito tempo teus olhos não se enchiam de lágrimas. E assim permaneceram. Fitaste a vetusta figueira filtrada pelos vidros espelhados do escritório. O verde irradiava-se livre pela ascensão triunfante do dia. Fracassaste em teu emprego. Trabalhaste para ser livre. Mas te tornaste ainda mais escravo. Escravo de teu sucesso.

Afogado nos papéis, uma sede insaciável debatia-se em tua alma. Córregos, rios, mares, oceanos cintilavam pelo longínquo sob o crepuscular das estrelas. O olhar da moça que passou dirigiu-se aos teus. E tua assinatura era agora imprescindível. Em centenas de documentos que em verdade não diziam nada. Mas eram tudo. Lembras-te que há muito tempo não via olhos como aqueles? Reminiscências espirituais de estrelas que há muito séculos partiram. Tristeza. Um pequeno besouro chocou-se contra a parede envidraçada. E uma gota de tinta manchou o terno impecável.

Ninguém é impecável. Como é da natureza humana, e animal, a fome sempre chega. Ao meio-dia, o sol atinge o seu auge. Mas não há tempo para considerações. Em teu carro de modelo importado colocaste uma música da moda. Não te agradava realmente, mas não havia tempo para encontrar aquela em que pensavas há meses. Em um buraco furaste o pneu. Ficaste tenso. Já não estavas bem. Tens andado nervoso ultimamente, talvez seja devido aos pesadelos. Mas furaste o pneu. O azar e o imprevisto voam sempre tão alto que não dá para avistá-los. Descem suas asas negras sobre os minutos de calmaria. Mas não há tempo para divagações. Trocaste.

O restaurante era belo. E caro. E impregnado dos mais vários e lindos alimentos. Ao longe os pomares em jardins impactantes e comoventes aspergiam o pólen de suas flores pelos ares límpidos e vivos de borboletas. Ao longe... O restaurante era o mesmo de todos os dias. Não há nada de novo sobre a terra. Pediste o de sempre. Antes de entrar, porém, um pequeno gato roçou-te a calça. O felino fitou teus olhos. Sem tempo para sentimentalismos. Sem tempo para considerações. Comeste. E isso é tudo. É prático. Haveria algo de maior em cada molécula ingerida? Levantaste da mesa, teu terno estava maculado pela tinta da caneta. Aborrecido. O terno maculou tua alma. Pagaste. Dinheiro não é problema.

Problema eram os olhos da moça que entrara no escritório. Ela não trabalhava contigo. Onde estaria agora? Amanhã, tu terás reunião. “Lembras-te disso espírito da terra.” E depois de amanhã também. Quem sabe a moça retorne... Pelo acaso. Voltaste. Passaste pela mesma rua de sempre. A fronde das árvores evaporando-se em sonhos? Agora não há como lembrar. Principalmente de sonhos. Principiava a tarde. Era tarde. É sempre tarde. Irritou-te com as infinitas questões do trabalho. Sempre haverá problemas, e se os resolveres, surgirão outros. Até quando serás saudável? Esse é o infinito. Porém, vale a pena preocupar-se com eles. E irritar-te. E estressar-te. O estresse está na moda. Vale? Nas distâncias inatingíveis e somente imaginadas, ou contempladas através das ondas da TV, vales floridos e verdejantes, onde pequenas casas de rústica beleza e simplicidade espargem melodias de Bach, ou eram como que eternamente. Talvez lá houvesse cintilantes olhos como os da moça relampejante do escritório. Aquele dinheiro que não te pagam continua te tirando o sono. Teria o fato alguma relação com teu pesadelo recorrente? Sim, agora pensavas no pesadelo... Ele voltará...?

(Amanhã, o final)

30 maio 2011

O Dia que me Anoiteceu

naquele dia de anoitecido
ele veio diante do meu adiante
e disse-me aquilo que não me ouvi:
não era eu que estava ali
mas conforme se conformava o tempo
e eu me desmoronava atento
observei que a verdade também mentia
e ele como um arcanjo (so)ria
e meu nariz principiou a sangrar
aquilo que eu não tinha
e eu bebi tua sangria santa
na atmosfera carregada de não
e daquilo que me não mais canta
pairava algo em que eu não me estava
e ele sabia como quem despreza
quanto mais minha falta sentia sede
naquele vento que sempre te leva
e ele se virava como quem não era
e prometia alto como quem me odiava
e tu me vinhas como um crime o vinho
e sua companhia era estar eu sozinho
e vi que em seu brilho lunava a faca
e então tornei-me todo lâmina
e vi que algo em meu olhar estava torto
então lhe cravei o punhal
enquanto ele se erguia
e era eu que caía morto

29 maio 2011

Agora é Tarde...

morreste
e já não sabes
que não és o que foste
e talvez nem foste
aquilo que em ti te morreste
deixaste acabar-te os olhares
e quando olhaste ao acima
já te estavas abaixo
do palmo a palmo do sonho enterrado

morreste
e por morreres pensas que vives
temendo tudo que é alto
te contentaste em varrer o teu pó
deixaste escorrer os teus astros
desbotaste todas tuas noites
naufragaste pelos teus castelos
e defecaste sobre teus lagos

e tudo isso enquanto sorrias
por entre as certezas suínas
que enlamearam o céu da tua boca
enquanto degustava o açúcar...

fitaste a arte
com os olhos fechados...

morreste
e agora já é tarde:
teu sol já não bate
e teu peito não arde.

27 maio 2011

Palavras Impossíveis

venho dizer que não digo
escrevo estas palavras
para escrevê-las que não são
que fique estado que não estive aqui
porque nem sei o que é estar
aliás não posso nem saber
ou mesmo deixar de saber
qualquer algo que seja ou não
porque vem a ser um ato
e eu nunca realizo um ato
e inclusive não escrevi
isso que por si diz que não é
acredite que não há por que
em acreditar-me

eu não me sou possível
e já provei que não me podem provar:
é óbvio que não me existo
não há nenhuma palavra aqui
que tenha por si uma vida
é só verbo lançado ao nulo
que se perde como vento ao ar
fruto de acaso irrealizado
que ao fim resulta em nada
e que se formaram porque se formaram
sem causa motivo ou consequência
(e se houver não há de mim)
ao que se conclui que não tenho culpa
(e nem se pode mesmo concluir nada)
e não me podem falar de meu eu
a não-ser como ficção...

pronto
(ponto.)
agora que não existo
posso passar a ser