Era-me noite e tudo dormia em mim menos meu ser. Ocorreu que eu não estava aqui. Mas naquele outro mundo. Onde coisas que não são da vida porém são o mais intenso da vida acontecem.
Eu vestia preto. Foi nesse instante que vi a Onça-Parda. Ela estava com outra que mal me percebeu. Nos conhecíamos de muito longa data. Lembro que era noite e caíam nebulosidades sobre meus ombros.
Seu nome era Suçuarana. Ela mordeu meu braço e me arrastou de forma suave para o meio de algumas árvores. Sim porque estávamos no meio da rua. E ali não era possível morder alguém de forma aceitável. Eu estava de jaqueta e meu braço sangrou bem pouco, provei o sangue e era amargo.
Disse-me Suçuarana que era parte do processo. Foi então que me beijou os lábios e sangrei um pouco mais. Eu disse a ela que tinha esperado tanto por isso.
Lembrei-me do poema de Álvares de Azevedo:
"Caía chuva de flores
E luminosos vapores
Davam azulada luz..."
Ela colocou as patas nos meus ombros. Eu não sabia o que fazer. Convidei pra dar uma volta.
Foi quando percebi sem perceber que já era dia. Seu pelo castanho me acompanhava de forma densa e tensa. Suas garras cortantes sangraram minha mão. Mas era um caminho de flores. A Suçuarana me olhou de uma forma que não soube interpretar. Sonhei e gelei.
Mas era um caminho de flores. Fui mostrando pra ela as diferentes flores e seus nomes. Lembro que havia uma roseira. A luz do sol brilhava nos olhos pardos da Onça-Castanha: a rosa na escuridão de Stéphane Mallarmé
E amanheceu e a Rosa morreu. E surgiu a cruel e doce Onça-Pintada como se fosse Deus. E era.
Lembrei de novo de Álvares Azevedo:
"Caía chuva de flores
E luminosos vapores
Davam azulada luz...
E eu acordei... que delírio!
Eu sonho findo o martírio
E acordo pregado à cruz!"
E diante Dela, da Onça-Pintada, me ajoelhei.
Amém.