29 junho 2016

Governos Sartori e Temer: o PMDB voltado para o lucro e esquecido da população

Os governos PMDB, tanto o de Sartori aqui no RS quanto o de Temer, estão se demonstrando escancaradamente com um único objetivo: o de favorecer, a todo custo, as grandes empresas e os ramos mais lucrativos do agronegócio. São governos voltados paro o lucro, para a iniciativa privada, e "esquecidos" tanto do povo assalariado, dos mais necessitados, quanto do funcionalismo e dos serviços públicos. Vez que outra apenas, com medo da opinião pública e dos seus índices baixíssimos de popularidade, é que tais governos resolvem declarar uma medida que favorece a população como um todo. O que é raríssimo.

No caso do governo Sartori, a constatação acima torna-se mais do que clara, é ostensiva:  basta, tão somente, observarmos o que o PMDB gaúcho e seus aliados têm promovido com relação aos serviços públicos no RS: descaso brutal, ausência total de investimentos, cortes e atrasos de verbas, desmonte da estrutura pública, arrocho salarial, parcelamento de salários, clima de guerra e desrespeito com o funcionalismo, o que deverá piorar com a recente aprovação da LDO para 2017. No entanto, mesmo com a sonegação fiscal chegando a quase 7 bilhões anuais no estado, Sartori NADA faz para combatê-la, e ainda vem concedendo incentivos fiscais à iniciativa privada de uma forma pouco transparente, enquanto alega ausência de  recursos.

No caso do governo Temer, mesmo com o seu breve tempo no poder, já se pode perceber de maneira indiscutível aquele objetivo que mencionei acima. Quase todas as suas medidas, sanções, projetos, enfim, são para favorecer direta ou indiretamente o lucro privado. Desde a aposentadoria com idade mínima de 70 anos e a "flexibilização" das leis trabalhistas, até as dificuldades que estão sendo impostas para o licenciamento ambiental e a recente permissão para a pulverização de agrotóxicos em zonas urbanas, tudo isso revela uma preocupação única com o lucro. Tudo o mais parece não importar para o nosso presidente interino.

O PMDB e seus aliados esquecem que um país, um estado NÃO SÃO uma empresa, que o objetivo do Estado não é lucrar ou fazer caixa, mas bem atender ao seu povo, aos cidadãos que necessitam da assistência do estado e trabalham e contribuem para isso. Uma nação necessita de pessoas, muito mais do que de dinheiro. São governos desumanos e comprometidos com os interesses das elites, aqueles governos onde os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Triste sina a do povo brasileiro.  Aproveito para republicar um trecho de um de meus poemas relacionados ao assunto:

quem crava seus dentes
nas veias cavas macias
das nações indefesas?
o lucro vampírico
(dos chupacabras)
das grandes
em
presas



27 junho 2016

Considerações sobre a Opressão

I - o oprimido
não se julga oprimido
porque acostumou-se com a opressão:
oprimir é fazer-se acostumar

II - opressão é convencer-se
de que ela não existe

III - “saber o seu lugar”
é a máxima da opressão

IV
– o objetivo da opressão
é transformar pessoas em máquinas:
máquinas só cumprem suas tarefas
e nunca questionam sua programação

V – o oprimido
é como a ave
há muito tempo na gaiola:
mesmo quando vê a porta aberta
prefere não sair

25 junho 2016

Hieronymus Bosch e seus Detalhes Assombrosos

Já declarei por aqui algumas vezes que o pintor holandês Hieronymus Bosch (1450 - 1516), ou Jeroen Van Aeken, é meu pintor favorito. Não só pelo espetacular de suas criações, pela imaginação quase inconcebível, ou pelo caráter fantástico e aterrorizante de seus quadros, mas também, e ainda mais,  pela sua inacreditável capacidade visionária, antecipando-se em 400 anos(!) às características do Surrealismo e do Expressionismo, movimentos típicos do século XX. Da mesma forma, Bosch parece "prever" o clima de caos, medo e horror que dominou o mundo durante as décadas das duas guerras mundiais, e por que não dizer, que acabou se alastrando por todo o século XX, chegando aos nossos dias acrescentado e/ou transformado em novas formas de horror, como a destruição da vida no planeta e o homem perdido e oprimido por entre a selvageria e o desespero da vida pós-moderna. 

Óbvio que as obras de Hieronymus trazem um caráter altamente simbólico, alegórico. Compreendê-lo não é tarefa fácil. Mas podemos ter vislumbres intuitivos de compreensão de suas imagens escatológicas, se as contemplarmos além da interpretação lógico-racional. A seguir, nove detalhes selecionados por mim de várias obras de um dos maiores gênios da pintura universal (clique para ampliar):















23 junho 2016

Não Sou Produtivo

I - querem que eu produza.
gritam: da vida o objetivo
é ser um homem produtivo!
mas o correto seria:
ser produtivo
com qual objetivo?

produzir o quê? por quê? para quem?
quem ganha com o que eu produzo?
sei que eu não sou.
quem paga o preço
do que é produzido?
a que o planeta
é reduzido?

II - querem que eu viva em ordem.
a ordem é o quê?
a ordem é para quê?
a ordem é para quem?
quem ordena a ordem?
quem julga a ordem como sendo ordem?
em que tipo de ordem
é que se quer que se viva?
o que é que seria ordenado?
em benefício de quem?
em prejuízo de quem?

III – o artista
(quando artista)
não produz:
de máquinas
é que sai produção

da arte
sai criação

21 junho 2016

Brasileiro não apoia greves

O texto abaixo escrevi e publiquei no blog há 3 anos, em 20 de junho de 2013. A publicação original pode ser conferida aquiRepublico parte do texto, tendo em vista a atual greve do magistério gaúcho. A seguir, o texto de 2013:

A sociedade brasileira em geral não apoia greves. Quase sempre fica contra os grevistas e a favor dos governantes, e exige que os grevistas voltem a trabalhar e negociem sem paralisações. É que a greve não é um protesto festivo e descompromissado. A greve, quando bem feita e organizada, fere profundamente o seio da sociedade. Porque é só neste momento, no da greve, que todos sentem na pele como determinada categoria trabalhadora faz falta às pessoas.

Mas então, o que ocorre? Por que quase sempre as greves não dão resultado no Brasil? Porque os governos ficam na situação cômoda de ter a sociedade a seu favor. As pessoas, sentindo-se prejudicadas com as paralisações dos serviços, não são capazes de se solidarizar com as reivindicações autênticas dos grevistas, daqueles trabalhadores explorados pelo mecanismo injusto do sistema. Não saem para as ruas com cartazes e palavras de ordem. Não exigem que o Brasil "acorde". Não saem trancar o trânsito e invadir congressos. Pelo contrário, ao invés de pressionar os políticos, pressionam os grevistas e acabam por tirar toda a força do movimento. 

É o que tem acontecido com as greves do magistério. Todos garantem estar a favor da educação, porém, na hora do "pega pra capar", quando a classe dos professores se manifesta de forma real e efetiva, não com protestos inofensivos, o que é que faz a sociedade? Indigna-se contra os professores, afirma que estão reclamando de "barriga cheia", que estão prejudicando inocentes, que são os seus filhos, que terão que recuperar aulas, que não poderão aproveitar a totalidade das férias...

Quero ver agora todos esses manifestantes que protestam nas ruas apoiar a primeira greve de professores que surgir em qualquer canto deste país. Quero ver a sociedade ficar a favor dos professores, como tem ficado com relação a tantas manifestações.






19 junho 2016

Tu, que estás enganado

homem, não te enganas
pois
há um algo que falta
há um ato não feito
há um fato não vindo
há um alto não dado

há um dado jogado
há um fato do fado
há um lago sem fundo
há um mundo de ratos

e há uma falta em teu algo
não há fundo em teu feito
não há jeito em teu dado
não há alto em teu mundo
desenganado


17 junho 2016

Campanha de Camiseta*

“seja você mesmo”
diz a sociedade mesma
e diz a mesma coisa
a todos
seja você mesmo
desde que
seja o você mesmo
aceito pelos outros
mesmos
que
no fundo
são os mesmos mesmos

“seja você mesmo”
diz a mocinha mesma
autoajudante
pleonástica
e é tão mesma
em sua mesmice
quanto todo mundo
mesmo

e pensa que não é
como todo mundo
ensimesmado em ser igual
aos iguais

que gostam andam agem
pensam sentem fazem
o mesmo
sendo eles a esmo
como mandava a camiseta
que todos
vestiam a mesma

*Poema reelaborado e republicado.



15 junho 2016

Educação x Imediatismo

Sabem por que o brasileiro, em geral, não valoriza a educação? Por que o brasileiro, em geral, é um imediatista. E os imediatistas acabam se tornando idiotas.  Não só o brasileiro, mas o brasileiro parece ser o suprassumo do imediatismo. O brasileiro gosta do que é imediato, daquilo que pode ser visto, visualizado, percebido, enfim, em curto espaço de tempo. O fato tem relação com a Era da Aparência que vivenciamos. Só vale aquilo que pode ser visto, mostrado, ostentado. E, no Brasil, imediatismo e aparência são dois de nossos maiores "valores".

Ora, educação e imediatismo são duas coisas totalmente contrárias. Não se faz educação com imediatismo. Educação não é e não pode ser imediata. Educação é um processo, que exige tempo, investimento, dedicação. Se exige tempo, acaba demorando para se perceber os resultados do processo educacional. Não se pode investir hoje para se colher resultados semana que vem. Então, o brasileiro, como não vê resultado imediato nenhum na educação, não vê nela nenhum valor. 

E os políticos sabem disso. Para quê um político vai investir em educação se o que o povo que o elegeu quer ver são resultados imediatos? Para que investir em algo que vai mostrar seus efeitos, por mais grandiosos que sejam, só depois de anos? Não se investe em educação porque não há o que ser ostentado de imediato para um povo imediatista e que só valoriza a aparência das coisas. E assim vamos eternizando nossa imbecilidade, nunca saímos do abismo de ser um país de baixíssima, vergonhosa educação. 

O problema é que o povo não sabe que é imediatista. Dificilmente quem é imediatista percebe que o é. De modo que é fácil todo mundo afirmar, inclusive os políticos, que educação é prioridade. Mas no momento em que se necessita do imenso investimento, do longo espaço de tempo, de todo um processo difícil, complexo, para se colher os magníficos resultados da educação bem realizada, ninguém está disposto a pagar o preço. 

O mesmo acontece em momentos de greve do magistério, como a que estamos presenciando no RS. Grande parte da sociedade, dos pais, dos alunos não aceita a greve porque está preocupada apenas com os efeitos imediatos da paralisação, como o atraso no ano letivo. Mas não percebe, ou não quer perceber, que greves, protestos, manifestações são instrumentos de melhoria a longo prazo, são formas de reivindicação que buscam não só cobrar e pressionar governos incompetentes e/ou mal intencionados, mas também conscientizar a sociedade de que muitas coisas estão erradas e que algo deve ser feito para iniciar sua modificação o quanto antes. 

Porém isso, como tudo na educação, não é imediato. Então, poucos são os que realmente se importam. E segue o Brasil no seu imediatismo e no seu atraso eterno. 

13 junho 2016

"Não sou nada. Nunca serei nada."

(Fernando Pessoa, à direita, tomando café com um amigo.)

Porque hoje  (13 de junho) é aniversário do maior poeta da nossa língua, deixo trechos de um dos maiores poemas de todos os tempos: Tabacaria, de Fernando Pessoa.

Tabacaria (Trechos)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer...
(…)
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um...
(…)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede 
sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
(…)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
(...)
Acendo um cigarro....
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações...

 Fernando Pessoa

11 junho 2016

da Saída da Humanidade*

I - muito se fala
sobre uma saída para a humanidade:
os termos estão errados:
muito se deveria falar
sobre a saída DA humanidade

II - para a humanidade
não há saída
a não ser que a humanidade
saia de cena:
é uma pena

III - para onde quer que se olhe
não há lado a ser olhado:
tudo já foi corrompido
consumido
ou contaminado

de modo que a única saída
é admitir-se culpado
e aceitar a pena

*Poema reelaborado e republicado.

09 junho 2016

O Triunfo do Não

sim, o Não venceu.
a vida tornou-se
a negação da vida

vale mais um Puma®
do que um puma
cuida-se das máquinas
esmagam-se as árvores
entroniza-se o robótico
aniquila-se o humano

a esperança nos horizontes
assume as cores escuras
da poluição
os tons sombrios
da sonoridade do não

ao contrário de César
não fomos
não vimos
não vencemos

nem amamos

não somos
nem razão
nem emoção:
só um misto
de nadas e de nãos

e nem nos demos as mãos

negamos a tudo:
desde o ser
até a alma
e como derradeira negativa
hoje
(não-)vivemos
o Triunfo do Não.
maldição!




06 junho 2016

"Viver é não conseguir." (Variações sobre um tema de Fernando Pessoa)*


I – é inútil dizer à frente:
de nada adianta
qualquer coisa que se adiante

II – o mundo é lodo
dos tolos todo

III – qualquer palavra que eu diga
é pralarva  doida varrida

IV – qualquer verso que eu faça
não vale mais
que um gole de vinho
whisky
cachaça

V – quanto mais se insere com todos
mais não se passa de nada
mas sabe ver o seu nada
quem se entende com o Todo

VI – o mundo é mesmo só isso:
para que se consiga
uns secam os mares com redes
outros pescam lambaris de caniço

VII – quem acha que conseguiu
não percebe que a vida é vento:
ou é porque não sabe
que tem o que não quis
ou é porque não vê
que o que quer é só momento

*Poema reelaborado e republicado.




04 junho 2016

Questão de Honra

o amor
é uma questão de trato
a confiança
é uma questão de taco
a dor
é uma questão de trégua
a política
é uma questão de treta
a justiça
é uma questão de troca
a vida
é uma questão de trampo
a solução
é uma questão de trago
o fim
é uma questão de tempo