Meu 2º livro: Poemas do Fim e do Princípio - Uma Aposta no Livro Digital

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13 fevereiro 2016

Versos a Wagner

Há 133 anos, 13 de fevereiro de 1883, falecia o maior compositor de óperas da história da música, o alemão Richard Wagner. Wagner, foi um revolucionário e um polêmico. Ainda hoje, sua obra e sua vida suscitam as mais diversas interpretações, algumas beirando o absurdo. Não é a intenção desta postagem debater sobre as polêmicas wagnerianas. Em postagens passadas, escrevi sobre o assunto. O caso é que Wagner era um forte e um gênio no sentido profundo da palavra, e, como tal, permanece incompreendido. Entre Wagner e Brahms (com relação às adversidades do século XIX), sempre ficarei com Brahms. Mas cada um cumpriu papéis diferentes. E, na ópera, ninguém se compara a Wagner. Escrevi o poema abaixo em 2012. Mas o reelaborei em grande parte. E republico como uma humilde homenagem.

Versos a Wagner
trompa e trovão é teu trono
pulsa em teu punho um mistério
do alto em que o símbolo estrada
alma que se ergue em espada
além do pulso do etéreo

fúria o sonoro do sol
céu o marcial do vermelho
vi largo que algo se erguia
raio no sangue do dia
olhos no ocaso do espelho

e luz que se arma e de força
à forca o que é não-ser:  Fafner
tormenta à íris de Deus
e um toque à chama dos teus
pois entre o horizonte há Wagner     

11 fevereiro 2016

Somos todos bois de canga ou robôs?


Gaúcho de Alegrete, Sergio Faraco, no auge dos seus 75 anos, é um dos grandes contistas brasileiros da atualidade. Em seu conto "A Era do Silício", faz-nos uma descrição das mais acertadas do homem moderno: desumano, inumano, condicionado, robotizado. Vamos a ela:


"Ela era apenas um dígito na unidade binária que a controlava, desde os esconsos de um longínquo mainframe. Ela e todas os que ali trabalhavam.   E para consolidar a excelência dos seus serviços, já renegavam seus sentidos, já não reconheciam sentimentos,  já eram soldados da era do silício, e até prefeririam que lhes substituíssem as células nervosas por plaquetas de transistores, diodos e circuitos integrados. Já não eram inteiramente humanos, e, ao invés de algozes, eles também eram as vítimas, marchando como marcham os bois de canga, a pontaços de picana. E eu, perguntou-se o homem, serei como eles?"


Esse é o nosso retrato. Abstenho-me de maiores comentários.


09 fevereiro 2016

da Saída da Humanidade

I - muito se fala
sobre uma saída para a humanidade:
os termos estão errados:
muito se deveria falar
sobre a saída DA humanidade

II - para a humanidade
não há saída
a não ser que a humanidade
saia de cena:
é uma pena

III - para onde quer que se olhe
não há nenhum lado a ser olhado:
tudo já foi corrompido
consumido
ou contaminado

de modo que a única saída
é admitir-se culpado
e aceitar a pena






04 fevereiro 2016

“Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.” (Baudelaire)

ninguém é o que são:
eu mesmo
só sou meu eu mesmo
quando sou ninguém

o que somos
somos de não-ser

ninguém aqui é são:
somos todos doentes
há mais podres na alma
do que bactérias nos dentes

ninguém é o que seja:
não somos
nem o que se deseja

ah, os que que se julgam sãos...
todo mundo se acha 
um épico
mas mais seria si mesmo
um bêbado



02 fevereiro 2016

A Verdade é uma Merda

o problema da verdade
é que a gente não gosta dela:
enche o saco é desagradável
a verdade só incomoda

a verdade é da turminha do mal
diz coisas que não se quer saber
é como tormenta na hora da festa
a verdade é uma estraga prazeres

a verdade torna tudo mais difícil
ela em si é um saco de entender
ainda mais de aceitar e viver
a verdade dá muito trabalho

a verdade decepciona
não é o que gente espera
tem uma cara antipática
e passa nos dando nos dedos

enfim
a verdade é tão chata e odiada
que é igual à poesia




31 janeiro 2016

Confesso-me*

Eu confesso que não passo de um mísero,
admito a maldade e o eu egoístico,
sou um errático consciente do abísmico
e sei deste horror que assola meu ímpeto.

Qual humano se escancara de hipócrita?
qual ser medíocre é que arranca sua máscara?
eu, que atinjo essa indiferença máxima
sei que me sangra essa inútil carótida.

Da humana raça me afirmo inimigo:
sobe-me à goela um reflúxico grito
e fervem-me ânsias nos brônquios do peito...

Há cuspe em todas as letras que digo
e mais vícios nos meus olhos malditos
do que erros pela minha obra mal-feita.

*Poema reelaborado e republicado.

28 janeiro 2016

Autoajuda para a Época da Aparência

I – não se martirize
não se sacrifique
pelo bem comum:
ninguém reconhece o sacrifício
pelos outros

só se reconhece o sucesso.
ponto.
e ainda mais se esse sucesso
for em cima do sacrifício
dos outros

II
– não seja profundo:
ser profundo pode fazer
com que se sinta e se pense:
sentir e pensar
pode lhe deixar infeliz:
quem é infeliz
não aparenta sucesso

III – não cultive seus valores:
quem é que o verá
pelo que você vale
ou deixa de valer?
onde será
que sua honra
dignidade
sabedoria
o tornarão mais bem visto?
melhor dizendo:
cultive seus valore$


25 janeiro 2016

a dois palmos de nada

as pessoas
tanto falam
em conhecer a verdade
que a verdade
nem fala
ao que elas conhecem

enquadraram a verdade
em seus próprios quadrados
e desconhecem a própria quadra

passam pelas ruas
a perpassar passadas
e não percebem
pelo que passam a dois passos

das abertas palmas das mãos
largam flores e palmas
mas não apanham nada
a dois palmos a frente dos olhos
ou a dois palmos
adentro das almas



23 janeiro 2016

Mais plásticos do que peixes nos mares em 2050 (e 7 Bilhões de Inconscientes)


Produzir bens, destruir vidas. Gostem ou não, esse é o lema, o princípio básico da civilização contemporânea, da humanidade do consumo, da era da superfície. Da qual, eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas, todo mundo faz parte. Em 2050, NÓS teremos produzido, consumido e jogado fora tanto plástico que os mares estarão lotados dele. Confiram a notícia aqui. E essa é só uma das más notícias que nos aguardam em nosso futuro próximo. Negro futuro próximo. Por essas e outras que escrevi o poema abaixo dia 6 de janeiro, mesmo sem saber da catástrofe dos plásticos, muito embora eu já a imaginasse. Vou aproveitar para republicá-lo:

7 Bilhões de Inconscientes

 I - 7 bilhões de inconscientes
querem que eu acredite
que um mundo
de 7 bilhões de inconscientes
será melhorado solucionado
por 7 bilhões de inconscientes

II – quando digo inconscientes
não digo “aqueles não conscientizados”
digo aqueles que nem se sabem:
nem de si nem do que fazem
e tanto assim o é
que nem se reconhecerão no que digo

III – 7 bilhões de inconscientes
(nos quais me incluo por certo)
pedem-me que eu tenha esperança
e que ignore nossa ignorância




21 janeiro 2016

Enquanto houver lucro...


enquanto houver lucro
não haverá vida
nem de quem perde
nem de quem lucra

enquanto houver lucro
só haverá o suco
do que é vivo sugado
enquanto houver lucro
não haverá o justo:
só o homem esmagado

enquanto houver lucro
não haverá paz
enquanto houver lucro
só haverá pás
a cavar covas
só haverá a sede
insaciável
de quem quer mais
só haverá a sede
insaciada
de quem
não tem nada

enquanto houver lucro
o homem será invólucro
de um monstro
o homem será a máscara
de um mundo de faca
e máquina
e soco

lamento que seja assim
mas enquanto houver lucro
haverá o fim


19 janeiro 2016

Marginalia

Hoje, Edgar Allan Poe, o criador das modernas histórias de mistério, de crime e de suspense, completa 207 anos. É inegável que grande parte da literatura moderna originou-se com Poe, incluindo as análises psicológicas do Realismo e do Neo-realismo, que tiveram influência direta do perturbado e incrivelmente sagaz gênio norte-americano. O cinema, a pintura surrealista e expressionista e até mesmo a Psicologia, como ciência, devem muito a Poe.

A propósito da data, deixo alguns trechos de uma obra bem pouco conhecida, mas não menos importante, do poeta de O Corvo. Trata-se da Marginalia, algo como uma reunião de breves escritos entre filosóficos e poéticos, algumas vezes passando por uma intensa ironia.

No trecho a seguir, percebam o acerto do poeta quanto à sua previsão da "rapidez" da vida moderna:

"O progresso realizado em alguns anos pelas revistas e magazines não deve ser interpretado como quereriam certos críticos. Não é uma decadência do gosto ou das letras americanas. É, antes, um sinal dos tempos; é o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação."

No seguinte, deixa-nos um conceito de artista:

"Um homem de certa habilidade artística pode muito bem saber como se obtém certo efeito, explicá-lo claramente e, contudo, falhar quando quer utilizá-lo. Mas um homem que possua certa habilidade artística não é um artista. Só é artista aquele que pode aplicar, com felicidade, seus mais abstrusos preceitos."

Abaixo, Poe fala de como se adquirir inimigos:

"Aprouve-me, algumas vezes, imaginar qual seria a sorte de um homem dotado - para desgraça sua - de uma inteligência superior em muito à de sua raça. Naturalmente, ele teria consciência dessa superioridade e não poderia, por ser, sem dúvida, constituído como os outros homens, deixar de manifestar essa consciência. Adquiriria, assim, inúmeros inimigos. E como suas opiniões difeririam profundamente das de todos, seria ele facilmente colocado no número dos loucos."

"Por sua vez, para os medíocres, o meio mais rápido de, por sua vez, alcançarem eles a grandeza, é agir contra os grandes homens. É provável que o Escorpião jamais se tivesse tornado uma constelação se não tivesse mordido o calcanhar de Hércules."

Da adoração dos nossos dias:

"Os romanos honravam suas insígnias, e a insígnia romana era , algumas vezes, a águia. A nossa insígnia não é senão o décimo de uma águia - um dólar - mas não nos embaraçamos em adorá-lo com uma devoção dez vezes mais forte."

Para finalizar, sobre a vingança, onde Poe deixa uma sutilíssima ironia:

"Pode haver coisa mais doce para o orgulho de um homem e para a satisfação de sua consciência do que o sentimento de se haver vingado plenamente das injustiças de seus inimigos com o ter-lhes sempre e simplesmente feito justiça?"

17 janeiro 2016

A Era da Superfície (Parte II)

I - o artista
que mais alcança
o coração dos outros
é o que melhor destrói o seu:
não por destruí-lo
mas por esgotá-lo

II - artista
é quem enfrenta o homem
para trazer ao humano
mais humanidade
indo contra a humanidade
inclusive contra a sua

III – em uma época
em que o humano
não quer ser humano
(porque envolve conhecer-se
que é ir além da superfície)
mas quer ser máquina
movida a coisas
ser artista
é destruir-se
de tanto ser-se