25 setembro 2018

Os 14 Pontos do Fascismo

Afinal, o que é FASCISMO? Umberto Eco, romancista e filósofo italiano, falecido em 2016, é um dos mais importantes e respeitados escritores contemporâneos. É o autor do célebre romance "O Nome da Rosa", que trata da proibição de livros pela Igreja Católica durante a Idade Média. Em 1995, Eco escreveu um texto para uma conferência onde ele trata exclusivamente sobre o assunto "Fascismo". Ele intitulou o texto de "Ur-Fascismo" ou "Fascismo Eterno". No longo texto, ele identifica e aborda 14 características do Ur-Fascismo. Abaixo, estão apenas trechos do texto. Mas já poderemos comparar o que é o Fascismo com o que ocorre hoje no Brasil.

Escreveu Umberto Eco:

"A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição.

2. O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja do pênis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico."

O texto de Eco pode ser lido por completo NESTE link.


23 setembro 2018

Aquelas Asas

aquelas asas batiam 
como se ninguém acreditasse nelas.
em cada batida de asa pesava
uma condenação
em cada olhar do urubu uma sentença
e eu estava bêbado e por isso eu vi

dois sóis queimavam no horizonte:
um sol era sol outro sol era o mal
e aquelas asas em câmera lenta
como se debochassem do que temi
como se distanciassem do que não fui
e não era só eu que morria

aquelas asas como furacões na Flórida
um dragão de Tolkien nos meus olhos em crise
jamais esquecerei que haviam duas asas
pelo caminho do alto

toda uma humanidade a ser destruída
os dois sóis me olhando 
desde antes que eu amasse
cada batida de asa era uma vitória
sobre o que não sou

nenhum som se ouvia daquelas asas
a não ser a surdez de Beethoven
que era como um grito que se elevava aos poucos
"e um clamor de vingança retumba"...
e a Morte que tinha o fedor da esperança

faltou eu falar em sangue
daquele de gota em gota
a cada batida de asa
e um sol se punha e outro não
como incêndios nos meus erros
que formam tempestades
e melodias de flautas ecoaram
naqueles horizontes de Fim

e eu olhei para aquelas asas que me batiam
como se dissessem que eu estava morto
mas as asas viam mais que meus olhos
e algo se erguia além do que vejo
além do que vês
um sopro de asas sobre as nações
e aquele sol que não era um sol
avermelhou-se como se vencesse
abaixo daquelas asas
de mensageiros


21 setembro 2018

Quatro Metáforas sobre a Decadência

1 - em geral os homens caem
porque não olham pra baixo

2 - em geral os homens morrem
porque caíram por dentro

3 - a decadência do homem começa
no ponto em que termina
a sua consciência de que é decadente

4 - nem o sol (que é sol)
permanece sempre no alto

18 setembro 2018

Bandido bom é Bandido Morto

Bandido bom é bandido morto. OK. Mas quem é bandido?

Bandido também é o BANQUEIRO que, na exploração impiedosa do sistema financeiro, suga o máximo que pode do pouco, exíguo, dinheiro do trabalhador, do pobre sem assistência, que precisa se sacrificar, às vezes, até entregando aos bancos seu reles pedaço de terra, para não ser preso pela "lei" que protege os ricos.

Bandido também é o EMPRESÁRIO SONEGADOR, que rouba os impostos que você paga quando compra um produto e serviço. E depois esse dinheiro vai faltar para o seu filho estudar, para ter saúde e para se sentir seguro, porque é o dinheiro desses impostos roubados, o maior roubo em números do Brasil, que possibilita o avanço e bem-estar social.

Bandido também é o MÉDICO que cobra 500 reais por uma consulta particular e se recusa a marcar consultas ou atender pelo SUS, porque o SUS SÓ paga 10 mil reais por mês, e assim não dá pra enriquecer rapidamente. E aí deixam que morram nas filas dos hospitais velhos e crianças pobres que pagam seus impostos em dia.

Bandido também é o LATIFUNDIÁRIO DO AGRONEGÓCIO e o INDUSTRIAL que empregam mão de obra escrava ou semi-escrava, que exploram até a medula o pobre e ignorante trabalhador rural e urbano, que envenenam nossa comida com agrotóxicos proibidos e aditivos nefastos causando inúmeros tipos de câncer na população e poluindo águas e terras, destruindo o que ainda resta do nosso ambiente.

Bandido também é o CAÇADOR que mata sem dó nem piedade animais belíssimos e raros da nossa imensa e massacrada fauna, que não respeita a vida dos seres que possibilitam a nossa existência e deixa um rastro de morte e horror por onde passa.

Bandido também é o JUIZ e o POLÍTICO que recebem uma soma astronômica e absurda de privilégios, que não têm a honra e a dignidade e a vergonha de achar que isso está errado. E ainda debocham da cara do povo pobre, miserável, que tenta sobreviver, ou morre mesmo, muitas vezes, com menos de um salário mínimo. E ainda são obrigados a ver seus filhos agonizando de fome e sem oportunidade de nada.

Esses BANDIDOS você quer ver morto? Ou é só o bandido pobre?

16 setembro 2018

Viver é não estar nos planos

o que se planeja
não é o que vida:
viver é não estar nos planos

não esperar
é evitar que o vindo
não seja o esperado

só espero pelo que não se espera
que é o que não depende
do inútil do meu esforço

mas de um indefinido não pensado
paisagem em súbito na estrada
susto de inspiração surgida do nada

como pode valer a pena
ser alcançado o que sempre esteve
ao alcance da mão?
a canção que mais nos comove
é aquela que canta
(em nosso íntimo)
o imenso de um não

o que é então
que deve ser como deveria?
melhor é o que não se espera
o que não se vê e nem seria

as mais longínquas estrelas
são vistas apenas
durante noites sombrias

14 setembro 2018

Variações sobre um Tema de Fernando Pessoa: "Viver é não conseguir."

I – é inútil dizer à frente:
de nada adianta
qualquer coisa que se adiante:
o mundo nunca vai avante

II – qualquer verso que eu faça
não vale mais
que um gole de vinho
whisky
cachaça

III – o mundo é mesmo só isto:
para que se consiga
uns secam os mares com redes
outros pescam lambaris de caniço

IV – quem acha que conseguiu
não percebe que a vida é vento:
ou é porque não sabe
que tem o que não quis
ou é porque não vê
que o que quer é só momento

V – o mundo é lodo ou é ouro?
é todo lodo ouro de tolos
dos tolos todo


12 setembro 2018

Poema Negro

Nós somos os homens mortos.
e caminhamos passo a passo ao abismo
como fariam os cegos de Bruegel.
nossas esperanças amanheceram boiando podres
sobre um lago de esgoto
e nós nos agarramos a elas
como um cachorro pesteado
se agarra a seu osso seco.
nossos sonhos se enegreceram
e subiram aos céus como nuvens
de queima de carvão e petróleo
e formaram tempestades que desabam
sobre nossas cabeças tortas.
vimos nossa fé desmoronar
como desmoronam catedrais nas guerras
e nossos amores se suicidaram
como cavalos que se jogam em poços.
as oportunidades que nos foram dadas
transformamo-as nos chiqueiros dos porcos
entremeadas de restos lamas e fezes.
não só não aprendemos com nossos erros
como os tornamos um sol falso
a brilhar doente por um céu enfermo.
falhamos ao tentar ser grandes.
desabamos ao tentar ser fortes.
fracassamos ao tentar vencer.
quando olhamos para trás
vislumbramos desertos de horror e caos
e horizontes rubros de tormentas sussurravam
que era tarde demais.
trabalhamos pelo que não valia nada
nos preocupamos com o que não valia a pena
e trocamos direitos divinos por um prato de feijão.
caímos de joelhos ante nosso destino
e reconhecemos em lágrimas
que a noite e a morte
são sempre mais vastas.
são sempre mais fundas.
são sempre mais fortes.
Nós somos os homens mortos.

09 setembro 2018

Sobre o Vinho

I - bebê-lo é olhar
meu ser do que não sou
pelo lado oposto
daquele outro gosto
do teu olhar no espelho

II - no vinho o que é que se afoga?
não se afoga
o fogo é que se inunda
afogueado de outro sangue
de essência mais quente e mais funda

III - há o branco e há o rosa
o ácido o doce o quase absinto 
mas o melhor do beijo
é quando ele fica tinto

06 setembro 2018

Fracassei

falta-nos humanidade
ou humanidade é o que é:
o isso que nos falta?

o ser humano é isto
ou ser humano é o que não se foi?
ou o que já se foi?

o ser humano é a árvore que não cresceu
ou é a semente apodrecida?

e eu? que parte faço eu
nisso em que não me sinto mas me estou?
sou um exemplo do fracasso da humanidade?
ou fracassei
pra nos mostrar o que restou?

03 setembro 2018

(Só) Trabalhe

quando eles dizem: "Trabalhe!"
eles querem dizer: "SÓ trabalhe!"
é a melhor forma de dominação:
quem só trabalha
não tem tempo para ler
nem para ouvir
nem para ver
nem pra pensar
nem pra sentir
ou se inquietar
ou questionar
ou contemplar
enfim... não tem tempo para a vida

quem não vive
não se importa com o que vive
nem com o que sofre
nem com o que morre

a era pós-humana
a era pós-tudo
quer só máquinas e robôs
porque eles SÓ trabalham

quando eles dizem: "Trabalhe!"
eles querem dizer "SÓ trabalhe!"
eles só não dizem só
porque não é só

01 setembro 2018

Marcha Fúnebre

tempos de marchas
por tudo e pra nada
para o nada
nulas caminhadas de mulas
marchas com as marcas
de todos os ismos
marchas a um passo de abismos

marcha das máquinas
das pisadas sobre as árvores
dos saltos sobre o peito dos pobres
das botas sobre o crânio dos bichos
das moedas sobre o sangue dos vivos
pés atolados em petróleo
almas atadas com correntes
até o fundo sem fundo dos bancos
marchas de palhaços e saltimbancos

marcha dos fanáticos hipócritas
que trazem Deus entre os dentes
e o Diabo entre as mentes
marcha dos fardados de fralda
marcha dos estúpidos
sob a vigia dos abutres...

marcha dos mortos
dos zumbis que dominaram o planeta
marcha murcha sem esperanças
a marcha do sol se pondo
ante o nosso féretro:
Marcha Fúnebre

30 agosto 2018

Política não. Ideias sim.

Há pessoas que comumente dizem: "Ah, pra que brigar por políticos? Nada a ver, isso é idiota, não vale a pena etc. etc etc. Algumas observações.  Primeiro: no meu caso, eu jamais briguei ou brigaria por um político, eu brigo por ideias. Políticos apenas representam ideias. Muitas vezes, mal e toscamente, mas representam. E as ideias não se originam com políticos. Originam-se com pensadores, com escritores, com poetas, com artistas, com cientistas. Os políticos passam, as ideias ficam. E se eu não brigasse por ideias, iria fazer outra coisa que não escrever. 

Segundo: na Alemanha nazista, para ficar com o exemplo mais famoso, quem não brigava por ideias teve que brigar pela vida mais tarde. E, geralmente, perdeu. E as ideias nazistas não se originaram com Hitler.  

Apenas para ilustrar e comparar: JOHANN VON GOETHE, poeta, escritor, dramaturgo alemão, foi um dos principais precursores dos ideais de LIBERDADE INDIVIDUAL do romantismo em seu princípio na Europa do século XVIII. Um poeta, não um político. DIETRICH ECKART, também poeta, também alemão, foi o principal precursor dos ideais NAZISTAS na Europa na primeira metade do século XX. Hitler, um político, tinha-o como mestre. Por essas e outras que afirmei anteriormente que as ideias não nascem de políticos e não é por eles que "brigo". São as ideias que merecem ser apoiadas ou combatidas.

Terceiro: "No inferno, os lugares mais quentes estão reservados aos que escolheram a neutralidade em tempos de crise." Dante Alighieri

Sobre o Brasil atual, um breve comentário: disse certo filósofo, cujo nome não me vem à memória,  que "Há momentos em que falar é um delito, e há momentos em que calar é um delito". Nessas eleições, e, provavelmente, também nas próximas, calar é um delito. Há algo realmente ameaçador ao nosso país, que não morrerá nas urnas, independente do resultado, e que pode transformar nossa nação em algo, até então, jamais imaginado de caos e horror. Essa ameaça de um desastre é real. Quem ainda não percebeu, deveria se "antenar" um pouco mais.

28 agosto 2018

de Loucos

Brasil, 
país de poucos.
país de porcos.
país de loucos.

solução? armá-los.

Brasil...
país de loucos...

Da Minha (P)Arte

da minha (p)arte
poeta é olho
saber a sina
palavra em montes 
por entre espinhos
poeta é nunca 
e é muita coisa 
bater o peito
do meu desfeito
poeta é pulso
fazer que sinta
ser tinto e nota
da minha porta
poeta é ir-se
dizer errado
entre o que é tido
por como certo
poeta é morte
de mais desejo
além da vida 
poeta é lábio
e sempre sangue
teu gesto exangue
é minha sorte
poeta é nada
só o nada fica
depois de tudo
o que partida
do que perdida 
poeta é fim
olhar ao Todo
virar em alma

sem uma palma.