23 julho 2019

de Humanidade, Ditadura, Liberdade

I - o mais absurdo da humanidade
é haver gente que vê saída
para o absurdo da humanidade

II - têm razão os que querem a volta da ditadura:
acaba-se com os males por decreto:
se alguém fez um mal, ninguém viu, porque é proibido
(proibido não fazer o mal, mas vê-lo)
e se ninguém viu, é porque o mal nem existiu

III - Liberdade não é só se dizer o que se pensa:
é pensar o que se vive
viver o que se sente
sentir o que foi dito
e saber o que está escrito

21 julho 2019

Sem muito o que Dizer

I - do poema futuro:

em cadáverso
um cadáver
em cadáestrofe
uma catástrofe

II - do tempo:

o problema do tempo 
é que um dia ele chega
e quando chega
o tempo que passou 
não chegou:
o tempo é sempre 
insuficiente

19 julho 2019

A Nossa Queda

não verás saída
para  o que te selaram 
como preço
pois verás um cerco 
que te prensa
e um circo de esterco 
que te apreça

é só este charco que te acerca:
desde o que pensas
(que é o que te ditam as imprensas
a te enfiar pelo rabo)
até essa pressa
de consumir a todo apreço
o que te ditam as empresas
a transbordar pelo ralo:
o que te espera
é só esse vaso
sanitário

de modo que a Nossa Queda
é só questão de preço e passo
ao abismo
só o que resta é o alerta:
todas essas eras de alarde
o Tempo com desprezo
esmaga cedo ou tarde

17 julho 2019

Pequena Marcha Fúnebre com os Pés numa Poça de Sangue

como não falar da morte
que nos olha tão constante
nestes dias que nos mostram
que nos vêm os corvos
que nos vêm os corvos

como não falar no horror
que nos vem de todo lado
com este sangue que nos lembra
de que nós já fomos
de que nós já fomos

nunca a morte foi tão forte
nos cravou tão longa garra...
ah esses olhos que recordam
de que já não somos
de que já não somos

quem me dera fosse amor...
mas a morte nunca esteve
perto mais perto tão perto
e só quem sente é quem sabe
de que estamos mortos
de que estamos mortos

15 julho 2019

Eu não sou o que Digo

o meu verso nada tem a ver do que penso
por mais que seja o que penso o meu verso
a arte que por ele passa quando passa
vem de um outro todo que nem tenho
vento que se vaga não comigo
lago que se nada no não-dito

deixo que passe o que se passa por mim:
a quem importa aquilo que me sinto
e o que corre no sangue do que tenho?
de que vale o vale que me afundo?

o verso é vasto longo e fundo
vai muito além do que nem está em mim:
por que querer que ele fale de um eu?
por que querer que ele diga o que (nem) sou
por que o verso tem que ser o que é meu?

13 julho 2019

A Próxima Guerra

a próxima guerra 
dos homens sem água
será pela mágoa
sedenta
de um mundo morto sem trégua
por homens mortos à míngua

A Próxima Guerra
dos homens sem alma
será pela água
barrenta
e de sangue esgotado por terra
e da vida envolvida por fogos

A Próxima GUERRA
dos homens sem vida
será pela alma
num mundo afogado nas trevas
de um poço sem água sem fundo

A PRÓXIMA GUERRA
dos homens sem nada
não será mais por moedas
mas por um pedaço de pedra
de merda

10 julho 2019

A Propósito da "Reforma da Previdência": (Só)Trabalhe! *

quando eles dizem: "Trabalhe!"
eles querem dizer: "SÓ trabalhe!"
é a melhor forma de dominação:
quem só trabalha
não tem tempo para ler
não ... para ouvir
não ... para ver
não ... para pensar
não ... para sentir
não se inquieta
não questiona
não contempla
não tem tempo para a vida

quem não vive
não se importa com o que vive
não ... com o que sofre
não ... com o que morre

a era pós-humana
a era pós-tudo
quer só máquinas quer só robôs
porque eles SÓ trabalham

quando eles dizem: "Trabalhe!"
eles querem dizer "SÓ trabalhe!"
eles só não dizem só
porque não é só
isso

*Poema elaborado em junho de 2017.

07 julho 2019

Sentença

a cada árvore plantada 
há mil derrubadas 
tantas 
quem nem deixam sinais 

a cada água que é clara 
há mil esgotadas 
tantas 
que nem se nota o horror 

a cada animal que é amado 
há mil massacrados 
tantos 
que nem se olha ao redor 

a cada balada composta 
há mil baladas na testa 
sangue 
que é tudo o que nos resta 

a cada beijo que é dado 
há mil beijos fingidos 
e ainda mais outros mil 
daqueles malditos 

e tenho escrito

05 julho 2019

Mensagem da Ruína

finda teu rastro em ruína
enfia o rabo no reto
risca da face da terra
teu rosto-resto em ruína

homens de raça-ruína
reles que roem e rastejam
porcos que arrancam e arrastam
num riso de reza em ruína

roídos seres-ruína
na rua em ranhos e ratos
de ranço e raiva rodeados
roucos de caos e ruína

rompida em fome e ruína
se rega em rugas tua alma
as rãs arranham o teu réquiem
e rolam ao rol das ruínas

homem em rápida ruína
larga ao raio tua rosa
rasga essas roupas de rico:
junta-te à Nossa Ruína.

03 julho 2019

Pós-Humano

as pessoas confundiram viver 
com o que se faz para viver: 
vive-se para um meio 
e nunca se chega a nada

as pessoas confundiram vida 
com o preço que se paga pela vida: 
apenas se paga o preço 
e não se vive

o objetivo da vida 
tornou-se o cansaço para o descanso 
para que se (al)canse de novo 
o mesmo objetivo (al)cansado
a se (al)cansar

chama-se de vida 
os pós que nos caem entre os dedos
para o vazio de (não) se viver

01 julho 2019

Governo Eduardo Leite: seis meses de Sartori

Eduardo Leite, do PSDB, é o novo Sartori. Ou melhor, é um Sartori piorado, por ser mais hipócrita. Elegeu-se através do conceito subjetivo de "Oposição Consciente" ao governo Sartori, criticando, durante a campanha de 2018, principalmente,  a política contra os serviços e servidores públicos exercida de forma impiedosa pelo governo PMDB durante seus quatro anos de desmonte do Estado e de venda do patrimônio público. Leite, na campanha, declarou: "Não é preciso parcelar salários. Dinheiro não falta. O que falta é um bom gerenciamento e reorganização do fluxo de caixa."

No entanto, uma vez eleito, o governador pelo PSBD, na prática, traiu seu discurso e os que nele votaram com a esperança de que a situação fosse alterada. Mantém exatamente a mesma política de Sartori: opressão e descaso com os servidores públicos, arrocho salarial, autoritarismo, sucateamento dos serviços oferecidos à população gaúcha, ausência de combate às regalias e à sonegação,  renúncia fiscal, privatizações e entrega do patrimônio do Estado etc.

Na verdade, assim, como os quatro anos do governo Sartori, esses seis meses de Eduardo Leite não são propriamente um governo, mas um desgoverno de desconstrução e desmonte, no que se alinha ao desgoverno federal de Jair Bolsonaro. São seis meses de um oceano de nada, de confusão e desorientação, em que o preço é pago, principalmente, pelos servidores públicos e pela população em geral que não tem o devido retorno dos impostos que paga.

No caso específico da Educação, a situação é ainda mais grave. Além dos atrasos e parcelamentos salariais que atingem todo o funcionalismo público, e já entraram no seu 43º mês, o Magistério gaúcho sofre com uma ausência absoluta de reposição salarial desde o início do governo Sartori. Já são 4 anos e 6 meses sem reajuste. Não fosse isso o bastante, escolas sofrem por falta de verbas, professores contratados são demitidos durante licença-saúde, a lei do piso continua a não ser respeitada e não há nenhum tipo de diálogo ou negociação com os professores.

Dessa forma, a paralisação desta segunda, dia 1º de julho, é um sinal claro de que, para os professores estaduais, a situação está insustentável, e que se não houver algum tipo de sinalização por parte do governo Eduardo Leite de que de fato negociará, medidas mais drásticas deverão ser tomadas pelo Magistério do RS.

30 junho 2019

A Época da Ausência

I - a cada passo dado pela humanidade
morre um otimista
que não percebe o passo
e não sabe que morreu

II - acreditar (ainda)
nesta civilização
como sendo civilização
é algo menos de ingênuo
e mais de perverso

III - dizem que vivemos tempos de desespero.
discordo.
para o desespero é necessária a consciência
de que se perderam as esperanças.
essa consciência não a temos:
vivemos tempos de vazio
vivemos a época da ausência

28 junho 2019

Sangue em Minhas Mãos

olho para o mundo que me cerca
e me sinto mal
olho para as pessoas que me cercam
e me sinto pior
olho para a morte que se acerca
e não me sinto vivo
olho para a vida entre cercas
e nem me sinto

não posso me sentir satisfeito
enquanto bilhões nem comida
têm para sua satisfação
não posso me sentir realizado
enquanto meu planeta
e tudo que nele vive
é aos poucos massacrado
anquilado
destruído

não existe sucesso algum
em meio ao fracasso desta civilização
o que se chama felicidade
não passa de mesquinharia
quem se julga feliz
é só um egoísta