22 abril 2012

Um Último Capítulo (ao Dia Mundial da Terra)

o tremendo
homem
ascendido de otimismo

após
(em seu poder)
ter aterrado todas as terras
desaguado em todas as águas
arrematado todas as matas
acampado em todos os campos
amontoado em todos os montes
(a não mais poder)
a pós

acendido de otimismo
(diante de mim me rendo)
agora está ali
abismado à beira do abismo
o homem
tremendo...

21 abril 2012

da Verdade em Zero Hora

O jornal Zero Hora de hoje publicou o meu poema abaixo, na seção do Almanaque Gaúcho. Aproveito para republicar o poema aqui no blog. Alguns dirão que estou fazendo autopromoção. É óbvio que estou. Modificando um pouco aquele chavão do Chico Anysio: "Faço. E quem não faz?"  Tanto é que os políticos eleitos são os que mais se autopromovem. Não é?

da Verdade

aquilo que é dito
é dito apenas para si mesmo
e para quem é como o si mesmo
porque já o era assim
antes daquilo que foi dito

ninguém quer ser con(vencido)
e menos ainda
quem já é convencido


cada um tem sua própria verdade
e só se convence daquilo
que convence sua própria verdade

quem sabe
sabe apenas para quem sabe

então
por que é que digo?
para que a minha verdade
seja ainda mais comigo

20 abril 2012

Aviso

o fóton de luz
não fala porque vela
e flui por entre o vale

e é lá por onde
o meu soprar se esconde

o verbo versa
porque se vaga em vento
e ruma-se em rumores

e é lá que sino
o meu sinal destino

o sopro sobe
porque se (h)ouve além
e designa o de cima

e é lá que escuro
o meu dizer sussurro

atenta ao que te (a)tenta
que onde não estou em meus olhares
meus versos olham-te em todos os lugares...

19 abril 2012

Para o Dia do Índio, Os Doentes, de Augusto dos Anjos

Para o Dia do Índio, comemorado hoje (mesmo não havendo o que comemorar), nada melhor que um trecho terrível do poema "Os Doentes", do grande Augusto dos Anjos:

Os Doentes (Trecho)
E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,
Esse achincalhamento do progresso
Que o anulava na critica da História!
Como quem analisa uma apostema,
De repente, acordando na desgraça,
Viu toda a podridão de sua raça...
Na tumba de Iracema!...
Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone,
Exercia sobre ela ação funesta
Desde o desbravamento da floresta
À ultrajante invenção do telefone.
E sentia-se pior que um vagabundo
Microcéfalo vil que a espécie encerra,
Desterrado na sua própria terra,
Diminuído na crônica do mundo!
A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante
Seu povo tombaria agonizante
Na luta da espingarda contra a flecha!
Veio-lhe então, como à fêmea vêm antojos,
Uma desesperada ânsia improfícua
De estrangular aquela gente iníqua
Que progredia sobre os seus despojos!
Mas, diante à xantocróide raça loura,
Jazem, caladas, todas as inúbias,
E agora, sem difíceis nuanças dúbias,
Com uma clarividência aterradora,
Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!
Augusto dos Anjos

Tribunal de Contas, Santiago e Puxa-Saquismo

Parece que a sessão do Tribunal de Contas em Santiago foi uma puxação de saco de dar gosto.   Mas um Tribunal de Contas pode aceitar puxa-saquismo? Ele não deve julgar imparcialmente?  Bem, mas o Brasil é um caso de literatura fantástica, aqui os maiores absurdos são possíveis. Kafka deveria ter vivido no Brasil. Quero só ver o que dirão os nossos jornais.


E como disse Rubem Braga: "Política é a arte de namorar homem". É uma coisa linda de se ver esse namoro apaixonado. E eu fico contente que alguns dos participantes da reunião tenham lido e aprendido com meu texto Tenha Sucesso Puxando o Saco. Quem ainda não leu, não sabe o que está perdendo: 
http://artedofim.blogspot.com.br/2012/04/tenha-sucesso-puxando-o-saco.html 

18 abril 2012

Após uma Melodia de Schubert

essa estrela que eu olho
não é ela que está lá
pois uma outra é que há
que me olha no que eu olho
mas essa estrela que é
que deseja o que eu vejo
nunca é no meu desejo

essa noite que eu vi
nunca foi a que estava
mas voou com outra asa
longe do que pedi
alma do que não foi
e outra noite me envia
voo do que morria

este sonho que eu tenho
não é sonho que pode
eu fiz-me em outra ode
nada que não sustenho
erro do meu não ser
noite que não vou tê-la
nem sonho e nem estrela...

16 abril 2012

Homem Fraco

é, fraco
que mal se aguenta nos cascos
quando lhe dói um dos lados
da imundície do estômago

homem trôpego
pouco mais que macacos
estilhaços
duma mentira aos cacos
vazio de pensamento
em vácuos
fraqueza lépida
que não sabe o que faz
sob a falta
de energia elétrica

homem fraco
pedaços magros
de espírito
trancafiado em frasco
palhaço!
homem lerdo
farás o que
no nada
do teu próprio deserto?
vieste de que ontem?
por que vives o que vives?
e vais para qual onde?

o que é que sabes disso que não sabes?
onde é que sentes o teu não-sentido?
o teu futuro me dá asco
ergue um túmulo
para o teu si mesmo
e para o meu desprezo
ah quem me dera
ser o teu carrasco
homem fiasco

14 abril 2012

Seis Rápidas Considerações sobre a Hipocrisia e à Humanidade *

da Hipocrisia

I – da História
existem escrituras apócrifas
(que ninguém aceita porque são falsas)
que dizem que todos
(eu disse todos)
são hipócritas

II – do Demônio
eu não sou eu
e a água nunca molha.
o diabo é diabo
porque não é diabo
para quem olha.

III – do Lado Oculto da Lua
se tu fosses sempre
aquilo que tu és
eu não te olharia nos olhos
mas te pisaria nos pés


da Humanidade

I
ser humano
é chegar sempre tarde
pelo entre a bonança
que precede a tempestade


II
de ti
não espero nada
e o digo em vasta voz:
é que multiplico por 7 bilhões
o zero que espero
de cada um de nós

III
talvez o melhor
é não estar contigo:
já nem sei
se ser teu benfeitor
é estar do teu lado
ou é ser teu inimigo

(Republicação, com algumas alterações, de dois textos publicados aqui no blog ano passado.)

13 abril 2012

Tenha Sucesso Puxando o Saco

Hoje, meu blog realizará um serviço de utilidade pública. Darei uma pausa nas completas inutilidades de poemas e contos. Obviamente, não servem para nada. Além do mais, dessa forma conseguirei um número recorde de acessos. São poucos os que se interessam por poesias, essas coisas chatas. Agora, quem não quer aprender a ter sucesso na vida de uma maneira fácil (talvez nem tão fácil) e agradável? Pois bem, espero ajudá-los. Peço apenas que leiam com atenção as lições abaixo:

1) Primeiramente, é necessário determinar-se com exatidão a quem puxar o saco.  Não pode ser qualquer pessoa, naturalmente. É preciso ter em mente o seguinte: devo puxar o saco com qual objetivo? Para que vou puxar o saco? Quais os benefícios pretendidos?  Dinheiro?  Status social? Influência política? Favores profissionais? Ou seja, é ostensível que devo procurar a pessoa mais adequada, de acordo com aquilo que desejo obter com meu trabalho em puxar o saco. Lembre-se que só se chega a algum lugar quando se sabe o que se busca.

2)  Esqueça esse negócio de honra, dignidade, honestidade. De que adiantam essas baboseiras? Muito bem, você será honrado, digno, honesto, mas e daí? Continuará pobre, sem influência alguma, sem posição social, em um emprego medíocre, e por aí vai. Nos dias atuais, o negócio é ser prático, mais que isso, pragmático, deve se tirar proveito de todas as situações, não importando essa balela de princípios. Princípios é coisa de poetas retrógrados. Princípios não enchem barriga, não lhe darão um carro do ano, não farão com que você esteja sempre em meio aos que podem. Entendido?

3) Ah, você é inteligente e culto e não precisa puxar  o saco para ter sucesso? Se afirma isso, então é não inteligente. Se o é, use a sua inteligência para puxar o saco com eficácia. Lembre-se que há dois tipos de Q.I.s. Use o primeiro para obter o segundo. O Quem Indica é até mais importante.

4)  Seja submisso, pratique a subserviência. Sim, é chato, eu sei, mas tenha em mente que é para uma causa maior. Para se puxar o saco com eficiência, deve-se fazer tudo para aquele a quem você puxa. Tudo! E sem reclamar. Pedido feito é pedido realizado. Os invejosos dirão que você é um pato. Mas você esta pensando em seu futuro, é tudo matematicamente calculado. Você nada mais é que um esforçado, alguém que cumpre com prazer as suas obrigações com alguém que é naturalmente superior a você em algum ponto determinado.

5) Não esqueça: quem puxa o saco só tem razão quando essa razão coincide com a razão daquele ser superior de quem você puxa. Portanto, suas opiniões e seu comportamento, ainda que difiram integralmente das opiniões e do comportamento de quem você puxa o saco,  devem ser esmagadas, pois não têm valor algum. Quem possui opinião própria e divulga suas opiniões somente consegue inimigos. E quem só possui inimigos acaba como? Sozinho, abandonado. É a lógica. Claro que nem sempre se pode aniquilar totalmente nossas opiniões, elas continuam dentro de nós, fermentando. Porém basta que as guardemos lá, bem sufocadinhas, sem nunca incomodar. Mas o ideal, o ideal mesmo, é que você mude de opinião, que passe a pensar exatamente como aquela pessoa da qual você puxa o saco. Tamanho sacrifício, tamanha abnegação chegam a ser sublimes! Alguém poderá dizer que você é um vendido, sem personalidade. Mas para você, suas ações são a de um grande mártir.

6)  Lembre-se: aquela pessoa de que você puxa o saco sempre age corretamente, nunca erra, mas se erra, foi por culpa de outros e não dela. Suas qualidades são sempre muito maiores do que seus defeitos, se estes existirem. E tais qualidades não devem ser apenas reconhecidas por você, não, você deve alardeá-las ao máximo possível. Exagere um pouco, se for o caso. E se alguém intentar lhe contrariar, mostre-se profundamente ofendido, indignado, saia em defesa incondicional de quem você puxa o saco. Tais atitudes serão muito bem recompensadas posteriormente.

7)  Existe um ponto de fundamental importância que não deve ser ignorado em hipótese alguma: para todos os efeitos, você NÃO é e nunca será um puxa-saco. A pessoa da qual você puxa o saco é, para os outros (é essa a imagem que você deve passar), alguém que simplesmente merece todo o seu respeito, a sua admiração, um grande amigo seu, um grande homem (ou mulher) pelo qual você faria qualquer coisa, sempre o auxiliando, sempre o ouvindo, sempre o defendendo. Mas por pura e simples convicção, nunca com segundas intenções. Você até poderá me questionar: eu devo, então, ser um fingido? A resposta é: óbvio! Sim, deve fingir, dissimular, utilizar-se da hipocrisia, afinal, nunca ninguém vai saber mesmo (se você for cuidadoso) , e o que vale é a aparência. Não é assim?  E é claro que o seu afeto pelo seu objeto de bajulação não precisa ser verdadeiro, autêntico. Você pode até falar mal dele pelas costas. Mas eu não aconselho, é muito perigoso. Imagine se alguém resolve espalhar? Ou chantagear você? Há muita gente invejosa por aí, há que se tomar cuidado.

8) E, finalmente, quando for se dirigir àquela magnífica pessoa de quem você puxa o saco, sempre, sempre! mantenha um sorriso no rosto, uma simpatia irretocável e um ar intensamente serviçal. Prontinho. O sucesso é garantido!

11 abril 2012

do Aquecimento Global

planeta cada vez mais quente...
o silêncio de serpente 
do calor em surdina
de grau em de grau
cálida mão do calor
que acaricia o mundo todo...

rios que secam
geleiras que derretem
mares que se aquecem
seres que se extinguem
camadas que se furam
terras já desertos

mais calor pelo mundo
ano a ano...
mas segue o caminho inverso
vai na contramão
o meu humano
coração sombrio...


planeta cada vez mais quente
coração cada vez mais frio

09 abril 2012

Soneto ao Após

palavra que sinto quando me esqueço
o que é que de ti lembrar-me te faz?
água que alonga ao instante fugaz
nada que traga o meu não ao avesso

seja comigo ao altar do teu preço
verbo-destino que segue-me atrás
silêncio que os muros quebra do mas
sonata que cala ao som do que esqueço

ah se eu corresse em teu rio sempre em chama
íris que fosse no som desta voz
braço sanguíneo que se ergue da lama

verso de nunca que se alta no após
ah se teu quem fosse o onde me chama:
deixa esquecer-me e lembrar-te entre nós...

06 abril 2012

Sexta-Feira Fúnebre

tristeza de não-antídoto
e sorriso de fundo trágico:
o que é o afinal do que seja válido?
o que me importa é teu gesto lânguido
o que me sonha é teu rosto sânguino:
o resto se arrasta rápido...

no horizonte de roxo há um pórtico
e o grave da vela na agonia da lâmpada
sombra escarlate cálida e tântrica
e halos à lua pulsando em céu dístico

o longínquo-ausência de um ósculo
e o algo de fim no teu olhar crístico

04 abril 2012

O Político (Ou do Justo Motivo de um Político Necessitar Desviar as Verbas Públicas)

Agora, estão dizendo que sou desonesto. Nada sabem sobre os desígnios de um grande político. Queria que os que me criticam estivessem em meu lugar. Eu também já fui um grande idealista. Em minha juventude, queria mudar, não, mais que isso, queria revolucionar minha cidade, meu Estado, minha Pátria, e, por que não? o mundo. Eu me sentia capaz das maiores realizações, dos feitos mais nobres e grandiosos, dos atos de heroísmo, do sacrifício pela nação... E eu me via, em meu magnânimo futuro, rodeado de todas as glórias, adorado pelo povo, um símbolo do que é correto, justo, enfim, um grande homem, o maior dos políticos.

Mas não pensem, meus senhores, minhas senhoras, não pensem que eu abri mão de todos esses ideais sublimes. Não, eu apenas os adaptei aos nossos tempos, às necessidades da sobrevivência. Ao contexto de nossa sociedade. De nossa civilização moderna, onde não há espaço para ingenuidades. Os ideais de um grande homem continuam vivos e ativos em meu interior, em minhas atitudes, sempre arraigadas na honra e na dignidade. Isso é que é ser honesto, honesto em manter a minha palavra de homem, qual seja, a que um dia prometeu lutar pelo bem-estar e pelo progresso do povo e da nação. Isso, eu estou certo que realizo com todos os méritos.

E nos meus discursos, qualquer um poderá comprovar a verdade intrínseca do que afirmo. Vejam, percebam como o meu verbo é forte, intenso, inflamado! Quem poderá duvidar da veracidade das minhas palavras? Quando discurso para o meu povo, eu encarno o espírito dos grandes estadistas, dos paladinos do passado, dos bem-feitores da humanidade. Muitas vezes, já chorei, derramei as minhas lágrimas, lágrimas sinceras, profundas, sentidas, quando me dirigia àquelas pessoas, vendo-as ali, com os olhos brilhantes de esperança, crentes no meu poder de melhorar suas vidas. Ah, como isso é belo, como é emocionante! E eu nunca as decepcionei!

Mas agora, agora vêm esses inimigos do povo, inimigos dos batalhadores da Pátria, atirar pedras na minha vida exemplar, acusar-me de roubo, de corrupção, de tráfico de influência, de crime de responsabilidade, de desvio de verbas... É como sempre digo: quem não está no poder, não sabe como deve agir quando se está no poder. Acreditam que podem ser um grande político sendo um reles santinho. Assim, serão esmagados. Devem entender, esses ingênuos, que estamos no meio de lobos. Entre feras. Já dizia o poeta que quem vive entre feras sente necessidade de também ser fera. Isso não é ser corrupto. É apenas ter consciência do lugar em que nos encontramos. Já que estou aqui e que cumpro com o meu dever, por que não? É justo que eu seja muito bem pago pelo meu serviço, que é fruto de anos, anos! de esforço, de dedicação, de reflexão sobre a vida, de criação de laços de amizade, de enfrentamento de inimigos, de sacrifícios voluntários, de dias e dias longe da família, da pessoa amada, para ficar ali, em meio a homens sórdidos, raposas ardilosas, criando pactos, alianças, sabendo a hora certa de apertar o gatilho. E aí, então, depois disso, eu sou um ladrão? Mas o que é isso? Onde é que estamos?

Meus amigos, tudo depende do ponto de vista. O que é desviar uma verba? O que é uma verba? Entendo que a verba pública, e os senhores hão de concordar comigo, é para o bem-estar do povo. Então, digamos que eu tenha me apropriado de alguma verba pública. Se o fiz, foi porque considero que foi para o bem-estar de todas aquelas pessoas as quais represento. Exatamente. Compreendo perfeitamente a importância da minha pessoa para a nação. Deixemos de falsa modéstia. Eu merecia aquele dinheiro. Merecia, primeiro por que batalhei muito para estar onde estou. E cumpro as obrigações de um homem eleito pelo povo. Estou dia e noite preocupado com o bem-estar da população, com o desenvolvimento do país. O que mais desejo nesta vida é contemplar a felicidade do meu povo, dos meus eleitores. E estou trabalhando para isso. E quero trabalhar ainda mais. Então, agora, entendam este ponto fundamental: para isso eu preciso de dinheiro.

Sim, eu sei que dirão que deputados e senadores já ganham muito. Mas dizem apenas por ignorância.  Por absoluto desconhecimento das inúmeras funções e atribuições de um bom político. Nosso salário não dá para nada, no que se refere ao exercício de nossas funções. Se eu não fosse um grande político tão cheio de responsabilidades, se não necessitasse de tantos assessores, de tantas pessoas de confiança, de tantas amizades imprescindíveis para o devido desempenho do meu cargo, tudo bem, o salário seria ótimo. Porém, infelizmente, não é assim. Eu preciso comprar pessoas. Digam o que quiserem, mas é assim. Se eu não comprar pessoas, que político serei? Quem estará do meu lado? Quem apoiará minhas ideias? Quem divulgará o meu nome, as minhas promessas, as minhas inúmeras realizações? Quem alardeará para toda a nação o grande homem, o genial político que sou?

Percebam, eu precisava daquele dinheiro, daquela pequena, exígua parcela daquela verba para continuar a realizar o bem para o povo. Foi uma necessidade que somente os grandes homens compreendem. Eu tenho que fazer favores para aqueles que me auxiliam nesta dificílima empreitada que é engrandecer a nação e tirar o povo da miséria. Ou será que não sabem que ninguém faz nada de graça? Aqueles homens e mulheres que me auxiliam, que possibilitam a minha atuação pelo povo, também necessitam da sua parte. Do seu pagamento. Claro que esse pagamento nem sempre se refere a uma soma em dinheiro. Às vezes é alguma outra necessidade dessas pobres pessoas, tão serviçais, que dão suor e sangue pelo nosso Brasil. Eu, como o homem justo que sou, devo atender justamente às reivindicações dessa gente que vende os seus prestimosos serviços, os serviços de suas empresas, de seus jornais, de seus blogs, que vendem as suas valiosas opiniões, enfim, que vendem a si próprias! Observem o gigantismo de tamanhos sacrifícios! E isso nem sempre sai barato, naturalmente.

Claro, às vezes, apenas pedem como pagamento um empreguinho aqui, uma informaçãozinha ali, uma participaçãozinha acolá, um patrociniozinho mixuruca, enfim, essas coisas simples, nada de mais. Porém como que vou possibilitar tais coisas a essas pessoas tão úteis, que são tantas, se eu não tiver dinheiro, poder econômico, influência política? E vou tirar dinheiro de onde? Ora, claro que das verbas públicas, exatamente pelo motivo de que eu as usarei para o bem da nação, e isso é algo inquestionável, indubitável, irrebatível, conforme atestam meus argumentos. Não é um desvio de dinheiro, é um emprego inteligente de uma verba que seria desperdiçada em alguma obra desnecessária. E que depois ainda acabaria abandonada. E esse dinheiro indevidamente definido como “desviado” nem ficou em minhas mãos. Foi para quem mais necessitava: aqueles que estão sempre do meu lado (e, por conseguinte, do lado do povo), auxiliando-me na minha divina missão.

Ah, irão dizer que isso a lei não permite? Ora, os grandes homens, os gênios devem estar acima da parca lei humana. Quantos feitos grandiosos nunca teriam sido realizados se não houvesse os corajosos que enfrentam todas as leis, nem sempre justas, os padrões estabelecidos, o senso comum, que vão contra todos os preconceitos e julgamentos ofensivos? Sei que este é o meu caso. Sim, podem me classificar como um ladrão, um salafrário, um cafajeste, seja o que for, eu aceito, em nome da nação pela qual sofro e me sacrifico. A minha consciência resplandece em absoluta tranquilidade. A tranquilidade do dever cumprido.

03 abril 2012

Década 2001 - 2011 foi a Mais Quente já Registrada, segundo a ONU

Apenas transcrevo a notícia veiculada no jornal Correio do Povo do dia 24 de março deste ano, na página 14:

"A década de 2001-2011 foi a mais quente registrada desde 1850 (ano em que tiveram início os registros climáticos) em todos os continentes do globo, indicou a Organização Metereológica Mundial (OMM), organismo ligado às Nações Unidas. A temperatura média durante esta década foi de 14,46 ºC, ante 14,25°C em 1991-2000 e 14,12ºC em 1981-1990. 

'As mudanças climáticas se aceleraram durante esta década', afirmou a OMM, acrescentando que o 'ritmo de aquecimento desde 1971 é notável'. Segundo a OMM, o retrocesso constante da camada de gelo do Ártico é uma das principais características da evolução do clima nos últimos dez anos.

Em relação à década 2001-2010, o ano de 2010 foi o mais quente observado desde 1850, com uma média de 14,53ºC, seguido de perto por 2005 (14,51). Fenômenos atmosféricos como o La Niña 'esfriaram o clima em alguns anos', mas não interromperam a 'tendência geral do reaquecimento'. 'O mundo está aquecendo por causa da atividades humana e isto está resultando em um impacto potencialmente irreversível', declarou o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud." Até aqui a notíciaa do referido jornal.

Com relação à irreversibilidade do aquecimento, conforme notícia veiculada pela Reuters (aqui), o cientista Will Steffen, diretor-executivo do instituto para a mudança climática da Universidade Nacional Australiana, em uma conferência em Londres, "Essa é uma década crítica. Se não revertermos as curvas nesta década, vamos ultrapassar esses limites".  Steffen continua: "Estamos no limiar de algumas grandes mudanças. Podemos... limitar o aumento das temperaturas a 2ºC, ou cruzar o limite além do qual o sistema passa para um estado bem mais quente."

De acordo com a Reuters, "no caso das camadas de gelo, cruciais para desacelerar o aquecimento, esse limiar provavelmente já foi ultrapassado, segundo Steffen. A capa de gelo da Antártida ocidental já encolheu na última década, e a região da Groenlândia perde 200 quilômetros cúbicos de cobertura por ano desde a década de 1990.

A maioria dos especialistas prevê também que a Amazônia se tornará mais seca em decorrência do aquecimento. Uma estiagem que tem matado muitas árvores motiva temores de que a floresta também poderia estar perto de um ponto irreversível, a partir do qual deixará de absorver emissões de carbono e passará a contribuir com elas.
Cerca de 1,6 bilhão de toneladas de carbono foram perdidas em 2005 na floresta tropical, e 2,2 bilhões de toneladas em 2010, o que reverte cerca de dez anos de atividade como "ralo" de carbono."
Sem mais.  

02 abril 2012

O Meu Ato

é alto o perigo em ser poeta
(ah quem dera
fosse só perigo...)
há que se andar sobre o rio da navalha
(ah quem dera
fosse um sol comigo...)
a que me destino
e a voz rouca do infortúnio mudo
há que virar hino...

para esperar-te no onde me esperam
de minhas esperanças
ao vento
tornado assassino
perdi-me
encontrando para outros
o intento
tornado escravo
dos versos livres
que me imagino...

lá nos confins do que se finda
em busca do que não estava
“vim, vi e venci”
e o deixei
sobre o leito de granizo
e piso
e parto
(partindo sem fato)
um após deixando
como meu ato

mas não pedirei nem um não
de gratidão