03 novembro 2009

Em Chamas

Sozinho, eu seguia pela estrada que parecia não ter fim. A cada passo que com absurdo pesar eu executava, uma nuvem negra de sangue surgia nos horizontes carregados de horror. A poeira da estrada desolada ardia-me nos olhos, como os resquícios de um sol que se filtrava pelo peso das nuvens. Quanto menos o sol brilhava, mais fatais eram seus raios. E a cada passo que eu dava, eu morria cada vez mais... Ao meu redor, para onde quer que eu olhasse, não havia nada. Nada! Absolutamente nada, devastadoramente ninguém. O mundo não estava ali. Mas isto era o mundo. Horizontes infindos de um nada que crescia como fungos na lama apodrecida. E sempre olhando à frente como o condenado contempla sua forca, eu contemplava o cosmos cada vez mais carregado.

O céu não estava no alto. Ou estava, e eu não o via. Ou ao alto estava, eu o via, mas ele não aparecia para mim. A cada passo que em delírio meu corpo sonhava que dava, surgia um rosto feliz com um sorriso esponjoso, rançoso e hipócrita em névoas claras pela imensidão do nada. Eles sorriam e queriam mostrar-me o caminho, dizer-me por onde ir, eles sempre sabiam de tudo, embora eternamente soubessem de nada. Em seu nada, aqueles rostos eram indescritivelmente horrendos. Eles surgiam como reação aos meus passos. E eu mal conseguia caminhar desde que os Outros vieram e cortaram-me as asas. Eu olhava para o alto e invejava os corvos que eternamente pairavam sobre minha existência.

Desde que podaram minhas asas, eu não consigo mais andar pelo mundo. Eu joguei pedras com o meu sangue derramado naqueles sorrisos imbecis. Eu soprei o furacão que devasta os meus pulmões nos olhos dos sensatos em suas vidas atoladas no nada. Eu beijei a boca quente da minha sublime tuberculose. Eu olhei para trás, para tudo o que havia percorrido, e contemplei extasiado os rastros roxos do meu sangue golfejado pela minha boca que nunca cessa de sentir.

Os rastros de sangue da sublimidade incomparável da minha tuberculose é que iriam salvar-me. Eu poderia voltar, jamais me perderia. As nuvens se intensificavam, caía chuva torrencial sobre meus sonhos. E eu os erguia cada vez mais alto, mais ao alto! Enquanto eles eram metralhados pelos sensatos que sorriam em seus rostos suspensos na nulidade do nada. Um banho de sangue e de lágrimas jorradas das almas de meus sonhos matou minha sede de tudo. Que a chuva era ácida. E eu jamais me contentaria com o teu muito que é miserável.

Ergui minha mão ao raio com um poema escrito com brasas nas minhas veias, e o raio o queimou. E sua fumaça ascendeu no fogo e impregnou as narinas de Deus. E os sorrisos dos sensatos, dos certos, dos felizes aplaudiram meu poema hipocritamente sem nunca o terem lido, pois Deus o queimou e respirou com suas narinas doentes. E eu era asfixiado pelo fumo de minha obra.

O aspecto repulsivo dos felizes com a coluna vertebral chafurdada na lama revoltou-me o estômago. Enquanto eu seguia sedento e avançava indômito em sofreguidão pela estrada por entre o nada, podia ouvir os berros desesperados dos gatos torturados pelos sensatos que sempiternamente assassinavam liberdades. O horror pairou mais denso e grave pelas atmosferas trovejantes. Na monumental infelicidade de sua felicidade, os rostos suínos (porque era nisso que agora se metamorfosearam) alimentavam-se das fezes que eles mesmos produziam em meio de seu nada que eu pisava indiferente e indignado.

Por entre a tempestade, caía a mais suprema das noites. Uma lua de absurdos donde partiam terríficos arcanjos imperou sobre minha desgraça. Extirpei de meu peito uma rosa de sangue febricitante para deixar nas mãos brancas do vulto gracioso que surgiu do nada. Acompanhava-me. Eu não estava morto.

Arranquei minha alma da tristeza e da revolta, fúria e melancolia, que fervilhavam no oceano de meus sentimentos. E com minha alma na ponta afiada da espada, fitei o que havia no lado escuro da lua. De um trovão mitológico, partiu uma flecha incendiada de olhares que causou fatal terremoto pela imensidade do nada de lodo. Um ciclone de desejos levou minha angústia poética ao auge enquanto ela gritava ao se debater em meus ventos. Um mar vermelho, de repente, cobriu todo o céu e a lua.

Meu olho imenso se abriu e dardejou aos céus como uma lança de liberdade insana. Alucinado, respirei fundo o veneno do ar que me oprimia e senti-me mais forte. Eu também era nada, mas alimentando-se do sangrar incessante de tudo o que eu sinto, minha Alma não morreu. Eu não deixei que a sepultassem no sem-sentido da vida dos certos. Minha alma, Em Chamas, vive, enquanto eu caminho com olhos sangrentos, desvairado, rumo à próxima Aurora...

02 novembro 2009

O Desastre da Legislação Ambiental Brasileira e o Otimismo de Maffesoli


Agora querem alterar a Legislação Ambiental. Para pior. Para poderem desmatar mais, inclusive a mata das margens dos rios. Para devastarem as parcas florestas que restaram nas propriedades rurais. Não querem ter limite nenhum. Querem acabar com tudo. E querem ser perdoados das multas que pagaram no passado ou que ainda têm que pagar. Por quê? Ora, porque os proprietários de terra têm o direito de fazer o que querem com ela, afinal são donos. O que tem a humanidade a ver com isso? Mas não querem desmatar para o lucro, longe disso. Querem fazê-lo para o desenvolvimento... Como soa pomposa essa palavra: DESENVOLVIMENTO. DE-SEN-VOL-VI-MEN-TO!!! Não é linda? Acho que é a palavra mais bela e poética da língua portuguesa. Parece que estou vendo os políticos encherem a boca, estufarem as bochechas para pronunciar o mais profundo lema da humanidade: “tudo pelo DESENVOLVIMENTO!

É como diria o pensador francês Michel Maffesoli, o mundo está melhor, está menos individualista. Haha! Quer dizer que ele pensou, pensou, e chegou a essa conclusão? Agora recebi a prova de como sou imbecil. É incrível, mas eu não consigo enxergar o óbvio: o mundo está menos individualista. Certamente devo ter sonhado quando li nos jornais que o número de famintos e desnutridos no mundo passou de 800 milhões para mais de 1 bilhão nos últimos anos. Ah, PENSANDO bem, só aumentou em 200 milhões! 200 milhões é só a população do Brasil. Isso não é nada! É só um acidente de percurso em nosso pomposo desenvolvimento...

Se eu pudesse dialogar com o senhor Maffesoli e outros pensadores pós-modernos do 1º mundo eu sugeriria: por que vossos países ricos, que não são individualistas, não ajudam de verdade aqueles países pobres que vocês tanto exploraram no passado? De vez em quando eles mandam umas esmolas, que rapidamente são repostas em quádruplo pelo lucro de suas multinacionais. Que não são individualistas.

Maffesoli é francês. A França não é individualista. Claro, enriqueceu tanto com suas colônias do passado (e ainda enriquece com suas multinacionais) que agora tem riqueza para todo mundo. Foram séculos de pirataria, pilhagem e roubalheira dos recursos naturais de países que hoje agonizam com 1 bilhão de famintos e desnutridos. 1 BILHÃO! Isso também é pomposo!

França, Inglaterra, Portugal, Espanha... Países que não são individualistas. Foram séculos devastando matas, poluindo rios, extirpando as riquezas das terras férteis e transbordantes de ouro e diamante do 3º mundo, à custa das lágrimas dos seus povos, da escravidão e do sangue derramado, à custa de seu suor inútil, de suas esperanças asfixiadas, de seus direitos renegados. Claro, agora não é mais preciso ser individualista. Agora todos são tolerantes e amiguinhos. Inclusive eu, inclusive você, amigo leitor. Não somos mais individualistas, desde que os problemas dos outros não atinjam o nosso próprio umbigo. 1 bilhão de famintos? E daí? Eu não tenho nada a ver com isso.

O intelectual Maffesoli disse que o homem deve sonhar. Concordo plenamente. Aliás, sonhar é o que mais faço na vida. Como escrevi em certo poema, não passo de um labirinto de sonhos. Eu só tenho uma dúvida: acho que em alguns anos vamos ter que sonhar no mundo da lua, porque não haverá mais planeta Terra para sonharmos...

31 outubro 2009

Sem Termos...

façamos um pacto
nos seguintes termos:

amemos sem termos
morrido
morramos sem termos
amado
e só por termos amado morramos

ao amor não há
adequados termos:
alto cardíaco pacto
de infinito amor:
impossível matemática
sem
termos...

30 outubro 2009

Otacílio e Madalena ou A Morte do Pampa (As Almas do Fantástico na História do RS - História 3ª) - Parte Final


Mas o que mais me impressionou foi quando entrei no quarto do casal. Ali estava a cama embolorada e úmida, carcomida por ratos, traças e outros animais que ali fizeram seus ninhos em meio a cobertores, lençóis, pelegos e travesseiros esquecidos. Fiquei imaginando os anos felizes em que ali Otacílio e Madalena viveram. Curiosamente, naquele ambiente ancestral, denso, insalubre, carregado, acabei perdendo todo o medo e receio que inicialmente sentira. Sentei-me ali no quarto, em uma cadeira que parecia ainda inteira o suficiente para suportar meu peso e refleti durante horas sobre aqueles seres fantasmais, sobre suas existências antes e depois da morte.

Em um momento, não sei por que motivo, talvez hipnotizado por minhas divagações absurdas e pelo clima sobrenatural que sombriamente me seduzia, tive a coragem de desligar a lanterna e mergulhar na mais tenebrosa escuridão. Nesse instante, meus pensamentos calaram-se, e o silêncio tumular invadiu minha alma de forma arrebatadora. Uma profunda tensão naquelas atmosferas tristes e envelhecidas pesou-me nos ombros...

Foi então que julguei ter escutado passos, e um sussurro feminino soou nos meus ouvidos cava e profundamente chamando meu nome. Julguei sentir o sopro de uma respiração nos meus cabelos. Alarmado, rapidamente liguei a lanterna. Mais uma vez, não vi nada. Talvez tenha imaginado o que ouvi... Contudo, decidi então manter a lanterna acesa até o amanhecer, aquele clima de tensão não era suportável sem algum tipo de luminosidade. E eu ali permaneci sentado no fúnebre quarto, divagando sobre assuntos que dificilmente ocorrem às pessoas comuns.

Refleti, por exemplo, em por que os fantasmas do casal deixaram de ser vistos há quase 30 anos, e por qual motivo aqueles que afirmavam tê-los presenciados eram, quase sempre, pessoas simples, camponeses sem nenhuma formação intelectual, formados apenas pela vida natural em seu ambiente destituído das convenções sociais. Pensei nisso, porque na década de 60, atraídos pelos muitos relatos, alguns estudiosos de assuntos paranormais dirigiram-se ao local para tentar avistar os espíritos, não obtendo, no entanto, permissão do antigo fazendeiro para entrar na casa. E tais estudiosos não viram ou pressentiram absolutamente nada no campo.

Cheguei à conclusão, dessa forma, que a capacidade de contemplar tais fenômenos é algo exclusivo do coração, da intuição, nada tem a ver com o acúmulo de teorias e de conhecimentos mecânicos na mente. Pelo contrário, quanto mais intelectualizado for o indivíduo, mais ele terá a tendência de raciocinar e tentar conceituar esses fatos, criando barreiras psicológicas que impedem que possa naturalmente presenciá-los.

Porém, lamentavelmente, a tendência dos dias atuais é justamente essa intelectualização estéril de todos os fenômenos que a ciência não explica, como se todas as coisas do universo pudessem ser analisadas, medidas, quantificadas, esquecendo-se, desprezando-se os acontecimentos espirituais, além do raciocínio lógico. Por isso, hoje os sabichões do intelecto preferem ridicularizar tais histórias, afirmar desdenhosamente que são “contos de nossos avós”, como se pelo fato de essas pessoas não serem intelectuais, não podem então saber de nada, não merecem crédito.

E assim, esses senhores intelectuais foram aos poucos assassinando as almas da natureza, alastrando o vírus do ceticismo cego e estéril. Quando falo em almas, não me refiro somente a assombrações, mas às almas dos campos, das matas, dos rios, dos ares, das plantas, dos animais. Para esses senhores, nada possui alma, tudo é mecânico e material tão somente, tudo pode ser conceituado dentro do limitados padrões mentais, não há mistério algum por trás das coisas.

Por tais motivos, pensei, hoje só raras vezes se presenciam os fenômenos de aparições de almas, não só de pessoas falecidas, mas também dos elementais da natureza. Os homens bloquearam seus sentidos superiores devido ao acúmulo excessivo de teorias mecanicistas e agora duvidam e riem-se de tudo que não for “cientificamente” comprovado, como se ciência fosse sinônimo de mental.

Os homens afogaram seus corações no veneno das teorias intelectuais, e o resultado é que as manifestações da Alma do Mundo abandonam agora os homens. E assim é com o pampa gaúcho. O pampa morre, porque o homem mata sua alma. Toda a destruição ambiental que flagela o planeta é fruto desse desprezo que a humanidade dispensa às almas da natureza. É como se para a humanidade nada possuísse alma, nem mesmo ela. Então, se nada possui alma, o planeta também não possui. E o planeta morre, e com ele o pampa... Viciamo-nos a pensar em todo e qualquer ser vivo como se fosse uma máquina, inclusive o homem. Se nós, seres vivos, fôssemos máquinas, depois de mortos, bastaria “reparar o defeito” do organismo e religar à fonte de energia, que voltaríamos a viver. Assim podemos fazer com um carro ou com um computador, mas não com um ser vivo. Não podemos pôr de volta a vida.

Afirmo que todas essas assombrações e aparições misteriosas que tanto povoavam nossos campos também fazem parte da alma do pampa. E o desaparecimento desses fantasmas é outro sintoma de sua morte...

E nesses assuntos que ninguém mais pensa, ou pensa apenas para desprezá-los, eu pensava quando fui despertado pelo cantar dos pássaros. Já principiava a alvorada, embora o sol ainda não houvesse saído. Levantei-me da cadeira, despedi-me do quarto espectral e dirigi-me à porta. Como já iniciava a clarear o dia, desliguei a lanterna. E ao abrir a porta, assustei-me com o disparar de um cavalo mouro que partia rapidamente ao capão de mata. Havia um casal sobre ele...

29 outubro 2009

Otacílio e Madalena ou A Morte do Pampa (As Almas do Fantástico na História do RS - História 3ª)


Em uma das muitas estradas que cortam os vastos campos do interior de Santiago, durante o período de 1950 a 1981, os viajantes e moradores da região do vale do rio Itacurubi relatavam com alguma frequência a visão de um fantasma que surgia à beira de um capão de mata que circundava uma coxilha. Tratava-se de um gaúcho vestindo um pala cinzento, lenço vermelho, chapéu e botas pretas, aparentando ter em torno de 50 anos de idade. Geralmente, o fantasma era visto à beira da estrada, em pé, observando algum ponto indefinido à sua frente. Mas em algumas poucas vezes, via-se ele atravessando a estrada carregando uma mulher aparentemente adormecida ou morta em seus braços, usando um vestido branco. Alguns ainda afirmavam já ter avistado o fantasma em um belo cavalo mouro, com a mulher em sua garupa. O gaúcho era visto quase sempre às primeiras horas da noite, ou logo antes da saída do sol, ou seja, sempre durante os crepúsculos.

Segundo os moradores da região, as aparições tratavam-se do fantasma de Otacílio Vicente Marques, e a mulher que eventualmente o acompanhava seria sua esposa Madalena Marques. O casal viveu em uma pequena e rústica casa de alvenaria, cuja tapera ainda existe no local, durante a década de 40. Otacílio vivia do trabalho nas lavouras de sua pequena propriedade e criava algumas poucas cabeças de gado. De acordo com os moradores mais antigos do vale do Itacurubi, o casal levava uma vida tranqüila e modesta. Não possuíam filhos nem parentes próximos. Raramente recebiam a visita de alguns tios e primos relativamente distantes. Aparentavam viver felizes tendo apenas um ao outro, e a solidão da vida no campo não os molestava.

No entanto, o ano de 1949 surgiu com uma terrível tragédia para o casal. No mês de janeiro, Madalena nadava em um açude da propriedade, enquanto Otacílio buscava gravetos na mata. Foi quando este ouviu os gritos de Madalena que, com cãibras em uma das pernas, afogava-se nas águas profundas do açude.

Otacílio mal teve tempo de pular na água, já era tarde, sua esposa estava morta. Carregou-a nos braços de volta para casa e durante toda a noite chorou em desespero ao lado de seu corpo. No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, enterrou-a a cerca de 1 km da residência, ao pé de uma coxilha, sob a sombra de um imenso angico. Otacílio não suportou a dor da perda da esposa. Nas semanas subseqüentes viveu em uma profunda depressão, deixando de trabalhar e até mesmo de se alimentar. Foi encontrado morto em sua cama cerca de cinco meses depois da morte de Madalena. Foi enterrado ao lado de sua amada, sob a sombra serena do angico. Ela morrera com 39 anos, ele com 52.

Um tio idoso de Otacílio ficou como responsável pela propriedade e decidiu vendê-la a um fazendeiro das vizinhanças. Este optou por preservar a pequena residência com toda sua mobília, em lembrança e respeito à memória do casal.

Foi no ano seguinte, 1950, que o fantasma de Otacílio foi visto pela primeira vez no local anteriormente descrito. As aparições tornaram-se cada vez mais freqüentes durante a década de 50, a ponto de os moradores da região reunirem-se para a realização de orações às almas dos mortos. Durante os anos 60, as visões permaneceram constantes, contudo, a partir de 1970 principiaram a reduzir-se gradativamente, até que em 1981 ocorreu o último relato de alguém ter vislumbrado os fantasmas de Otacílio e Madalena.

Porém, devo dizer que fervilhava em mim o intenso desejo de contemplar aquelas almas... Tanto que em determinado fim-de-semana, decidi passar toda uma noite na tapera de Otacílio, na esperança de presenciar as aparições do casal... Facilmente obtive permissão do agora dono das terras, filho do antigo fazendeiro para quem o tio de Otacílio vendera a propriedade, para pernoitar na pequena casa já em semi-ruínas.

Cheguei àquelas terras misteriosas ainda durante a tarde. Permaneci próximo ao capão de mata à beira da estrada que ficava a algumas dezenas de metros da propriedade. No entanto, as horas passavam-se, a noite sombria de outono esfriava, e eu já não suportava permanecer imóvel em meu posto de observação: não surgira absolutamente nada.

Decidi caminhar até o sepulcro do casal, situado a pouco mais de 1 km de onde me encontrava. Conforme me aproximava, percebi que o clima psíquico tornava-se mais denso, concentrado, eu poderia jurar que alguma presença ignota influenciava nas sensações estranhas que me invadiam, porém não pude avistar os fantasmas. Entretanto, diferentemente do que se poderia pensar, não senti medo, não era algo assustador. Pelo contrário, sentia-me bem estando perto da sepultura do casal, apenas duas cruzes de ferro já enferrujado cravadas no chão. A brisa fria que soprava na coxilha era-me salutar, e uma profunda serenidade advinha daquele vetusto e venerável angico que ali se erguia como um solene guardião àqueles dois amantes.

Permaneci ali por algumas horas, passava já da meia-noite, e embora fosse uma noite fria e sem lua, a madrugada principiava bastante agradável, ao menos para mim. Porém, como não via nada de sobrenatural, conquanto minha intuição captasse algo de estranho, resolvi voltar para a residência e, pela primeira vez, entrar naquela casa sombria e inquietante.

Trazia comigo, é claro, uma potente lanterna, e detive-me quando dirigi seu facho à porta de madeira já semi-apodrecida que se encontrava entreaberta. Receei por um momento antes de entrar. Nunca soube de alguém que tivesse entrado na casa após a morte de Otacílio, com exceção de seu tio e dos vizinhos que foram velar o corpo. Nem mesmo o fazendeiro agora proprietário da residência o fizera. Confessou-me que nunca vira a assombração e que não acreditava muito em visões de espíritos, embora soubesse de vários relatos a respeito, inclusive o de seu falecido pai. Disse-me que seu pai nunca quisera entrar na casa, com receio de ser amaldiçoado pelo fantasma de Otacílio, e por isso também jamais pensara em destruí-la. Mas ele, o filho, afirmou que mal lembrava da casa e dos espíritos, que abandonara o local à ação do tempo, mais preocupado com seus outros campos. Pretendia, inclusive, ordenar a destruição da tapera e ali construir um galpão para armazenar parte da produção de suas lavouras.

Pensei exatamente nesse estado de abandono quando entrei na casa. Os móveis ainda ali permaneciam, aparentemente nunca foram alterados de lugar. Porém, apresentavam sinais de apodrecimento, o ambiente aparentava ser bastante úmido, e vários buracos no teto permitiam entreverem-se as estrelas. O cheiro de mofo e bolor era quase insuportável, bem como a poeira que se acumulava em todos os cantos, em todos os móveis. Alguns morcegos revoaram quando entrei, aranhas e suas teias estavam em todos os lugares, e alguns animais pequenos rapidamente moveram-se por baixo das mesas e cadeiras.

Direcionei o facho da lanterna para uma janela ao assustar-me com o som do adejo de asas de alguma grande ave. Era uma coruja-de-orelhas que voava pela janela parcialmente aberta.

O clima daquela casa era verdadeiramente tétrico e nada acolhedor. Suas paredes sujas e manchadas, algumas panelas e chaleiras muito antigas sobre o fogão à lenha, pelegos imundos jogados aos cantos, cadeiras de palha que apodreciam, armários caindo aos pedaços, cuias, copos e canecas embolorados, enfim, tudo o que ali eu via parecia ter surgido de dentro do próprio túmulo do casal, tamanha era a sensação de esquecimento funerário que me transmitia. Sentia ter penetrado em um local onde o tempo parou e que somente a morte e o mistério habitavam agora.

(Amanhã, a parte final)

28 outubro 2009

Suspiro de Lobo

às vezes
fico pensando
no que hei de pensar
e tentando achar
o que hei de fazer
mas por que
hei de pensar e fazer alguma coisa?

quem disse
que pensar é pensar
e fazer é fazer?
o melhor pensamento
é aquele que lua
sem ter que pensá-lo luar
a melhor das ações
é aquela que sol
sem ter que fazê-la solar

então deixo
que minha obra viva
quando há de viver
e durma
quando há de dormir
o mais é nada:

não desejo além
que minha obra seja
como um suspiro de lobo-guará
se ocultando na mata...

26 outubro 2009

“Fui tudo. Nada vale a pena.” Fernando Pessoa

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”- Fernando Pessoa.

Esses dois versos são aparentemente de uma total contradição. No entanto, foi o mesmo poeta que escreveu. O grande Fernando Pessoa. Maior poeta da língua portuguesa e maior poeta do século XX em todo o mundo, na minha opinião. Porém, as pessoas preferem citar somente o verso mais otimista dele. Por que também não citar o mais pessimista, o mais negro? Fernando Pessoa era assim: coerentemente contraditório. Era muitos em um só. Que o digam seus geniais heterônimos. Afinal, o ser humano é contraditório por natureza. Quem pretende ser sempre coerente em seus atos, sentimentos e pensamentos, mente para si mesmo.

Mas como eu dizia, as pessoas deveriam conhecer mais, e citar mais, e analisar mais o lado escuro, o lado pessimista, desiludido, cruel, indiferente e doentio de Fernando Pessoa. Aquela face de Pessoa que reflete toda a verdade de sua vida na solidão e na incompreensão, sem reconhecimento, fracassando em todos os seus projetos de vida prática, conseguindo publicar apenas um livro, sem dinheiro, sem amor, sem família, sem nada, a não ser a arte e a alma. Agora já é moda citar os versos belos, elevados, sublimes, luminosos de Fernando Pessoa. Agora todos reconhecem a sua devastadora genialidade. Mas esquecem da profundidade abismal de seu lado negro. Tão vasto quanto o outro. Então, deixo abaixo 13 trechos que selecionei dessa face sombria e furiosa de Fernando Pessoa. Espero que alguém deixe tais versos como uma recepção em seu blog, ou twitter, ou orkut...

1) “Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo?
Para que havemos de ir juntos?”

2) “Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Minha alma, outrora um universo meu,
É hoje, sei, um lúgubre escaninho...”

3) “Toda obra é vã, e vã a obra toda.”

4) “Dá-me mais vinho,
Que a vida é nada.”

5) “A vida...
Branco ou tinto é o mesmo: é para vomitar.”

6) “Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor... Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.”

7) “Tenho esperança? Não tenho.
Tenho vontade de a ter?
Não sei. Ignoro a que venho.
Quero dormir e esquecer.”


8) “Se te queres matar, por que não te queres matar?
(...)
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez matando-te, o conheças finalmente.”

9) “Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta. Não fazes falta a ninguém...”

10) “Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio...”

11) “Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste.
Não há sossego – e, ai de mim!, nem sequer desejo de o ter.”

12) “ A esperança, como um fósforo inda aceso,
Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso.
A falha social do meu destino
Reconheci, como um mendigo preso.”

13) “Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.”

Aqui estão apenas alguns exemplos. Eu poderia deixar centenas de outros.


25 outubro 2009

e Noite e Sono e Morte

para tudo
há um dique
há um filtro
há um descanso...

a noite
é o descanso da luz:
a luz se oculta
mas ela está lá...

o sono
é o descanso do corpo:
o corpo dorme
mas permanece vivo...

a morte
é o descanso da vida:
a vida esquece de si
mas ela continua...

o Fim
é a noite completa do mundo
o sono profundo da humanidade
a morte lenta da civilização...

e após a noite
sempre surge outro dia
e depois do sono
sempre se acorda
e após a morte
sempre se renasce...

24 outubro 2009

Poética

sim, é claro...
eu poderia poetizar
a delicada ternura
das pétalas da rosa

a energia da vida
de um dia ensolarado

a tranquilidade calma
de uma verde primavera

mas isso...
tocaria o leitor?

para o tocar
poetizo a dor:
só quem sofre
conhece o valor
das pétalas da rosa
do dia ensolarado
da verde primavera

quando a pedra é muito dura
só a rompe a dinamite...

21 outubro 2009

Três Poemas Lacônicos

Palavra Genial

há palavras geniais.
uma delas é de...putado:
descaradamente
vendem corpo
alma
e lado


Yin e Yang

no meio da luz
tem um “u”
fechado
sombrio

no meio da treva
tem um “e”
aberto
bem claro


à Música

ouvir é um verbo
e o Verbo era Deus

mantras
são notas
de OMnisciências
inatas...
são notas
sonatas
sonhadas
sono
som
OM

20 outubro 2009

Nem Só de Sol Vive o Homem

a...deus...graça
nada mais nada
no mar de esperança
e tudo virou pó...ética morta
então
não venham ver-me(s)

por isso digo
que a realidade é uma ilusão
e o sonho
é sua correção:
sonha
que eu velo a teu lado
e teus pesa-dê-los a mim:
eu já estou acostumado

durante o dia
aguardo a noite
morre o sol
nasce o sonho
esse é o meu
Deusespero...

luzes?
de luas de estrelas de olhos...
acender-me lâmpadas?
não te a...trevas

(Na imagem, "Noite Estrelada", de Van Gogh)

19 outubro 2009

da Ignorância

imaginem um barco em um rio
tendo somente um homem

fizeram perguntas ao homem
e ele respondeu todas
com absoluta sinceridade:

de onde veio o barco?
não sei
para onde vai o barco?
não sei
por que estás no barco?
não sei
por que o barco está no rio?
não sei
quem fez o barco?
não sei
para que foi feito o barco?
não sei
o que fazer com o barco?
não sei
(...)

mas que absurdo!
ninguém pode ser assim tão ignorante!
(dirá o leitor)

mas eu digo:
o barco é a vida
o homem somos nós

18 outubro 2009

Poema Mau (Feito)

visão altiva
de minha viagem:
só montes
e montes
e montes
de merda:
contemplei a humanidade...
que solução pra essa gente?
poemas não servem
que quem serve é lacaio

a solução são canções ternas:
baladas...
no peito

a solução são coisas doces
uma bala...
na testa

16 outubro 2009

Três Poemetos Simples

Problema

o problema
da humanidade
é que está cheia
de nós...
cegos
sem solução

cheia de nós
cegos...


Mentira

não me falem em paz:
se as temos
é para cavar covas


da Dignidade

mil
espinhos cravados
mas nunca
uma espinha curvada

15 outubro 2009

no Vendaval

dila
serei-me
ou
vindo tua música
caos de corvos in
tensos
despeda
sou-me
teus coros vio
lentos
violetas febres
fragr
ânsias púrpuras
em teus violinos ar
dentes
en
cantos de picadas
venenos de asas
des
fizeram-me de sonhos
em espectros de ventos
sedentos
inundei-me de pianos
e fér
vida em sangue
longe
arrasei-me e nasci-me
de furacões fer
ventres

14 outubro 2009

Obras de Beethoven*


(Na imagem, Beethoven em sua juventude)

Abaixo, em pequenos comentários, deixo breves considerações sobre algumas das principais obras de Beethoven. Apenas não comento sobre a 9ª Sinfonia, pois sobre ela já o fiz de forma mais ampla em meu artigo "Beethoven e a 9ª Sinfonia", também publicado aqui no blog.

Beethoven compôs 138 obras catalogadas oficialmente, ou seja, que possuem número de opus, as quais foram publicadas durante sua vida e quase todas numeradas por ele mesmo, e 205 outras obras sem número de opus, que incluem obras transcritas para outros instrumentos, inacabadas, ou apenas descobertas após sua morte.

O número de obras-primas de Beethoven é muito grande, porém, além da Sinfonia nº9, pode-se destacar entre elas as seguinte:

Sonata Ao Luar, Opus 27 nº 2 (1801): uma das mais belas e comoventes sonatas para piano já criadas. Seu famosíssimo 1º movimento é de um clima de meditação e melancolia absoluto, contrastando com o 3º movimento, onde uma explosão de força e de fúria deixa claro que o romantismo irrompe na música através do gênio de Beethoven. Seu nome, que não foi dado por Beethoven, reflete o clima noturno e romântico do 1º movimento.

Sonata Apassionata, Opus 57 (1804): outra sonata para piano carregada das mais intensas e profundas emoções, como sugere o próprio nome. Poucas obras para piano solo carregam tão dramática, dilacerante e selvagem carga emocional e espiritual. Apenas no 2º movimento há um momento de tranquilidade e paz.

Sinfonia nº3 (Eroica), Opus 55 (1802): Essa é a obra responsável pela maior revolução na história musical. Com ela, simplesmente o movimento romântico tem seu início oficial dentro da música, em uma quebra com a tradição musical sem precedentes. O tamanho e a potência orquestral, a extensão da obra em todos os sentidos, seja pela duração, pela quantidade de instrumentos, ou pelos extremos emocionais que alcança, foi algo totalmente inusitado e não muito bem recebido pelo público da época. A obra foi considerada exagerada e barulhenta, conceito que o tempo se encarregou de extinguir. Destaque para a força incontida e clima triunfal do 1º movimento, e para a marcha fúnebre do 2º movimento, umas das páginas mais trágicas da história.

Sinfonia nº5, Opus 67 (1807): uma das obras máximas e mais famosas da literatura musical. Quem não conhece as suas assombrosas quatro notas iniciais? Tornou-se o hino de vitória dos aliados contra os nazistas na 2ª Guerra Mundial. Sua mensagem de trágica vitória, de força, de luta e de triunfo sobre a adversidade, sua grandeza absoluta, tornou a sinfonia nº 5 como um símbolo de bravura e coragem. Também é conhecida como “Sinfonia do Destino”. Constitui a consolidação do romantismo musical.

Concerto para piano e orquestra nº4, Opus 58 (1806): um dos mais belos e inspirados concertos para piano já compostos, seguindo a tradição de Mozart, porém a ampliando, tanto em duração como em recursos expressivos do piano e da orquestra. Seu sentimento de intenso lirismo e profunda espiritualidade transformou esse concerto em uma das páginas mais sublimes da música.

Missa Solemnis, Opus 123 (1823): considerada, juntamente com a 9ª Sinfonia e com seus últimos quartetos para cordas, como o testamento musical definitivo de Beethoven, a Missa Solemnis é uma das maiores obras sacras de toda a história, e talvez a mais original de todas, sendo algo absolutamente único, jamais igualado. Com mais de 80 minutos de duração, a Missa Solemnis é de uma sublimidade e espiritualidade avassaladoras, um dramático e visionário hino de força e grandiosidade aos mistérios que permeiam o cosmos, uma dilacerante viagem psíquica pela alma universal. Disse um músico contemporâneo que se Beethoven tivesse composto em sua vida apenas a Missa Solemnis já poderia ser considerado um dos maiores gênios musicais. É a composição, juntamente com a 9ª Sinfonia, de maior expressão vocal dentro da obra beethoveniana.

Quartetos para Cordas Opus 127 (1824), Opus 130 (1826), Opus 131 (1826), Opus 132 (1825), Opus 133 – Grande Fuga (1825) e Opus 135 (1826): os cinco últimos quartetos para cordas de Beethoven, mais a Grande Fuga, constituem as obras de mais difícil audição e execução do mestre de Bonn, bem como as mais misteriosas, de uma profundidade tão intensa que exigem do ouvinte uma concentração extrema. Esses quartetos parecem nos falar de regiões desconhecidas tanto dentro do homem como fora dele, um mergulho nos enigmas universais. Alternando os mais díspares estados de alma, desde espirituais alegrias até insondáveis angústias e tristezas, os últimos quartetos de Beethoven incluem-se no que há de mais expressivo em toda a literatura musical.

Outras obras: pode-se também destacar como principais obras de Beethoven, as seguintes: sinfonias nº 6 e 7, sonatas para piano Opus 13, 31 (Tempest), 53 (Waldstein) e 106(Hammerklavier), sonata para violino e piano “a Kreutzer” Opus 47, concerto para violino e orquestra Opus 61, concerto para piano nº5 (Imperador), quartetos para cordas Opus 59 (Razumovsky), trio para piano, violino e violoncelo Opus 70 (Fantasma), Ópera Fidélio Opus 72, entre outras.

*Este texto, juntamente com o artigo "Beethoven e a 9ª Sinfonia" serão publicados na revista virtual Letras com Arte, de São Paulo.

12 outubro 2009

Enxurrada

olho para a humanidade
e rio
rio que me leva
leve
em suas correntezas
sem correntes

por que devo combater
o que não deve ser combatido?
o que não deve ser combatido
não deve ser combatido
por que já está vencido
o simplesmente é deixar assim
que tudo nasce
e corre ao Fim

não digo
que não irei com a enxurrada
digo que choveu forte vasto e além
e que a enxurrada vem...

10 outubro 2009

E Todo Aquele Sangue (parte final)

(Na imagem, detalhe de "O Último Julgamento", de Hieronymus Bosch)

E em alguns canhestros e funestos dias, eu olhava para o céu e havia algo nele que não era normal... Nesses momentos, um rubro sino em desgraça reverberava por todo o azul decadente do céu. Quando digo decadente, é porque ele se avermelhava de forma lenta e implacável. E eu não sabia que vermelhidão era aquela. Quando se propagava pelo ar, o som do sino era um trovão, mas ao chegar aos meus ouvidos era um silvo sanguinolento de uma serpente escarlate.

E a serpente descia da mais alta das árvores, de um cipreste imenso e vetusto que perfurava o céu com seu cimo seco e pontiagudo. E o cipreste cortava o céu, e desse corte incurável jorrava uma tempestuosa chuva de sangue. Ela caía sobre meu pesar. E o silvo da serpente soava sangrento em meu desejo. Eu a sentia se aproximando, enroscando-se em minha perna e picando meu calcanhar. E da picada gotejava um sangue tão gélido que congelava as gotas sanguíneas da chuva.

Foi então que aves em chamas espiralizadas, aves nunca antes vistas, infelizes e devastadas, em bandos intermináveis, bicavam furiosamente, até que sangrasse todo o espaço celeste de forma definitiva. Ouvi grunhidos asfixiados do sol obscurecido por astros vermelhos. E o grunhido do sol era o retumbar do sino e o silvo da serpente. E das núpcias agourentas desses sons de morte, nasciam dos horizontes em fogo tartárico nuvens carregadas. Eram nuvens entrecortadas por veias onde eu via pulsar um sangue enfebrecido. As nuvens cresciam inexoravelmente, arrastadas com fúria por furacões ciclópicos de sopros cósmicos. E fundiam-se no centro do céu, e suas veias explodiam como no pior pesadelo. E toda a abóbada celeste tingiu-se do mais fatal vermelho de sangue. E eu queria saber por que essas coisas aconteciam comigo...

E, finalmente, em alguns canhestros e funestos dias, eu, na minha invisível solidão, saía massacrado a perambular pelas ruas de minha cidade. E diante de meus olhos ensanguentados, o desfile hediondo da civilização humana feria o mais íntimo de minha existência. Sim, eu via sangue em todos aqueles rostos, sangue que escorria de seus sorrisos de prazer, sangue que gotejava de seus olhos sem alma, sangue que brotava como orvalho de suor inútil de seus poros corrompidos.

E aqueles homens e mulheres, velhos e crianças, brancos e negros, ricos e pobres, esfaqueavam-se mutuamente contentes e diabolicamente satisfeitos. Mas não havia facas em suas mãos antes de esfaquearem-se. Porém, quando retiravam os dedos dos corpos de seus semelhantes, havia entre eles um punhal de ódio. E enquanto riam de prazer, eu observava todos os seus dentes caírem vermelhos na poeira do chão ardente.

E os prédios, casas, torres, igrejas, monumentos, tudo desmoronava infiltrado por um viscoso e ácido sangue que corroía suas estruturas. E sob as ruínas, eu contemplava milhares de corpos mutilados. Mas eles levantavam-se satisfeitos dos escombros e exibiam para que todos contemplassem os pedaços extirpados de seus organismos degradados. Enquanto isso, alguns homens corriam pelas ruas, masturbavam-se e ejaculavam sangue. E junto com eles, mulheres completamente nuas introduziam objetos não identificáveis em suas vaginas e sangravam copiosamente.

Não havia luz nos céus. Somente a luz mortiça, doentia e avermelhada de uma gigantesca lâmpada eletrônica projetada de forma macabra sobre a cidade. E ao seu redor, fervilhavam miríades de odiosas moscas, mosquitos, baratas e outros insetos que carregavam sangue enfermiço em suas patas. Então se alastrou uma música abominável. E havia nela uma risada demoníaca que me arrepiou impiedosamente. Era um deboche maligno que sangrava os ouvidos de todas as pessoas que eu avistava. E com a música odienta, um rio de sangue invadiu as ruas e arrastou com ele milhares de humanos. E naquele sangue, todos nadavam contentes, bebiam, comiam e defecavam, rindo e ostentando o ouro de seus dentes caídos, os quais eram recolhidos por entre o lixo infinito que trazia o sangue.

E todo aquele sangue era o sangue da morte do planeta. E eu... eu apenas delirava. E intuí porque essas coisas aconteciam comigo. É que existem alguns momentos em que se deve deixar o adeus para que se saiba quando a humanidade partirá para um novo destino...

09 outubro 2009

E Todo Aquele Sangue...

(Na imagem, o quadro "A Louca" de Hieronymus Bosch)

Eu não sabia por que essas coisas aconteciam comigo. Não sabia por que, em determinados dias em que a princípio não haveria nada de especial, e sem nenhum motivo aparente, o horror sangrento invadia as minhas retinas, os meus tímpanos, as minhas narinas. Eu não sabia por quê. E saber por que era o que eu mais buscava em minha vida...

Em alguns canhestros e funestos dias, diante das matas mais exuberantes, diante dos campos mais vastos, um fogo sanguinolento derramava-se como uma maldição por toda a vastidão que me defrontava. Surgiam olhos alarmantemente vermelhos nas árvores, e eles fitavam-me desesperados e gotejavam sangue. Ao longe, bem ao longe, um cavaleiro trazia uma trombeta. Sangue se derramava das patas retumbantes do cavalo de olhar sedento. Sangue se derramava dos cabelos incendiados do cavaleiro. E um trovão soou, seco, cortante. E o trovão nascia da trombeta do cavaleiro. E o seu cavalo ria. Era um riso sangrento, sangue que evaporava de seus dentes de tigre.

E um grito de morte úmido de sangue assomou-se devastador da mata. Naquele grito morriam todas as mortes. Bradavam todas as ânsias. Aquele grito lancinante de vingança obrigou-me a fechar com as mãos os meus ouvidos. E quando retirei as mãos, estavam em carne viva, sangrando copiosamente. Algo, então, atraiu minha atenção de forma ominosa. Voltei-me para trás e contemplei o fim dos horizontes. Tormentas vermelhas despencavam sobre os campos infelizes cobertos de cadáveres de milhares de animais de todas as espécies. E o seu sangue gerava rios. E os rios atingiam férvidos os meus pés. Horizontes em fim. Quentes de sangue. Soava e sangrava a trombeta. E as folhas pegajosas de sangue, do sangue vivo de todas as tragédias, caíam sobre a minha cabeça. E olhei para as árvores, e elas não tinham mais folhas, e seus olhos estavam fechados e costurados com fios de prata. E eu queria saber por que essas coisas aconteciam comigo...

E em alguns canhestros e funestos dias, diante do mar, eu via o sol em um fogo doentio e febrento cair e afundar nas águas turvas de um sangue perturbadoramente cintilante. Um anjo sanguinoso, férvido e sem misericórdia, ceifava as águas com uma espada flamígera. E toda a vida dos mares assomava irremediavelmente agonizante à superfície em violência de ciclones. E as águas dos mares eram túrgidas e convulsas de um sangue frio como um coração sem alma. E eu sentia que meu peito se abria, e dele escorria ainda mais sangue. O meu sangue de hemácias exaustas. Olhei para meu peito e vi meu coração partido. Em seguida, olhei para os mares e só pude chorar. Claro que chorei sangue. Mas era um sangue negro, um sangue repulsivo.

E novamente a trombeta soou e cortou meus tímpanos. E o cheiro de sangue da trombeta e o odor de sangue do mar ressecaram minhas narinas estertorantes. As águas do mar se abriram como o mar de Moisés, e eu vi o seu leito entristecido. E o seu leito era um abismo infinito de onde surgiam cânticos vermelhos de um inferno de desesperos. E um fogo fulvo como a guerra queimou a angústia de minhas retinas. Uma súbita lufada de medo soprou com hálito de fim e varreu sem piedade a totalidade do mar sangrento. Então me acordei. E não pude ver os esqueletos gementes que se ergueram com adagas e cortaram minha cabeça que sangrava. E eu queria saber por que essas coisas aconteciam comigo...

E em alguns canhestros e funestos dias, a noite caía mais rápido, caía pesarosa sobre meus ombros, em uma queda de vertigens que vibravam sanguinolentas nos éteres escurecidos. Pelo espaço imaculadamente negro, as estrelas expiravam asfixiadas no sangue cósmico das galáxias distantes. A lua escarlate menstruava incessantemente sobre a terra. A terra inteira ribombava com inexplicáveis explosões sanguíneas. Um laivo de sangue surgiu de súbito na escuridão e respingou em minha roupa. Eu podia sentir o gosto doce do sangue atingir a minha alma.

E um pesadelo despencou sobre minhas esperanças e as esmagou. Era um pesadelo sólido e noturno como um cometa de doença que passasse reverberando e espargisse pelo silêncio um vírus fatal por sobre a civilização. Uma moléstia em que se falecia esvaído em sangue. Vibrações de vozes fantasmais carregavam-se nos ares úmidos de sanguinosa névoa lunar. Deixavam avisos sentenciosos. Então, ferozmente, uma infinda estrada de desolação foi absurdamente construída diante de meus olhos enfebrecidos. E eu deveria segui-la. Seguir a estrada de sonhos sangrados que mergulhava na escuridão vermelha. O que reservaria aquele destino de sangue?

E quando eu caminhava sobre o pó da estrada pegajosa de sangue coagulado, ouvi na minha retaguarda passadas brutalmente rápidas que em assombro se aproximavam de minha tristeza. E ao dirigir meus olhos à escuridão que ameaçava minhas costas, lobriguei um lobo monstruoso de olhos de incêndio sangrento. Sua saliva era chamas. Mas ao cair no chão era sangue. Corri com todas as minhas forças por entre a densa e nervosa névoa sanguinolenta, porém escapar ao incêndio do lobo era impossível. E soou a tensão plangente de uma flauta sem amor por entre a lua menstruada. Aquela melodia cadenciada como morte lenta invadiu sensual e langorosa o silêncio tumultuado da noite. E uma fada escarlate em volúpias nefastas de sangue manchou minha fronte com um selo fatal. Beijou meus lábios derramando rosas. Rosas de sangue inebriadas de catastróficos venenos. Puxou-me pelo braço e, enquanto a flauta executava valsas mortais, dançamos alguma coisa extremamente perigosa. E enquanto o vermelho do amor agonizava em vapores sulforosos e chamejantes, o delírio da fatalidade escorria em sangue de meus lábios dilacerados. E eu queria saber por que essas coisas aconteciam comigo...
(Amanhã, a parte final)

08 outubro 2009

Variações sobre um Tema de Gide

“É com bons sentimentos
que se faz má literatura.”

André Gide

a Arte
é jantar à luz de raios
e vomitar à luz de velas

amar as hemácias do sangue
a te olhar na tempestade

a arte é a mais estranha rima
para o amor
é encontrar luzes onde não há-de
e sonhar a paz de tê-las
no horror

a Arte é o que resta:
não é pra acalmar-te os ânimos
é pra estragar-te a festa

Poemas do Término e Contos do Fim 36


A edição número 36 do zine literário Poemas do Término e Contos do Fim foi lançada ontem, dia 07/10/09, contendo o conto "A Picada", o qual é a 4ª história da série de sete contos que estou realizando, intitulada "O Fantástico na História do RS". O 5º conto da série já foi concluído e publicado aqui no blog. No momento, estou em fase de pesquisas para a elaboração do 6º conto. A edição 36 do zine também inclui três poemas estranhos.


Meu zine literário é gratuito e distribuído em várias cidades do RS e e algumas outras do restante do Brasil, por colaboradores. Em Santiago, em breve estará em todos os costumeiros pontos de distribuição, a saber: locadoras Fox, Classic e Stop, biblioteca pública, biblioteca da Uri, Ponto Cópias e Livraria Santiago. Pode ser enviado para qualquer cidade do Brasil ou exterior, mediante o pagamento das despesas de correio.


Agradeço à colaboração dos seguintes amigos na distribuição do zine em outras cidades: Luana Serafini (Santa Maria/RS), Alberto Ritter (Porto Alegre/RS), Gracieli Persich (Santo Ângelo/RS), Louise Wagner (São Leopoldo/RS), Lilene Leverdi (São Gonçalo/RJ), Héder Duarte (São Gonçalo/RJ), Agnes Mirra (Goiana/PE) e Paulo Soriano (Salvador/BA). Agradeço também ao amigo Guilhermes Damian pela excelente trabalho de design do zine.

06 outubro 2009

Não sei ser Prático

praticamente
não sei ser prático:
na vida prática
não há praticidade para mim
perdoem-me os práticos sensatos
mas eu sou assim

nem só de prático
vive o homem
a vida é além
que feijão no prato
que catar como rato
as migalhas do chão
talvez eu seja errado...
mas vocês não são?

pratico o não-prático.
que por onde pratica
o prático vê pratas
onde elas estão
já eu vejo pórticos
onde eles não hão...

a minha prática
é não ser prático:
sou só labirintos de sonhos
sem solução

04 outubro 2009

Crianças Cada Vez Menos Inteligentes


Algumas pessoas, e creio que a maioria delas, afirmam que as crianças dos dias de hoje estão cada vez mais inteligentes. Eu afirmo exatamente o contrário. E sustentarei minha posição.

A princípio, deve-se conceituar muito bem o que é ser inteligente. Ser inteligente é o mesmo que ser esperto? Ou inteligência é apenas raciocínio lógico? Claro que a “esperteza” é um tipo de inteligência. A inteligência lógica é outro, dentre muitos que devem ser considerados como um todo para que se conclua se uma pessoa é mais ou menos inteligente que outra, em termos gerais. Ou, como no caso em questão, se as crianças atuais são menos ou mais inteligentes que as de outros tempos. E nesse “todo”, concluo que são menos.

As pessoas possuem a tendência de classificar somente a inteligência racional como sendo a inteligência válida. Se assim fosse, a humanidade jamais destruiria o próprio planeta, a própria casa em que vive. Nada mais imbecil do que destruir a própria casa. A humanidade possui muito raciocínio lógico, e toda a nossa tecnologia é a maior prova disso. Porém, faltam-lhe as outras inteligências.

E faltam cada vez mais nas crianças de nosso tempo. Falta a inteligência emocional. A inteligência artística. A inteligência intuitiva. A inteligência da sensibilidade. Falta uma inteligência que torne as crianças mais sensíveis, mais conscientes de sua posição no mundo. Falta uma inteligência que faça as crianças perceberem que estão inseridas na humanidade, que possuem responsabilidade para com o planeta e para com seus semelhantes. Um inteligência holística, que perceba o todo, as interações entre todas as coisas existentes, sejam vivas ou inanimadas. Uma inteligência que se dê conta dos laços que nos unem com os cosmos, da consciência de nosso papel dentro do universo.

As crianças de hoje são muito “espertinhas”, raciocinativas, entendem de computadores, de máquinas, de tecnologias, das coisas práticas da vida, mas nada sabem sobre a vida em si. Nada sabem sobre seu papel no mundo. E não conseguem nem pensar sobre isso. Muito menos sentir. Parece que atrofiaram grande parte de suas inteligências. Não conseguem se sensibilizar com nada. Não falo de sentimentalismos, mas de uma sensibilidade consciente, madura, uma capacidade de captar as grandes questões do mundo, da humanidade, do universo. E de se posicionar dentro delas. As crianças de hoje não fazem mais isso. Não estão nem aí para nada. Isso é ser inteligente?

Antigamente faziam. As crianças medievais faziam. Eram conscientes de sua posição no mundo. Amavam a natureza. Compreendiam que faziam parte dela e que deveriam conviver com os animais e plantas de forma harmônica. Isso, para mim, é ser inteligente. Não é saber mexer em computadores.

As crianças de hoje são incapazes de desenvolver e de criar grandes pensamentos e sentimentos. Mal sabem escrever um texto. Não têm ideias, não têm imaginação. Os grandes gênios da arte e da filosofia jamais se repetirão nos dias de hoje. Nem mesmo os da ciência. Porque hoje a “inteligência” da humanidade está voltada para o prazer, para a aparência, para o lucro, para o hedonismo, para o egoísmo. E isso, para mim, não é ser inteligente.

Que me perdoem os otimistas, mas o que vejo é uma degradante involução em nossas crianças. Que o digam os professores. Eles sim conhecem como as crianças regrediram. Ou alguém chamará de inteligente o aluno que dá um soco no rosto de um professor, ou o ameaça com uma faca? Por isso aplaudo imensamente a corajosa professora que obrigou aquele “inteligente” aluninho, que acabou com uma parede muito bem pintada com suas pichações imbecis, a pintá-la novamente. O pessoal do conselho tutelar achou a decisão da professora exagerada, É claro, eles não dão aulas. Quando entrarem em uma escola de ensino básico e ministrarem algumas aulas, irão mudar de opinião. Aliás, deveriam fazer isso. Até porque, o conselho tutelar vem agindo com uma imensa imbecilidade. Está servindo para permitir a libertinagem em crianças e adolescentes nas escolas e impedir qualquer tipo de corretivo.
A verdade é que as crianças e adolescentes de hoje são estúpidas, violentas, insensíveis, desrespeitosas, egoístas, sem nenhum tipo de consciência de absolutamente nada, sem criticidade sobre qualquer assunto, sem opiniões, sem cultura, com ridículos e vergonhosos gostos artísticos, sem noção de humanidade, sem valores, sem sentidos para a vida, enfim, sem nada. Não passam de seres vazios. Muuuito inteligentes... Claro que há exceções. Mas a humanidade não é formada por exceções.

02 outubro 2009

Quando Tudo se Acabar...

quando tudo se acabar
que ficará suspenso no ar?

que gosto sopro de sangue
se alastrará por teu lábio langue?

que sonho cheiro de chamas
já brotará em teu olhar em lamas?

que piano crise de luz
se cravará em teu peito de cruz?

que taça verso de horror
visitará o teu raio de amor?

que grito tigre de estrela
se voará com tua ave ao vê-la?

que cristo flecha de inferno
mergulhará a retornar do eterno?

quando ao não cantar o enfim
Quem ficará suspenso no Fim?

01 outubro 2009

Revista Soturna - Entrevista

A revista digital SOTURNA é especializada em arte sombria e está em sua segunda edição. O responsável por sua realização é o poeta carioca Alexandre Souza. Em seu segundo número, a revista prova todo seu potencial, com matérias de peso, excelentemente elaboradas, abordando literatura, música, pintura, artesanato e ocultismo. Destaco as magistrais matérias sobre o poeta maldito austríaco George Trakl, sobre a pintura macabra de Bruno Amadio e o impactante trecho extraído do livro Bestas, Homens e Deuses, de Ossendowski. O download da revista pode ser feito no link: http://www.4shared.com/file/136531770/cb1e8ace/soturna_2.html

Para a revista SOTURNA, concedi a entrevista que está abaixo:

Alessandro Reiffer
o poeta do Fim

por Sr. Arcano

Seus contos trazem um estilo característico, uma marca em seu modo de escrever, que mescla a realidade com temas apocalípticos. Sua poesia é a personificação desse estilo, repleta de imagens que se misturam e ascendem às ilusões, loucuras e devaneios noturnos de sua mente, em um processo de criação onde o caos divide espaço com seu gênio criativo. Alessandro Reiffer, o arauto do Fim.

Espalha seus poemas e contos através do fanzine “Poemas do Término e Contos do Fim” para diversos leitores em todo o Brasil, e é autor do livro de contos “Contos do Crepúsculo e do Absurdo”. Conhecido por seu estilo inconfundível, Reiffer é atualmente uma das principais expressões poéticas e literárias em nosso meio, e um dos autores mais importantes em nossa cultura. Numa breve entrevista, ele nos fala um pouco de sua arte literária, onde também podemos conferir dois de seus textos mais recentes.

Alessandro, seus poemas e contos refletem bastante sua idéia sobre "O Fim". Poderia explicar melhor sobre esse termo que você tanto usa?

Vejo-me como uma espécie de arauto do fim, alguém que através da arte intenta mostrar ao homem que seus atos o estão levando ao fim de sua civilização. Esse tema com suas diversas variações centraliza minhas obras. Claro que ele é bastante abrangente. Assim, falo de tudo que acaba: da morte, do dia, do amor, enfim, englobo todos os temas dentro do “Fim”. Dessa forma torno minha obra ao mesmo tempo sombria, melancólica, trágica, catastrófica, e mais atual impossível.

Em seus folhetos "Poemas do Término e Contos do Fim" você costuma distribuir gratuitamente seus textos para diversas pessoas. Como tem sido o retorno dos leitores?

Tem sido excelente. O zine está em sua 35º edição e todas elas se esgotam rapidamente. Várias pessoas têm seu primeiro contato a partir do zine, e então me escrevem ou acessam meu blog. A tiragem média tem sido de 400 exemplares. Não faço mais por questões financeiras. O zine é distribuído em várias cidades do Brasil, principalmente no RS.

Em seu livro "Contos do Crepúsculo e do Absurdo" há contos que misturam realidade, fantasia e ficção, onde a narrativa é única, um estilo inconfundível que os leitores percebem logo como sendo seu. Seria uma forma de se expressar no conto algo que você consegue em poucas linhas na poesia?

Muitas pessoas dizem que uma das características de meus contos é que eles são bastante poéticos. Eu concordo, de fato a poesia é algo tão forte em mim que ela naturalmente é transmitida a meus contos. Às vezes isso é intencional, às vezes não. O certo é que vejo o conto como um momento literário a que se deve dar o máximo de efeito em poucas linhas. Esse efeito é a emoção, o choque, o delírio, o assombro, a imaginação, o suspense, enfim. Creio que em alguns casos, uma linguagem poética intensifica e enriquece os efeitos do conto.

Em seus poemas, a criatividade é fascinante. Mas há também todo um lado ideológico. Como você definiria o tipo de mensagem que você tenta passar aos leitores com sua poesia?

Seria difícil para mim falar sobre isso, pois a mensagem depende muito do entendimento do leitor, um poema nunca é totalmente do autor, mas também de quem o lê. Já houve pessoas que entenderam em meus poemas coisas que não intentei dizer. Isso faz parte e não significa que o leitor esteja errado. A literatura é assim mesmo, desperta inúmeras interpretações, a arte é assim, e é isso que faz dela algo tão fascinante. Costumo dizer que o artista não é o dono da arte. Ele é um instrumento dela. Pode, assim, dizer coisas que nem pensava em dizer. A arte é sempre maior que o artista. Eu sirvo a ela. No entanto, posso dizer que minha mensagem está ligada a dois pontos básicos: que tudo tem seu princípio e seu fim, mas o fim é também uma volta ao princípio, e que há muito mais coisas no universo que as da nossa vida cotidiana.

Sua poesia é admirada por um grande número de leitores, mas ainda não foi publicado um livro seu de poemas. Há previsão para que isso aconteça?

Estou com meu primeiro livro de poesias pronto, apenas esperando alguns patrocínios para publicá-lo. Isso deverá ocorrer até o final deste ano ou, no máximo, no início do outro. O livro deverá conter mais de 200 poemas, selecionados entre minha produção dos últimos 5 anos. Seu título é “Poemas do Fim e do Princípio”.

Atualmente, onde os leitores podem encontrar algo de seu trabalho?

Em meu blog: http://www.artedofim.blogspot.com/, em vários sites da net, cujos endereços se encontram em meu próprio blog. Eventualmente, também em alguns jornais e revistas, e no meu zine acima citado. Quanto ao meu livro, pode ser adquirido comigo mesmo pelo e-mail:
reiffer@gmail.com

Agradeço a meu amigo Sr. Arcano por essa oportunidade e o parabenizo por seu trabalho dentro da literatura sombria brasileira, o qual tem sido de fundamental importância.

29 setembro 2009

do Tempo

sinto saudades
de ser o ser que sou-me
de ser um ser que soube
de ser não-ser que some
saudades de tudo
que aconteceu
sem ter (me) acontecido

saudades
de árvores à beira de auroras
de aurora regada de aves
de ave em água à névoa sonhada
sonhada em limoeiros de gatos
gatos pairando por pátios
pátios por noites filtradas
filtrada essência de olhos
olhos de sóis pelos campos
campo que luz em meu peito
meu peito em cantar pela espera...

o Tempo saudade-me
quando me caso
com seu ocaso

27 setembro 2009

Antologia do Absurdo


O amigo Victor Meloni lançou seu primeiro livro de contos pelo Clube dos Autores, intitulado Antologia do Absurdo. O livro possui 196 páginas e está sendo comercializado no link: http://clubedeautores.com.br/book/4939--ANTOLOGIA_DO_ABSURDO_

O seguinte comentário sobre a obra está no link acima:

"As linhas desta obra prezam pelo delírio de uma mente prenhe de idéias que foram paridas nas turbulentas águas dos contos fantásticos, lugar assaz pertinente para as elucubrações que opugnam aqueles que estão irremediavelmente tomados por este gênero literário. O autor, Victor Meloni, é uma destas criaturas, e se atreve a levar ao leitor o resultado das vozes que crepitam, com inquietante regularidade, em sua obsedada cabeça."

Desejo sucesso ao amigo em seu competente trabalho, mais uma importante contribuição ao ainda pequeno e sempre discriminado mundo da literatura fantástica no Brasil. Infelizmente, aqui não é a Europa.

26 setembro 2009

O Livro que Explica Deus


(Uma humilde homenagem a Jorge Luís Borges)



Ao falecer aquele sábio, um de meus melhores amigos, fez-me uma assombrosa revelação. Disse-me que existia, em algum canto do mundo, um livro jamais lido que explicaria Deus em toda sua verdade e completude. Segundo meu amigo, eu era o homem destinado a encontrá-lo e lê-lo pela primeira vez. E não deveria tentar fugir à minha missão.

Após encontrar e ler o fantástico livro, eu deveria divulgá-lo à humanidade. E para cumprir esse supremo desígnio, eu teria que dedicar a integridade de minha existência, realizar tudo o que fosse necessário para encontrar o livro onde quer que ele estivesse. Para tamanho empreendimento, eu possuía apenas uma informação: o livro estaria em um local onde jamais pessoa alguma colocou os olhos ou as mãos, porém, tal local se encontraria em um lugar frequentado regularmente pelas mais diversas pessoas. Perguntei em que país do mundo se encontraria tal lugar, mas o sábio não soube me dizer. Descobri-lo seria uma parte, a mais difícil, de minha missão. Acrescentou apenas meu amigo que o livro apresentaria uma capa preta sem absolutamente nenhuma inscrição. Eu deveria verificar a primeira página, pois ali estaria o título dele: “O Livro que Explica Deus”.

Como último questionamento, quis saber o que aconteceria comigo se não procurasse o absurdo livro. O sábio advertiu-me que não aconteceria nada, mas que o peso de minha consciência seria tão intenso que iria esmagar a totalidade de minha vida. Em seguida, meu amigo faleceu.

Eu tinha 22 anos quando fui abalado pela revelação. Minha reação inicial, apesar de já estar familiarizado com as inaceitáveis verdades do Ocultismo, foi de absoluto ceticismo. Porém, esse ceticismo se transformou em estupefação. E esta, em um terrível peso na consciência que me impossibilitava de dormir, de comer, de trabalhar, de me divertir, enfim, de viver. Não havia saída para mim. Fosse real ou não minha missão, eu deveria fazer tudo para cumpri-la.

Encontrar o fantástico livro parecia algo impossível. A princípio, era-me quase inviável imaginar um local intocado e jamais visto situado nos limites de um lugar frequentado por muitas pessoas. Apenas concluí que deveria ser um local público onde houvesse muitos livros. Seria uma biblioteca? Uma livraria? Uma universidade? Talvez algum museu? Uma igreja? Um templo? Enfim, imaginando quantos lugares assim deveriam existir pelo mundo, procurar o livro era um trabalho para Hércules. Eu não poderia realizá-lo. No entanto, uma força maior e implacável em meu interior como que me obrigava a sair alucinado à procura do livro que explicaria Deus.

E eu o fiz. Porém, não sem antes planejar muito bem como poderia realizar minha inaceitável missão. Primeiramente, julguei mais sensato procurar o livro nos locais públicos de minha cidade e de cidades próximas, sempre investigando à exaustão aqueles locais mais escondidos e, teoricamente, raramente observados pelo público em geral. O livro poderia estar camuflado de alguma forma. Então, toda atenção seria pouca.

Trabalhava pela manhã, e durante as tardes e parte da noite, dedicava meu tempo para a procura febril do livro. Minha vida resumia-se a isso. Alimentava-me mal, dormia ainda pior. Minhas horas de lazer não existiam, não havia feriados ou fins de semana. Sempre que conseguia férias de meu emprego, ou em feriadões, eu viajava para as mais distantes cidades do país e de países vizinhos, com o óbvio intuito de encontrar o livro. E sempre foram nulos os meus resultados. Creio que em cinco anos vasculhei quase toda a América. Claro que não visitei todos os lugares possíveis. Porém o mundo era muito vasto. Havia ainda quatro continentes para vasculhar.

Felizmente, sendo o proprietário de uma lucrativa empresa, durante esses cinco anos reuni uma considerável soma de dinheiro que me permitiria viajar mundo afora. E eu o fiz. Fui para a Europa, em seguida para a África, Ásia e Oceania. Creio que visitei todos os seus principais museus, bibliotecas, universidades, livrarias e igrejas; eu não suportava mais ver livros na minha frente, estava me transformando em um verdadeiro louco. Minha vida era de uma total insanidade. Não possuía amigos, renunciei ao amor, não tinha olhos para as mulheres. Não me divertia, não aproveitava os lugares maravilhosos que visitava, unicamente preocupado em encontrar o livro. Enfim, minha vida não existia.

Havia deixado minha empresa sob a direção de meu irmão, e ele frequentemente me enviava, como eu solicitara, boas quantias de dinheiro para prosseguir em minha demente missão. Passaram-se oito anos desde que parti do Brasil para a Europa. O último país que visitei foi a Nova Zelândia, na Oceania. E não encontrara absolutamente nada do fabuloso livro, nenhum sinal, nem a mínima referência, ninguém nunca ouvira falar nele, não estava em lugar algum entre os que procurei. Estava exaurido, verdadeiramente acabado. Emagrecera mais de 20 quilos, minha saúde estava precária, e eu sentia que logo enlouqueceria total e definitivamente. Procurei o livro divino por 13 anos. E nada. Decidi pôr um fim à minha missão suicida. E retornei para casa.

Retornei e tomei a resolução de viver a vida que não havia vivido. Optei por não reassumir a direção da empresa, e pedi a meu irmão que me destinasse uma renda mínima que me permitisse viver com dignidade, porém sem luxo ou excessivo conforto. Passei a dedicar-me à pintura, arte para a qual sempre tive talento, mas que as tarefas da vida cotidiana jamais me permitiram. Curiosamente, mesmo não encontrando o livro e não cumprindo minha missão, minha consciência encontrava-se estranhamente aliviada.

Ao mesmo tempo em que me aprofundava mais e mais na pintura e divulgava meus quadros com muito esforço e dificuldade, intensifiquei minhas relações sociais e criei um bom e confiável círculo de amigos. Junto com alguns deles, principiei intensos estudos no Ocultismo durante as nossas longas e agitadas noites regadas à vinho e à arte. Em nenhum de meus estudos, no entanto, encontrei qualquer livro que explicasse Deus em sua totalidade.

Relacionei-me com algumas mulheres, mas nenhum dos relacionamentos foi duradouro e definitivo. Seguia procurando um amor para minha vida. Empreendi algumas viagens, agora não para procurar o livro, mas para aproveitá-las como lazer e como crescimento humano e espiritual. Creio que aos poucos fui tornando-me um homem sábio. Não um sábio que renunciou à vida, mas que procurava vivenciar de forma diversa e intensamente as experiências existenciais, não rechaçando suas inúmeras oportunidades, mas aprendendo com elas.

Até que finalmente amei. Amei total e profundamente uma mulher que também me amou da mesma forma. Porém, eu não era feliz. No fundo, eu era um eterno insatisfeito. Sempre me faltava algo, e eu não sabia exatamente o que era...

Quando estava com meus 47 anos realizei uma viagem a uma pequena cidade do interior gaúcho. Lá, dirigi-me a uma biblioteca, uma das raras que não havia ainda visitado em minha terra. Apesar de a cidade ser pequena, sua biblioteca possuía um número razoável de livros.

Quando eu folheava um livro de literatura estrangeira, mais precisamente um antigo exemplar em alemão do “Faust” de Goethe, que parecia nunca ter sido retirado da estante, tamanha era a quantidade de pó e bolor em suas páginas, encontrei um outro livro em seu interior, de reduzidas proporções. Sua capa era inteiramente negra. Abri-o, e, na primeira página, li: “O Livro que Explica Deus”. Possuía apenas 7 páginas. Rapidamente li todo o livro.

O que dizia nele? Dizia exatamente esta história que você, leitor, está lendo. Você está pensando que escrevi este relato? Não, não escrevi uma linha, nem uma palavra. Tudo o que fiz foi transcrever com o mais absoluto rigor aquilo que estava impresso no livro. Não havia autor. Tampouco, havia ano, editora ou local de publicação, somente havia o que você leu e está lendo. Não acrescentei uma letra sequer ao livro. Esta história, rigorosamente DO COMEÇO AO FIM, é o que estava no “Livro que Explica Deus”. E esta história acaba aqui.

24 setembro 2009

Não

nos atuais dias
de que serve
um coração?
enfeite?
de-coração?

não!
um coração
não serve pra nada:
coração não deve servir
deve ser Rei
de cetro
e Espada

23 setembro 2009

Marco Peixoto: Um Bom Moço?

Alguns acham que o jornalista Lasier Martins pegou pesado com o deputado Marco Peixoto. Eu não acho. Acho que ele fez os questionamentos que deveria fazer, foi insistente como qualquer gaúcho que queira saber a verdade. Eu sim teria pegado pesado se fosse o entrevistador. Teria dito, entre outras coisas, que não é a primeira vez que o deputado é acusado ou suspeito de alguns envolvimentos excusos. Teria perguntado por que ele não assinou a CPI. Se não há o que temer, deixa investigar.
Teria dito também que naquela gravação onde o deputado dialoga com um senhor do qual esqueci o nome, ele não parece tão bom moço quanto na entrevista do Lasier Martins... Na entrevista, para a qual ele foi preparado, soube se defender muito bem, bons argumentos, o que faz dele um ótimo conquistador de votos: sabe argumentar bem (e tem dinheiro...). Mas é como eu já disse aqui: o Diabo também sabe argumentar maravilhosamente. Já na conversa da gravação, vemos o deputado Marco Peixoto um tanto quanto... malandro. Não acharam? Claro que a gravação não prova nada. Mas que deixa suspeitas, ah isso deixa... Contra o Sarney também não provaram nada que o tirasse do governo. Mas todo mundo sabe que ele é culpado, até o presidente, que frequentemente gosta de afirmar "eu não sei di nada"...
Primeiro que o deputado Marco foi falar com a governadora na companhia do Otávio Germano, logo por quem há mais suspeitas e, segundo as investigações, seria o mais comprometido com a fraude do Detran. Depois, o deputado Marco fala na gravação com um tom tão de sem-vergonha... Cá entre nós, não acharam o deputado Marco com jeito de culpado naquela gravação? Eu achei. Isso não quer dizer que ele seja (embora eu ache que é), mas está aí a CPI para provar se ele é ou não, bem como os outros envolvidos. Mas provavelmente a CPI não vai dar em nada. A bancada aliada já infestou a CPI com o propósito de acabar tudo em pizza. É até uma falta de hombridade não comparecer para ouvir as gravações. Uma falta de coragem. Gaúcho que se preze nunca foi de fugir da briga (falando nisso, deixo um poema meu abaixo, em homenagem atrasada à semana do gaúcho). Pena que a governadora não é gaúcha. Inclusive fez fiasco na Semana Farroupilha. Mas isso já é outros quinhentos... Ah, e falando na Yeda, tem uma gravação lá onde um cara diz que 11% era para a governadora e para seu ex-marido. Hehe, só 11%, governadora? E para dividir com o marido ainda? Se eu fosse governador exigiria uns 30%, no mínimo. Mas a Yeda sim é uma boa moça, nada gananciosa. Já eu, eu não presto.
Mas, por enquanto, eu só queria saber que negócio tão bom foi aquele que os deputados Marco e Germano fizeram com a governadora... Diz aí deputado, só pra Santiago, ninguém vai espalhar na capital. Não esqueces que tu és só um representante, é empregado dos santiaguenses. E empregado deve satisfação ao patrão. A gente também quer a nossa parte da negociata...
Encarnado

no espírito do gaúcho
há o lenço encarnado...

mas se não há força
mas se não há luta
se não há combate
se não há coragem

não há espírito algum
encarnado no lenço

21 setembro 2009

Ignorantes Eruditos

criaram governos de intelectuais
e exércitos de materialistas
com a intenção irrevogável
de aprisionar o universo
dentro do próprio crânio
de limitar o infinito
a seus próprios olhos
de contar a eternidade
com seus próprios minutos

intentaram
pôr barreiras
nas estradas cósmicas
censurar
a voz dos sonhos
amordaçar
a música das esferas
exilar
corações
e por fim
torturar e executar
almas

intentaram...
mas triunfa sempre
a Lib(V)erdade

19 setembro 2009

Pulsação

o tempo
é a expulsão
de todas as certezas
o tempo
é a impulsão
de tudo o que é absurdo
em in-pulsos
pulsos ao Fim
o tempo pulsa
o tempo passa
o tempo pensa
o tempo puma
o tempo tuba
o tempo troa
o tempo trompa
o tempo Tarde
o tempo parte
o tempo Marte
tempo martelo...

o tempo Morte
o tempo porta
o tempo pó
o tempo pulso
o tempo passa
e o homem só
de passa tempo

Mundo à Beira de Colapso Ambiental


Texto do jornal Correio do Povo de 25 de outubro de 2006:

Mundo à beira de colapso ambiental

Excesso de consumo gera devastação em ritmo superior à capacidade de regeneração do planeta


A população mundial usará duas vezes mais recursos do que o planeta é capaz de produzir dentro de 50 anos a menos que haja uma mudança imediata no estilo de vida da humanidade, alertou o grupo ambientalista Fundo Mundial para a Natureza (WWF) no relatório Planeta Vivo, publicado ontem. Os países com mais graves índices per capita de devastação ambiental provocada por seres humanos são Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Finlândia, Canadá, Kuwait, Austrália, Estônia, Suécia, Nova Zelândia e Noruega. A China aparece em 69º lugar no ranking, mas o tamanho do país e seu rápido crescimento econômico fazem dela um importante ator no uso de recursos naturais sustentáveis, avaliam os especialistas do WWF Internacional.


O relatório bienal do grupo sobre a situação da natureza conclui que, se for mantido o atual ritmo de consumo dos recursos naturais seriam necessários dois planetas Terra para atender à demanda mundial até 2050. 'Estamos gravemente além do limite suportado pela natureza, consumindo os recursos disponíveis muito mais rápido do que a Terra é capaz de repô-los', disse o diretor-geral do WWF Internacional, James Leape. 'As conseqüências disso são previsíveis e terríveis', acrescentou. Se forem confirmadas as previsões, bens ecológicos como florestas e locais de pesca estarão devastados de tal forma que poderão desaparecer plenamente. Um dos indicadores das marcas deixadas pelos seres humanos nos ecossistemas é o declínio de cerca de um terço na população de mais de 1,3 mil espécies de animais vertebrados em todo o mundo entre 1970 e 2003, segundo o grupo.

18 setembro 2009

Meu Dever

13º Arcano...

vinho fatal
de sentidos múltiplos
de um cálice de Fim
se derrama último
sobre os copos imundos
em que ri a humanidade
ria humanidade
em rio de vinho
venho...

alma
que é antena dos tempos
tempo de em fim
e tempo de pois
e depois?

voo em asas de corvo
ao alto te quero que sintas
que tu sintas é tudo que quero
que tu sintas em mais altos voos
que tu voes em mais vastas almas
tuas almas levar em mais asas
elevar em minha alma tuas asas
e com alma levar os teus olhos
e teu olho elevado na alma
acima do Fim te deixo que sintas
e sentindo acima de tudo
e voando em cósmico mar
além do Fim
verá teu olhar...

16 setembro 2009

à Arte


a Arte
vale a pena
que tudo mais
é menos

a Arte é o nada
que tudo pode
que o todo diz
e nunca fala
silêncio e fúria
de sol dois olhos
ao longe raio
jamais se cala
do eterno filha
do tempo mãe
de fogo asas
visão de anjos
sem deus nem guia
não ouve humanos
deusa de si
além limite
sem fim nem morte
de onde pulsa
espada ao alto
tormenta e lago
de noite e alma
verdade e Marte

com ela sou
eu sou eu só
só...
à Arte

14 setembro 2009

A História de Chapeuzinho Colorido e o Não-Lobo-Mau

A bela Chapeuzinho Colorido, contrariada e com muita má-vontade, levava em uma pequena sacola os remédios para sua avó, conforme ordenara sua mãe. Eram medicamentos contra a hipertensão e a diabete. Chapeuzinho detestava ir à casa de sua avó, porque ela deveria seguir uma trilha por entre a mata, e a menina não apreciava nem um pouco a natureza. Reclamava dos mosquitos, tinha medo das odiosas cobras, repugnava-lhe ter que atravessar a pontezinha sobre o riacho, pois receava que ela pudesse cair, já que era muito velha.

O canto dos pássaros não a comovia, e a beleza das árvores era indiferente para Chapeuzinho. Era uma menina urbana e moderna, preferia passear nos shoppings e contemplar as vitrines das lojas, como toda boa consumidora. De modo que somente visitava sua avó quando era obrigada por sua mãe. Nesses momentos maldizia aquela velha rabugenta que fedia a fumaça de fogão. E maldizia sua mãe também, aquela mulher antiquada e autoritária.

Porém, logo ao tomar a trilha que levava à casa de sua avó, Chapeuzinho foi surpreendida ao perceber que grande parte da mata havia sido cortada e queimada. A ausência da vegetação, no entanto, não a incomodava em absoluto, era até melhor, porque assim ela poderia pegar mais sol, bronzear-se mais. Só o que lhe perturbava era o cheiro de fumaça do mato queimado, que a deixava ainda mais irritada. Caminhando pela trilha, Chapeuzinho chutou o casco seco de um tatu que fora tostado. Logo adiante, viu o corpo de uma capivara que havia sido abatida a tiros. Chapeuzinho sorriu ironicamente. Sempre achara a capivara um animal feio e sem graça. Não faria falta aquela que estava ali morta.

Chapeuzinho estranhou não ouvir tantos cantos de aves como das outras vezes. Melhor assim, pensou. Já estava muito irritada mesmo, e o silêncio seria melhor, ou até cantarolar algum funk ou pagode. Caminhando um pouco mais, a menina avistou o cadáver de um cachorro-do-mato. Estava queimado. Nesse instante, Chapeuzinho lembrou das histórias de sua avó, quando contava sobre o lobo-guará, belo e antigo animal que nunca mais fora visto nas imediações. Apesar de sua avó insistir que o lobo-guará era um animal predominantemente dócil e inofensivo, Chapeuzinho não acreditava. A velha devia estar caduca, ou na sua insistente mania de defender a natureza, exagerou nas qualidades do lobo. Para Chapeuzinho, lobo era lobo. E lobo era sempre mau. Não merecia viver. Deu graças pelo animal não existir mais por aquelas bandas. Imaginem se ela cruzasse com um lobo-guará pelo caminho! O animal estúpido poderia agredi-la e até matá-la.

Finalmente, atravessando a floresta em grande parte queimada e devastada, Chapeuzinho chegou à casa de sua avó, que vivia sozinha. Como batera várias vezes à porta, e sua avó não atendia, resolveu entrar. Encontrou-a deitada inerte sobre a cama. Chapeuzinho tentou reanimá-la, mas foi inútil. Sua avó estava gelada, não respirava, devia estar morta. Chapeuzinho entrou em pânico. Não gostava muito de sua avó, não ficou realmente sensibilizada ao verificar sua provável morte, porém, não sabia o que fazer estando sozinha diante de uma pessoa sem vida. Não havia ninguém nas redondezas, porém, a menina correu para fora gritando por socorro. Um caçador que passava pelas imediações ouviu os gritos e dirigiu-se até a casa.

Chapeuzinho sentiu-se aliviada com a chegada do caçador, e pediu que ele fizesse algo para ajudá-la com a avó. O caçador disse que nada faria, e que era ótimo que a velha estivesse morta. Afinal, a avó de Chapeuzinho não passava de uma velha chata, rabugenta e impertinente, que com suas manias ecológicas vivia tentando impedir que os caçadores entrassem em suas matas. Felizmente, aquela velha retrógrada estava agora morta, e ele e seus amigos poderiam caçar à vontade e extrair a madeira de suas terras, coisa que já estavam fazendo há algum tempo de forma clandestina. Aquelas terras deveriam ser úteis para alguma coisa além de servir de abrigo para sapos e macacos barulhentos.

Chapeuzinho então, vendo que seria inútil pedir auxílio ao caçador, decidiu voltar para sua casa e comunicar à mãe sobre o ocorrido. No entanto, o caçador a impediu, puxando-a pelo braço e falando em seu ouvido:
- Que é isso, mocinha, fica mais um pouco. Sabe que você é muito bonitinha... Vamos, me dá um beijinho!

Chapeuzinho tentou resistir, empurrando o caçador, mas ele era muito mais forte e conseguiu subjugá-la, derrubando-a no chão. Mesmo com os gritos e com toda a resistência de Chapeuzinho, o caçador foi arrancando com fúria suas roupas e esbofeteando seu rosto delicado para que ela parasse de gritar. Baixou as calças e, segurando o pênis, exclamou com sua sórdida voz:
- Olha como é grande! Isso é pra te dar prazer melhor, hahaha!

E à força, penetrou brutalmente a indefesa Chapeuzinho. O estupro consumava-se com muita violência, a menina sangrava e, não suportando a dor, esperneava incessantemente, até que em um momento logrou acertar com força seu joelho nos testículos do caçador. Então, este se enfureceu ainda mais, agarrou a cabeça de Chapeuzinho e a bateu violentamente contra o chão por várias vezes, até que ouviu o barulho de seu crânio rachando e sentiu alguns respingos de sangue em seu rosto deformado pelo ódio e pelo monstruoso desejo sexual.

E, no corpo já sem vida de Chapeuzinho, o caçador prosseguiu com seu abominável estupro, prosseguiu até dilacerar repulsivamente o órgão sexual da menina, até deixá-lo em carne viva e expor as suas entranhas. Em seguida, apanhou sua espingarda que largara em um canto, e fugiu pelo que restava da mata, abandonando o cadáver ensanguentado de Chapeuzinho.

Quando saía da floresta e aproximava-se do riacho, o caçador assustou-se com a revoada de um enorme e agourento urubu inteiramente negro que estava pousado sobre uma rocha à beira d’água. Com o susto, o caçador escorregou nas pedras lisas e úmidas, bateu brutalmente a cabeça na rocha e estirou-se fulminado sobre as pedras. Seu crânio abriu-se com a violência do choque, e pedaços sanguinolentos de sua massa encefálica podiam ser vistos à beira do riacho, em uma poça de sangue.

Dias depois, seu corpo foi encontrado pela polícia. Os policiais tiveram trabalho para afugentar o bando de urubus que fazia um banquete arrancando os intestinos do caçador. Um dos policiais poderia jurar que os murmúrios lúgubres dos urubus quando afugentados assemelhavam-se muito a sombrias risadas...

Moral da história: o urubu tem razões que a própria razão desconhece.

12 setembro 2009

Advogado do Diabo

Acompanhando o blog do Júlio Prates, li sobre o senhor Políbio Braga, defensor do governo Yeda. O fato de seu governo precisar de um defensor tão ferrenho e capacitado, deixa ainda mais claro a fragilidade e incompetência do seu "novo jeito de governar". Yeda precisa de um bom jornalista para defender aquilo que é indefensável. É como o bandido óbvio que só se livra da cadeia porque contratou um excelente advogado. Argumentar contra ou a favor de alguma coisa, sempre é possível. Até mesmo a favor do Diabo é possível se argumentar. Para que melhor argumento para justificar sua queda que o de Satã, no "Paraíso Perdido" de Milton? Argumentou Satã: "Melhor ser rei no inferno que escravo no céu!". É como os que argumentam que não há aquecimento global. Os argumentos são ótimos, mas os fatos falam por si. Basta olhar para o planeta... Eu preciso falar algo sobre isso? Contra os fatos, não adiantam argumentos. E o fato é que o governo Yeda é um desastre em quase todas as áreas. É só olhar. E se ainda fosse bem sucedido em outras áreas, o descalabro, o caos vergonhoso e revoltante que seu governo implantou na educação já seria mais que suficiente para merecer o meu mais completo desprezo. Governo que não valoriza a educação é sempre um desastre. Sempre! Por mais que o senhor Políbio bem argumente, não apagará os fatos. O que o governo Yeda merece, com todo seu secretariado, é a lata de lixo. Basta de poluição no planeta.

Pedaços de Versos

e hipertensão artística
de um coração febrilunar
enfartado de esper
ânsias

e dois beijos viróticos
à sonata se terminando
em tua saliva holo
cáustica

e duas preces mezzo-fúnebres
de demônios incandescentes
sobre altares de re
legiões


e três letras pouco-elípticas
caindo em sono eternal
nos tristes braços de um será
fim

11 setembro 2009

Duas Considerações sobre a "Desatenção" Humana


Primeira Consideração:


Comentarei dois casos curiosos da desatenção humana. Quando classifico como "desatenção", na verdade estou sendo um tanto eufemista. Poderia ser mais duro. Mas deixarei assim mesmo.

Ontem, assistindo a um telejornal durante a madrugada, vi o caso de um homem em São Paulo que estava recolhendo com as mãos desprotegidos os papéis e plásticos acumulados nos bueiros transbordantes devido às fortes chuvas. Sua casa havia sido atingida pela enchente. Nas cidades grandes, e até nas pequenas, e Santiago já um exemplo, a poluição das ruas agrava profundamente o problema da drenagem das águas da chuva. Com bueiros entupidos, e com o crescente caos climático, as enchentes estão cada vez mais desastrosas.


E onde entra a "desatenção"? Entra no momento em que quase todos nós, e quase todos mesmo, jogamos lixo no chão aqui no Brasil. E aposto que o senhor que estava recolhendo o lixo com as mãos, muitas vezes já fez o mesmo. Será que agora aprendeu a lição? Acho que não. "Os seres humanos não aprendem as lições da vida nem a canhonaços". Eu mesmo estou cansado, exausto, de ver pessoas jogando nas ruas papéis de bala, de chocolate, garrafas de todos os tipos, lenços de papel, sacolas plásticas, propagandas distribuídas nas ruas. Quando estão no carro, jogam pela janela do carro. Se estão no ônibus, pela janela do ônibus. Ou seja, o planeta inteiro é visto como uma lata de lixo, não importa o local em que estejam. Não é assim? Esse é o homem. Bem, chega um dia que a volta vem. Ação e reação, Lei do Karma, chamem como quiserem. Mas sempre pagamos o preço de nossos atos, cedo ou tarde. A natureza não perdoa. E não perdoará.



Segunda Consideração:


Se eu dissesse que os cristãos atuais em sua maioria são satanistas, certamente me questionariam o porquê de eu fazer essa afirmação absurda. Mas eu digo que somente satanistas deveriam fazer o sinal da cruz de forma invertida. É o que fazem a maioria dos cristãos. É um ato inconsciente, é claro, é outro caso da "desatenção" humana. Qualquer observador atento perceberá isso claramente. A cruz invertida é um dos símbolos principais do satanismo. E é como a cruz é traçada quando os cristãos fazem o sinal da cruz: um toque na testa, um toque no meio do peito, na parte superior do peito, e dois toques nos ombros. Pronto. Se formos visualizar a cruz traçada, ela fica claramente invertida. Para a cruz ficar realmente correta, ao invés de o toque ser dado no peito, deveria ser na altura do umbigo, aproximadamente.


Não deixa de ser uma ironia que os ditos cristãos façam ritualisticamente e com frequência o sinal de seu maior inimigo, Satã. Por que será?

09 setembro 2009

Minha Opinião



os caninos expostos do Tigre
brancos como a morte
a gotejar saliva
inabalável para o bote
a um passo
de estraçalhar a presa

labaredas expostas do Fogo
rubras como a morte
a gotejar inferno
inextinguível para o incêndio
a um metro
de aniquilar mansões

tempestades expostas da Nuvem
negras como a morte
a gotejar catástrofe
interminável para o raio
a um minuto
de devastar cidades

assim
se deve escrever...

07 setembro 2009

Nada

nem uma estiagem sobre o peito
nem um canhonaço nas idéias
nem um furacão sobre a esperança
nem um genocídio dos valores
nem um tsunami na virtude
nem um terremoto na psique
nem a bomba atômica no espírito
nem uma catástrofe na alma
nada
nem o próprio Fim
acordará o homem
do seu nada
e do seu próprio Fim

06 setembro 2009

Poema Feio e Simples

disseram-me
que acreditasse
na humanidade
e que fosse
um homem são

que elevasse hinos
claros belos fortes
alvos vivos vastos
à altissonante
evolução

que eu me inflasse
de esperanças
que te amasse
com sorrisos
e nunca andasse
na contramão

que jamais saísse
da sensata linha
que fosse exemplo
bem comportado
bom cidadão

mas eu...
eu fui bem simples:
disse que não.