30 outubro 2010

Poema Catastrófico nº3 – Amazonas sem Lágrimas

(Poema para a seca recorde na Amazônia, a maior já constatada.)


eu
o maior rio do mundo
sou talvez o leito planetário
das lágrimas divinas
Deus emocionado com sua criação
derramou nos meus caminhos
suas cósmicas lágrimas...

mas agora Deus parou de chorar
e seco como o suco da desgraça
abandona-me como o eco
do voo endurecido de uma garça...

Deus não chora mais
é frio e indiferente
secaram suas esperanças
e compreendeu:
agora tudo é seco:
seca é a vida
seca é a alma
seco
é o sorriso das crianças

mais seco que o meu leito
é a terra seca
do humano peito

e como sempre
ninguém dará atenção
às minhas palavras insanas...
mas sei que as minhas correntezas
sem lágrimas divinas
serão de lágrimas humanas...

6 comentários:

Juci Barros disse...

Quanta sensibilidade... Parabéns!
Beijos.

Richard Mathenhauer disse...

E nós, do barro feito, também ressequidos, agora nos vamos trincando...

Com admiração,

Gisa disse...

Lágrimas humanas e lágrimas divinas, complementares e equivalentes em força...
Lindo poema
Bjs.

Colecionadora de Silêncios disse...

Que poema belíssimo!

"mais seco que o meu leito
é a terra seca
do humano peito"

Adorei a sensibilidade do seu olhar! Sigo-te.

Beijos

Luana Ferraz disse...

A tristeza nos inspira, nos constroi...

Lara Amaral disse...

Nossa, vc tem realmente o dom para escrever sobre os mais diversos assuntos, pude ouvir as lamúrias do rio.

Abraço!