07 maio 2018

Uma Lenda e um Tributo a Brahms

Hoje, 185 anos de Johannes Brahms, um dos maiores gênios que já existiram. Exemplo de arte e de vida. Meu compositor favorito. Em 2009,  escrevi o conto que segue em homenagem ao gênio musical de Brahms e à sua influência sobre minha vida. Em 2013, reelaborei e republiquei o conto. Agora, publico-o novamente:

É manhã. E caminho pelo campo a descobrir o que é que me observa. E o campo é verde, vivo e vasto. Alguém, algo, algum ser, de forma permanente e misteriosa, oculto sob o invisível, vigia-me cheio de presságios... É aurora e o sol sobe como quem canta. E a aurora é bela e fria. No céu imensamente azul, no céu estranhamente azul, uma grande ave paira sobre meus sonhos. É ela que me observa? Porém quem é que toca a Sinfonia nº. 1 de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, porém não sei de onde ela nasce.

            Dos grandes e roxos olhos da ave eu fito a saudade. E a ave parte ao longe sob o sol que brilha e assim percebo que não é ela que me observa. Sol que brilha como quem ama. Imperador , doador da vida, que também mantém fixo seus olhos de luz, fogo e raio sobre minha consciência. Mas não é ele que me observa. À medida que caminho por entre flores e enxames de borboletas, vejo que o astro solar ascende entre o que existe, cintila sobre a tranquilidade escura e iminente das folhas ancestrais das árvores das matas que avisto na distância do meu desejo. E a cintilar nas árvores fêminas, o sol proclama com cristalinas trombetas que não é ele que me observa, porque ele somente o faz durante o dia, e quem me observa o fará eternamente... Porém quem é que toca o concerto para piano nº. 2 de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.

            Vem uma névoa do onde não é. Névoa densa e fria e longa e bela. Um céu nublado que amorteceu a luz solar. E o sol se mortifica em benefício à sombra. Um gelado estremecimento anímico traz consigo um inconcebível enigma... Que almas são aquelas que diviso flutuando invisíveis por entre a neblina? Que dança de espectros assoma solene ascendendo em alto cedro negro. Espíritos brancos e céleres valsam em perfeito equilíbrio e simetria e miram meus olhos, mas não são eles que me observam, apesar de tão fantástico espetáculo. Quem é que berra dentro do bosque? Bosque em sonhos, sombrio. Contudo não sou eu que sonho. Porém quem é que toca o Trio para piano, violino e violoncelo n°1de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.


 É Tarde. Sinto que parte minha inspiração, ainda que permaneça ouvindo tantos gritos e grunhidos e rugidos e urros e gemidos e lamentos e murmúrios e sussurros que caem e sobem, que vão e voltam, que voam e brilham, que crescem e morrem, que dançam e beijam na tarde em névoa da mata inaudita. E sei que não são essas coisas que me observam. Há segredos e arcanos inacessíveis por trás de tão largo labirinto. Porém, quem é que toca o quarteto para piano e cordas nº. 3 de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.

            Correu por entre o tenso um gato-do-mato. Dizem que há algo que não é nos olhos dos felinos. Escondeu-se atrás de um cipreste. Que nuvens etéreas se evolam daquele cipreste, carregadas de intensa paixão desesperada?... No entanto, a paixão não é minha. Talvez eu perca minha paixão. Sei que a vertigem em um dos galhos do cipreste mergulha na emotividade psíquica daquelas nuvens vermelhas que não sei de onde caem. Só sei que não existem ciprestes em nossas matas nativas... Portanto, não é nem o gato nem o cipreste que me observam. E nem mesmo aquele seres inclassificáveis que agora cruzam montados em lobos-guarás. Porque eu os conheço. Avistando as longínquas colinas e coxilhas longas e adormecidas sob as nuvens densas, tensas, nervosas e carregadas, eu sei que não é ele. Seu sorriso lembra algo absolutamente familiar. Eu, um cavaleiro de uma coroa perdida há muitos séculos, eu, um nada absoluto, fitando os cavalos e as ovelhas pastarem ao longe... Sei que não pode ser ele. Porém, quem é que toca o Concerto para Violino de Brahms Op.77 de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.

 Inverno magnífico e trágico! Vejo teus olhos com febre nos horizontes. Olhos que choram e sangram lilases. Talvez sejam eles que me observam. Talvez eu esteja atingindo o ápice do segredo, o auge de todos os enigmas e mistérios... Mas não... O que é que importa? Porém quem é que toca o Quarteto para Cordas n°1 de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.

            A névoa se dissipa. Meu coração se acalma e segue batendo lento, muito lento, sublimemente lento, canhestramente lento. Já que não sou mais eu. Sou talvez uma possibilidade de fuga. Aqueles perfumes balsâmicos dos pântanos e arbustos já assombrados e alarmados surgem melancólicos, enquanto o sol asfixiado em incensos desmaia cantando no chumbo, no verde, no roxo do céu de ocaso. Simultaneamente, aos berros de sapos, uma lua titânica surge em plenilúnio, carregada, fantasmagórica, ascendendo rápido por entre invisibilidades e nimbos. Inauditamente amarela e dourada. Uma lua noturna nasce triunfante e pungente. Quantos anseios e ânsias, e desejos e sonhos cavalgam com ela naquele conhecido dramático tropel? E quem é que me observa? E quantos fantasmas violinam no crepúsculo tardio que avança? E quantos seres que não sei que seres dançam nas nuvens avermelhadas, arroxeadas, acinzentadas e inflamadas na noite que ainda não é? Que Dança Fatal é esta que me inquieta e perturba? Divina ou demoníaca? Porém quem é que toca o Quinteto op. 34 de Brahms? Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.

            E aquela lua onírica que me observa? E aquela lua de vinho? E aquela noite em que te amo? E aquela coruja? Aquela noite sangrenta... Aquela lua de lábio... Aquelas estrelas de Eros... Aquele longe de alma... Aquele vento de olhos... Aqueles astros pagãos... Aquela noite que é tua. Mas não é ela que me vigia, que me contempla, que me observa. Aquela lua não é a lua. Aquela lua é um sinal, talvez Trono, talvez Virtude. Talvez Deusa-Mãe. E dela goteja o que sonhei. Grotescos sentimentos. Gotejam olhos e tristezas de distante. Existências que se calamitam. Coisas rubras ao redor das árvores se abraçam com as minhas aspirações inexistentes, estranhamente velhas, nunca-vistamente verdes. E quem é que me observa? Porém quem é que toca o Réquiem Op.45 de Brahms. Sim, porque vibra essa obra em meus tímpanos, mas não sei de onde ela nasce.

Ainda não é noite, é quase. Subindo, eu fito a noite se menstruando de onde partem sussurros e músicas em surdina, e cantos de despedaçados espíritos, e sonhos de amores fatais, febres de inflamações cardíacas, tragédias de sublimes arquétipos do espaço infinito, da eternidade que assombra, de beijos sanguíneos na boca, na língua, que pairam nos dilacerados outonos entristecidos. Vejo olhos em todos os cantos, em todos os rios, em todas as matas, em todos os céus, em todos os seres! Quem é que me observa? E quem é que toca Brahms? Quem é que toca Brahms numa tormenta apocalíptica, a febre de Brahms, a fúria de Brahms, o sonho de Brahms! Quem é que toca Brahms, quem é que me observa? A Tristeza? A Tragédia? A Paz? A Força? A Paixão? A Tempestade? De Brahms? Que jamais se rende, que jamais se verga, que jamais se entrega!

            Sim, porque vibra a Sinfonia nº. 4 de Brahms em meus tímpanos, e agora eu sei de onde ela nasce... É tu que tocas, é tu que me observas...

            É Noite. E pela primeira vez sinto medo, pois estou no escuro da Noite e sei que é tu que me observas... Eu sigo meu caminho, olhando-te, somente com a lâmpada daquela nota em dó menor...
Uma 

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