04 abril 2016

"O amigo de todos não é amigo de ninguém."

"Ter muitos amigos é não ter nenhum." Essa frase de Aristóteles sempre me chamou a atenção. Mas qual, afinal, o seu significado? Em geral, as pessoas a interpretam como a velha questão de que mais vale a qualidade do que a quantidade de amigos, e que ter muitos significaria que, na verdade, vários desses "muitos" não seriam amigos autênticos, seriam falsos, ou apenas conhecidos, enfim. Discordo dessa interpretação. Primeiro, porque é óbvia demais, segundo, porque, de acordo com esse entendimento, mesmo alguém não tendo tantos amigos como diz ou pensa, ainda assim teria alguns. Mas Aristóteles afirma que quem tem muitos não tem nenhum.

Uma outra interpretação possível seria a de que aquele que acredita que possui muitos amigo não sabe avaliar ou reconhecer o que é a verdadeira amizade. Consideraria como amigo qualquer tipo de relacionamento que, muitas vezes, seria apenas superficial ou momentâneo. De modo que, se fizesse uma análise profunda de suas amizades, poderia acabar por dar-se conta de que não possui nenhum amigo de verdade. Creio ser esse entendimento melhor que o primeiro, mas, ainda assim, falho, porque também poderia se reconhecer entre essas amizades "de superfície" algumas que fossem profundas e reais.

A melhor interpretação da frase de Aristóteles, a meu ver, é aquela que traz relação com frase semelhante, atribuída ao padre jesuíta e professor de filosofia, o francês Louis Bourdaloue (1632 - 1704). Afirma Bourdaloue, muito provavelmente influenciado pelo genial filósofo grego, que "O amigo de todos não é amigo de ninguém". Creio ser essa a melhor interpretação, porque a verdadeira amizade acarreta um posicionamento, uma escolha, é indissociável da lealdade, da fidelidade.  Nesse sentido, ser amigo de alguém, é também ser, se não inimigo, ao menos "não simpático" às inimizades de seu amigo. Quem é amigo de todos, não tem um posicionamento na escolha das amizades, logo não poderá ser leal e fiel a nenhum dos amigos, porque não terá um "lado". E como se confiar em alguém que pode ser amigo de seu inimigo? Não se pode estabelecer amizade com alguém em quem não se confia. O "amigo de todos" é mais ou menos algo como aquele que acende uma vela a Deus e outra ao Diabo. A expressão popular "Amigo da Onça" ilustra muito bem meu comentário.

2 comentários:

Ana Bailune disse...

Acredito que os inimigos são necessários; e como inimigos não estão aqueles que "devemos combater", mas com quem devemos aprender a aprender. A vida sem inimigos é insosa. Todo mundo tem um desafeto, até quem o negue. Se não tem neste momento, já teve, e terá sempre, em vários momentos da vida. acredito que aprendi mais sobre mim mesma através dos inimigos do que dos amigos, pois a opinião dos amigos nem sempre é sincera... mas as dos inimigos, mesmo que exagerem, tem um fundo de verdade... não acredito em quem diz que ama todo mundo, que aceita todo mundo, que se dá bem com todos...

Weimar Donini disse...

Como reconhecer uma amizade? Se interesseira, se momentânea? Se verdadeira? Penso que só o saberemos quando, de fato, ela for confrontada com os nossos percalços.
Neste sentido concordo com a autora do texto "por que é tão difícil fazer amigos" (http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=30440) que afirma que a questão aristotélica seria, na verdade "Quem tem familiaridade com muitos, não é amigo de ninguém" e afirma que "(...) a grande maioria infelizmente confunde amizade com troca. E quando não há mais possibilidades de alguma troca, afastam-se definitivamente."
A considerar-se.
Um abraço.