18 julho 2012

Doutores de Eureka (ou de Arake)

A recente demissão, pela URI de Santiago, da amiga e excelente professora do Curso de Letras Terezinha Bombassaro, tendo-se como argumentos o enxugamento de pessoal e a titulação, reflete dois pontos: um deles muito bem abordou o colega blogueiro Froilam Oliveira, que diz respeito à perseguição e à decadência dos cursos de formação de professores. É assim que o Brasil pretende ingressar no 1º mundo. É como eu sempre digo, e muitos não gostam, mas não me canso em repetir: o Brasil foi e continua sendo uma piada.

O outro ponto relaciona-se com a estúpida e hipócrita valorização demasiada dada à titulação de um professor (e entre outros profissionais), como se isso fosse sinônimo de conhecimento, de se saber ministrar devidamente uma aula, de se possuir a verdadeira sabedoria de que um professor necessita para se tornar um bom mestre. No caso da professora Terezinha Bombassaro, que possuía apenas especialização, sem mestrado ou doutorado, o que se percebia é que ela definitivamente não precisava de um. Até poderia fazer, mas apenas por questão de titulação e para acumular mais algumas informações, porque sabedoria como profissional ela possuía, e muito. Estou certo de que essa é a opinião da maioria absoluta dos alunos de Letras que passaram pela professora. Tinha ela (e tem) não só o conhecimento, mas também sabia (e sabe) transmiti-lo e ensejar no estudante o gosto pela Literatura Brasileira, a sua disciplina. E, acima de tudo, a professora Terezinha é um profissional humano, sabendo equilibrar-se no terreno difícil entre a exigência e a compreensão. Resultado: foi demitida.

Por outro lado, conheci os famosos doutores “bitolados”, presos dentro de uma redoma de cristal opaco, que só percebiam um caminho estreito à sua frente e nada mais. Cegos e surdos para os demais aspectos das coisas que não estivessem de acordo com sua visão pré-fabricada da realidade ou da imaginação. Aliás, muitos desses doutores nem imaginação tinham, uma vez que já a haviam esmagado com o seu estúpido “rigor acadêmico”, que os deixou incapazes de ver e de criar o novo. Mentes-bolo perfeitamente assadas dentro da bela forma do academicismo.

Certa vez, tive uma palestra com uma senhora que era doutora em Literatura Romântica Alemã, com doutorado na Alemanha. Era brasileira. Mas mal sabia falar o Português. E não, ela não tinha vivido a maior parte da vida na Alemanha. Vivera apenas uns cinco anos lá. Não sabia porque simplesmente não conseguia dar uma palestra. Não sabia expressar e desenvolver argumentos. Lia o que deveria ser dito naturalmente em uma exposição. Questionei-lhe sobre um aspecto da obra de Goethe, e a doutora enrolou, enrolou e não disse absolutamente nada sobre a minha pergunta. E como ela, há muitos outros “doutores”. É claro que há os doutores altamente respeitáveis, que não se deixaram enquadrar, que não foram tolidos em sua criatividade e pensamento. Mas são poucos, bem poucos.

Disse certo escritor de que agora não recordo o nome que “Um especialista é alguém que sabe tudo sobre nada”.  Nada mais correto. Tanto se preocuparam em saber sobre algo tão mínimo que, ao invés de se aprofundar, afundaram-se em conceitos mortos e teorias estéreis, em rigorezinhos científicos mecânicos, tornando-se os robozinhos do conhecimento. São aqueles que se alguém lhes disser que fez uma nova descoberta, responderão que a descoberta só será válida se alguém a tiver descoberto antes. “Como assim, uma descoberta nova? Isso não existe, meu filho. Quem és tu pra descobrir algo novo? Uma obra de arte original? Ora, pensas que és um gênio, é?”

Os doutores dessa categoria perderam todo o senso holístico, não possuem a capacidade de perceber e compreender o todo, e prendem-se a seus titulozinhos como se fossem atestados de inteligência, sabedoria e autoridade. E ai de quem os contradizer. O curioso é que uma das diretrizes da educação brasileira é justamente a construção do conhecimento em conjunto com o aluno, sabendo-se ver os conhecimentos que os estudantes possuem como também importantes. O professor não pode se julgar o dono da verdade. Porém, quando estamos em um curso superior, o que se vivencia, em muitos casos, é justamente o inverso: professores doutores autoritários e arrogantes, cuja palavra (limitada, curta, “palavra de forma”) é a lei. E, muitas vezes, sabem menos que o aluno. Mesmo. O que não era o caso da professora Terezinha, muito pelo contrário. Até porque, graças a Deus, ela não tinha doutorado.

Que tipo de gente sairá das universidades com doutores dessa espécie? Pensantes por si próprios, críticos, sensíveis e criativos? Acho que não, hein...

10 comentários:

Guilherme Vinjar disse...

Nada mais a dizer,
verdade crua e nua...

Nadine Granad disse...

Também acho que não...



****APLAUSOS*****

Mary disse...

Passando pra desejar uma ótima quinta feira.

Bjos

Albuq disse...

Oi Reiffer!
Eu estou terminando Licenciatura em História e o que mais encontro é discussões sobre isso. Sobre títulos, títulos e mais títulos. Foi durante minha graduação inteira o meu pesadelo. Eu trabalho o dia inteiro, faço o curso noturno e não podia viajar para participar de encontros, congressos e outros, consequentemente não pude acumular tantos títulos que dificultam na hora da seleção para emprego.

Entendo plenamente o que você relatou sobre a Professora e vejo como uma perda para a Instituição, abrir mão de uma Profissional competente.

bjs

Carla Ceres disse...

Que pena perder uma boa professora por causa de uma exigência que se satisfaz com dois anos de estudo. Poderiam ter dado a ela um tempo para fazer mestrado. Abraço!

Nana Lopes - @nanamada disse...

Belo trabalho ! Obrigada pela visita.Volte sempre.Bjkas

Carlos Nascimento disse...

A febre das titulações tem dois motivos, no meu ver: formalizar o comércio da Educação e, impressionar os ignorantes. Vejo porfessoras com simples graduação de tempos atrás e não me surpreende em nada afirmar que são melhores que as de hoje, inclusive, aquelas que fazem um pós ou mestrado, pois tudo é mal feito mesmo! Sincermaente, optar pelo caminho infame da demissão por questões corriqueiras, vai contra até os propósitos morais da Universidade que se anuncia esforçosamente em marketing para tentar melhorar sua imagem que está se desvaindo, corroendo diante da população e região. Enfim, outras instituições tratarão de acolher esses profissionais experientes e mais uma vez a URI sai perdendo por fazer bobagem contra si mesma. A população agradece...

Carlos Nascimento disse...

A febre das titulações tem dois motivos, no meu ver: formalizar o comércio da Educação e, impressionar os ignorantes. Vejo porfessoras com simples graduação de tempos atrás e não me surpreende em nada afirmar que são melhores que as de hoje, inclusive, aquelas que fazem um pós ou mestrado, pois tudo é mal feito mesmo! Sincermaente, optar pelo caminho infame da demissão por questões corriqueiras, vai contra até os propósitos morais da Universidade que se anuncia esforçosamente em marketing para tentar melhorar sua imagem que está se desvaindo, corroendo diante da população e região. Enfim, outras instituições tratarão de acolher esses profissionais experientes e mais uma vez a URI sai perdendo por fazer bobagem contra si mesma. A população agradece...

Carlos Nascimento disse...

A febre das titulações tem dois motivos, no meu ver: formalizar o comércio da Educação e, impressionar os ignorantes. Vejo porfessoras com simples Graduação de tempos atrás e não me surpreende em nada afirmar que são melhores que as de hoje, inclusive, aquelas que fazem um Pós ou Mestrado, pois tudo é mal feito mesmo, hj se adquire uma titulação a base de um artigo ou de um trabalho qualquer em curto espaço de tempo e vai dar crédito a isso como se fosse um período exaustivo de estudos de formação como deveria ser! Sinceramente, optar pelo caminho infame da demissão por questões administrativas, políticas e... de titulação sem perceberem a pessoa no seu contexto ou integralidade é demais! Isso vai contra até os propósitos morais da Universidade que se anuncia esforçosamente em marketings para tentar melhorar sua imagem que está se desvaindo, corroendo diante da população e região. Enfim, outras instituições tratarão de acolher esses profissionais experientes e mais uma vez a URI sai perdendo por fazer bobagem contra si mesma.

Carlos Nascimento disse...

A propósito, não tenho vínculo algum com qualquer um dos professores demitidos na URI, portanto, sou imparcial. Mas gostei muito da ilustração posta do burro tentando aprender um pouco mais, p vcs verem que até ele tenta...