20 junho 2012

O Escritor deve ser um Franco-Atirador

Um bom escritor deve ser algo como uma metralhadora giratória. Não disparando à toa, atirando apenas para atirar, mas no sentido de não se prender a nada para poder exercer livremente o seu direito (e dever) de disparar o seu verbo contra o que não julgar correto. É aquele velho “doa a quem doer”.

O que, logicamente, não é nada fácil. Há que se não ter o rabo preso nem com algo nem com ninguém. A liberdade total de expressão exige que paguemos um preço alto. O problema é que a maior parcela dos escritores de hoje em dia (e não só os escritores) não querem pagar preços, preferem receber pagamentos. Não necessariamente monetários, é claro. Vender-se é bem mais simples. E mais lucrativo. Obter-se favores com a delimitação do nosso verbo também é uma moeda de troca. Pode-se até conseguir um sucessozinho, certa fama, até dinheiro.

Há desde os que se vendem para aparecer na mídia aos que se vendem a editoras. Há os que preferem não falar de certas coisas para evitar criar inimizades, ou para não prejudicar amigos, ou a si próprios, para não serem mal vistos, para não perderem determinados privilégios e benesses. Algumas vezes, é simplesmente porque não podem. Afinal, há que se sobreviver.

Porém também há um preço a se pagar ao não se ter a coragem de disparar a metralhadora. O preço é tornar-se exatamente um covarde e um medíocre. Nos casos mais graves, perde-se a honra e a dignidade. Torna-se um pau-mandado. Muitas vezes, o medíocre justifica-se a si mesmo, afirmando que tudo o que escreve é exatamente o que queria escrever. E que está com sua consciência absolutamente tranquila.  Mas, no fundo, ele sabe que não é bem assim.

Escrever é atirar. É óbvio que não é só isso. A literatura é uma das artes mais completas, se não for a mais completa, e possibilita uma gama infinita de expressões. No entanto, em nossos dias, é uma obrigação (mais do que um direito) do literato exercer todo o potencial de criticidade possibilitado pela literatura. Mas há que se ter muita coragem para fazê-lo, entre outras características mais, como uma funda e perspicaz visão do que acontece à sua volta. Para se atirar há que se não estar de acordo com a situação. A arte em si é, entre outras coisas, a reação a todas as situações.

Além do que, uma literatura sem “tiros”, torna-se, nos tempos atuais, insuportavelmente chata. O escritor deve ser um franco-atirador. Nunca curvado. Dobrar a espinha é o primeiro atestado de mediocridade. Talento sem coragem é como ter milho e não ter dentes. Para tanto, é mister a independência de quem escreve. Caso contrário, torna-se um touro capado. Que não é touro, é um boi. Sem força e sem moral.


4 comentários:

Sonia disse...

E disse tudo! Perfeito.

Marisete Zanon disse...

Muito bom! Posta no Face!!! Beijo!

Cristina disse...

Vender-se. Coisa mais comum e mais irritante nos dias de hoje.
Um bom. Parabéns

Weimar Donini disse...

Muito bom, Reiffer. Na veia mais uma vez.
Não sei de onde capta tanta inspiração, tantas verdades. Imagino que saiam das boas leituras mesmo.
Parabéns.
Ah, não precisa agradecer. Quem agradece pelas aulas somos nós.
Um abraço.