07 maio 2016

Brahms, um forte.

Hoje, 7 de maio, meu compositor predileto e grande influência de vida, Johannes Brahms, completa 183 anos. Digo "completa" e não "completaria" porque os grandes gênios nunca morrem, principalmente os das artes. É uma oportunidade para realizar algo que me traz grande prazer: escrever sobre a vida e a obra de Brahms.

Dentro do universo da música erudita, tem-se como inquestionável que Brahms teve como grande mestre e exemplo a ser seguido, tanto em forma como em conteúdo, ao um dos gênios maiores da música, o grande Beethoven, que faleceu 6 anos antes do nascimento de Johannes. A influência beethoveniana é, sim, indiscutível na obra de Brahms (como o foi em quase todos os compositores românticos em maior ou menor grau). Podemos dizer que Brahms foi, de certa forma, um continuador de Beethoven, adotando muito de seus modelos estruturais e mantendo um certo "clima" beethoveniano, principalmente em suas obras de juventude, e, diga-se de passagem, com uma  dignidade e uma competência irrepreensíveis. O que foi reforçado quando o maestro Hans Bülow denominou a 1ª Sinfonia de Brahms, logo após a sua estreia, como a "10ª  Sinfonia de Beethoven".

De modo que a expressão "Herdeiro de Beethoven" associada a Brahms é, sem dúvida, pertinente, além de ser altamente honrosa, afinal, "herdar" Beethoven, ser seu continuador, não é para qualquer um, exige uma grandeza e uma força descomunais. Porém, por outro lado, isso também pode ser visto como algo que "diminui" Brahms, pois deixa a impressão de que o compositor não tinha uma personalidade própria. Nada mais falso. Brahms foi bem mais do que um continuador de Beethoven, pois, se numa primeira impressão, percebemos semelhanças entre várias obras de ambos, numa audição mais cuidadosa e numa análise mais aprofundada, identifica-se em Brahms um caráter único, uma assinatura musical muito singular.

É verdade que Brahms seguiu, formalmente, os modelos clássicos adotados por Beethoven, principalmente os de sua fase de maturidade, preferindo a forma sonata  para compor (exposição, desenvolvimento, reexposição) e mantendo dentro dos padrões beethovenianos o tamanho da orquestra. Brahms não via necessidade de aumentar os número de instrumentistas de uma orquestra, o que estavam fazendo outros românticos, como Liszt, Wagner, Bruckner. Alias, Brahms sempre teve uma forte queda pela música mais antiga, tanto pelos modelos clássicos como pré-clássicos, e, em sua fase de maturidade, a influência de Bach torna-se marcante. Mas mesmo na forma, há grandes diferenças entre Brahms e Beethoven. Este gostava de temas curtos, afirmativos, diretos, com poucas e eficientes notas. Já Brahms preferia temas mais desenvolvidos, carregados de mais melodia, muitas vezes com vários temas que se entrecortam através de inúmeras variações, trazendo uma densidade excepcional à sua música. O seu processo de modulação musical é algo totalmente inovador, revolucionário até.

Mas é no conteúdo que Brahms se diferencia ainda mais de Beethoven. Ainda que os dois gênios tenham criado obras que se caracterizam pela grande força vital, pela potência e intensidade emocionais, que chegam a ser violentas, cheias de fúria algumas vezes, Brahms é mais melancólico, mais pessimista, psicologicamente mais pesado que Beethoven. Há mais tragédia, mais sombras na música brahmsiniana. Há uma preferência pelas tonalidades escuras. Enquanto em Beethoven, quase sempre, tudo se encaminha para uma grande e retumbante vitória, em Brahms as coisas são mais contidas, mais cautelosas, não há o otimismo de Beethoven, a vitória não é certa, só o sofrimento é que é. Mesmo assim, tanto a música de um quanto a de outro é música de luta, que nunca se rende ao infortúnio.

Brahms era melhor melodista que Beethoven. Suas melodias são carregadas de uma expressividade ao mesmo tempo tensa e apaixonada, serena e resignada. É o famoso equilíbrio de Brahms. Um coração romântico, uma mente clássica. Enquanto Beethoven desenvolve suas obras, na maior parte, com grandiloquência e explosão, Brahms evita os exageros românticos e torna sua obra uma música mais discreta, mais grave. A música de Brahms é séria, reflexiva, com pouco momentos de alegria ou descontração. É música firme, segura, com os pés no chão, de uma estrutura inabalável (tanto formal quanto psicologicamente).

Enfim, em Beethoven, tudo vence. Em Brahms, tudo é forte.

Um comentário:

Carlinus disse...

Parabéns pelo texto! Bastante elucidativo! Faz jus à memória desse mestre imortal.

Obrigado por ter lembrado de mim para poder apreciar o seu texto.

Um forte abraço!