30 novembro 2015

Atentado aos não-atentos

a poesia é o  nada
tornado inútil
pelo imprestável

é aquilo que não presta
no entre
de um mundo em pressa:
a poesia
é tudo o que resta

é o aquilo
que não pode ser dito
sendo dito
(ou intentado)
atentado
aos não-atentos

dito
mas não compreendido
seja como for
é como se não fosse

viu, veio e venceu
o seu tempo
ou o seu tempo venceu
como um produto
que perde a validade:
logo não está
no tempo que é

quem escreve
querendo dizer alma
não só não diz
(porque não há o quem capta)
como sem nada acaba
(nem paz nem palavra)

que um poeta
não há nada que o valha


27 novembro 2015

Céu Perdido

sendo música que é sem ter que ser
assim me espero no que nada sou
vejo os campos tão amplos dos profundos
lagos meus que nunca foram benditos

porque ao âmago sempre inútil seco
aqueles verdes vagos passam e levam-me
em raio de horror tornado tornado
olho amigo para o céu que oceana

todos os sorrisos são como pássaros
fêmina passagem em culpa sanguínea
tudo é triste abaixo dO que não é

e em quatorze versos não disse nada
não disse porque estou rouco e mais louco
e tudo é tão longe, em febre, tão pouco...



25 novembro 2015

quem dera ficasse

a vida passa tão rápido
tão rápido
que às vezes nem passar
ela nos passa
é tudo tão poucas passadas
que logo são águas passadas
que ao longo são mágoas pesadas
que ao largo são folhas pisadas

e tudo que é belo
acaba breve
seja sonho seja neve
sejam flores ou olhares

passam a beleza e a vida
passa tudo o que eu (não) te diga
mas a poesia
(que nem é bela nem é vida)
a poesia é o que fica




23 novembro 2015

de Mulheres Difíceis

Poema inspirado e dedicado a Patrícia Almeida, por ocasião de seu aniversário (23/11/2015)

 I - viver ao lado de uma mulher
(se ela é uma grande mulher)
não é não ter mais que sonhá-la
por estar com ela
mas estar com ela
para ainda mais sonhá-la

II - há dois tipos de mulheres:
as de personalidade forte
e as que não valem a pena

III - chamam de mulheres difíceis
aquelas que além de inteligência
têm alma:
os homens em geral
não as conquistam
porque homens com alma e inteligência
são ainda mais difíceis

21 novembro 2015

de Ironias do Destino

o destino
é um irônico:

fez Beethoven surdo
para que ouvisse o mais alto

fez Milton cego
para que visse o não-visto

fez Pessoa nada
para que nos dissesse tudo

quanto a mim
fez com que eu tomasse vinho
para que enxergasse duplo:

é mesmo muito irônico
esse De(u)stino


19 novembro 2015

nem sonho e nem estrela

Franz Schubert, um de meus compositores favoritos, faleceu a exatos 187 anos, em 19 de novembro de 1828, com apenas 31 anos. Aproveito a a ocasião para republicar o poema abaixo, inspirado na sua música, escrito ano passado.

Após Schubert

essa estrela que eu olho
não é ela que está lá
pois uma outra há que vá
que me olha no que eu olho
mas essa estrela que é
que deseja o que eu vejo
nunca é no meu desejo

essa noite que eu vi
nunca foi a que estava
mas se vai com outra asa
longe do que pedi
alma do que não foi
e outra noite me envia
som-voo do que morria

este sonho que eu tenho
não é sonho que pode
fiz-me por outro acorde
nada em que me sustenho
erro do meu não ser
noite do que vou tê-la
nem sonho e nem estrela

15 novembro 2015

O rio mais importante de MG está morto. Em breve, também o planeta.


A catástrofe humana e ambiental ocorrida em MG, que causou a morte do Rio Doce, parece ainda não ter sido totalmente assimilada pela população brasileira.  A ficha ainda não caiu. É algo de proporções monstruosas. O rio é o mais importante de MG. Ou era. As consequências , gravíssimas, perdurarão por décadas. E muito da vida da região perdeu-se para sempre. Mas para muitos, absurdos como esses são apenas acidentes de percurso, e, para eles, a humanidade vai muito bem em seu caminho rumo ao progresso, ao desenvolvimento, à evolução.  Abaixo, trecho retirado do site Climatologia Geográfica:

"Segundo Luciano Magalhães, diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Baixo Guando, órgão responsável pela análise, “parece que jogaram a tabela periódica inteira” dentro do rio. Segundo ele, a água não tem mais utilidade nenhuma, sendo imprópria para irrigação e consumo animal e humano.

Além desses metais pesados, a própria força da lama já devastou a biodiversidade do rio para sempre. Os ambientalistas não descartam a possibilidade de que espécies endêmicas inteiras tenham sido EXTINTAS pela lama. A quantidade de lama é tão grande que o rio teve o seu curso natural bloqueado, fazendo com que perdesse força e formasse pequenas lagoas que também não durarão muito, já que, além dos minérios, os esgotos, pesticidas e agrotóxicos também estão sendo carregados pelas águas." Clique aqui, para saber mais.

A empresa responsável, a Samarco, foi multada em 250 milhões de reais. De que adianta? Segundo fontes do governo federal, os prejuízos totais podem chegar a mais de 10 bilhões. Mas e a vida? Lógico que nem 1 trilhão pagará a vida perdida. Porém catástrofes como essas não pararão. Nem aqui nem em qualquer lugar do mundo. O dinheiro fala e continuará falando mais alto. As empresas querem lucro. Cada vez mais. O resto não importa. E todos acham isso ótimo, até quando ocorre uma tragédia. Então, se lamentam.  E depois, esquecem. A Vale foi entregue nas mãos gananciosas da iniciativa privada durante o governo FHC, em suas famosas privatizações. Todo mundo, ou quase, achou uma maravilha. 

Não há saída. Aos poucos, de facada em facada, o planeta morrerá. E a humanidade com ele. Por isso, deixo um de meus poemas. É só o que me resta:


A Queda da Humanidade


despencaste dos próprios tamancos
 tropeçaste nos próprios barrancos
 afundaste nos próprios buracos

não foste o ser que és
nem chegaste a ser o que não foste
daquilo que conseguiste desististe
o que fracassaste levaste adiante

puxaste a carta  mais baixa
do teu castelo de vento
quebraste o orgulho do teu salto
sem nem ter chegado ao alto

e eu
como nunca fui nada
entre o que está entre ti
naquele dia de Queda
não estarei nem aqui




12 novembro 2015

Homens só louvam imbecis

Abaixo, poema publicado no site do Caderno Literário Pragmatha, de Porto Alegre. Clique para ampliar.


10 novembro 2015

"Sem dinheiro para pagar o 13º, Estado gasta R$ 26 mi com vale-alimentação de 800 magistrados" A isso eles chamam JUSTIÇA.

A primeira parte do título acima, entre aspas, é o que foi noticiado no portal Sul21. A segunda parte eu acrescentei. Sim, porque é, no mínimo, vergonhoso e indignante que tal absurdo aconteça em qualquer nação. É uma afronta escancarada à população gaúcha. Nem em dar uma disfarçada se preocupam mais. E pior que o Estado pagar, é o fato de que os magistrados aceitam sem um pingo de vergonha. Como se precisassem de vale-refeição com seus salários acima dos 22 mil reais. E um vale refeição que é bem maior do que o pago a outras categorias. E ainda pior: é RETROATIVO. É, um juiz deve comer muito, muito mais do que outros seres humanos. É a única explicação plausível. Tudo isso seria ridículo, se não fosse catastrófico que esteja ocorrendo em um estado dito "politizado".

Depois, tanto o governo Sartori e sua base aliada (que acaba de aprovar a redução dos RPV's, ou seja, mais um golpe contra o funcionalismo), como muitos magistrados (logo eles, que deveriam ser exemplos do que é JUSTO), enchem a boca para falar de moralidade no estado, no país, de luta contra a corrupção, de cidadania, de igualdade, de justiça, enfim, o blá-blá-blá, o papo furado de sempre. Depois, exigem credibilidade da população. Depois, têm a cara de pau de falar em esperança. 

Confira trechos do que foi noticiado no portal Sul21:

Enquanto o governo de José Ivo Sartori (PMDB) diz não ter condições de pagar o 13º salário dos servidores do Executivo, no dia 20 de dezembro, cerca de R$ 26 milhões saíram dos cofres do Estado na semana passada para arcar com o pagamento retroativo do vale-alimentação de cerca de 800 magistrados, referentes aos anos de 2011 a 2014. Sem saber se receberão o 13º, representantes dos servidores do Executivo questionam a discrepância de tratamento entre categorias do funcionalismo estadual e consideram “absurdo” o benefício concedido aos magistrados, que também deverão receber o 13º em dia, dado o fato de as folhas do Executivo, Legislativo e Judiciário serem separadas.

Na semana passada, cerca de 800 juízes receberam o pagamento do vale-alimentação mensal (no valor de R$ 799) referentes ao período de junho de 2011 até dezembro de 2014. Ao todo, saíram dos cofres do Estado R$ 26.241.528,83. Em junho, quando o benefício entrou em vigor para juízes, pretores e desembargadores, o governo já tinha repassado valores referentes ao ano de 2015 – os gastos anuais com o benefício giram na casa de R$ 7,7 milhões. O pagamento deste benefício segue uma determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Na avaliação dos representantes de servidores do Executivo, esta remuneração “é um absurdo”. “Não tem sentido algum receber isso, ainda mais nos valores que estão”, avalia Augustin, que diz que a Constituição já prevê que o subsídio mensal dos magistrados (no mínimo R$ 22 mil) deve ser suficiente para a alimentação. Augustin também diz que, mesmo que fosse aceitável que os magistrados recebessem o benefício, os valores estão muito acima dos praticados para outras categorias. “Esses valores são um atentado, ainda mais sabendo que, com esses recursos, fazem com que as pessoas que ganham abaixo de um salário mínimo tenham dificuldades para receber”.



08 novembro 2015

Professor de Literatura analisa as letras das 100 músicas mais tocadas no Brasil. O que você acha?

Que a música brasileira (e não só a brasileira, o lamentável fenômeno é mundial) caiu drasticamente em qualidade nas últimas décadas, tanto no que diz respeito à música em si, à sonoridade, quanto às letras que a acompanha, é algo sabido de todos. Claro que há exceções. Mas o que vemos  (ou ouvimos), de um modo geral, são músicas extremamente pobres, sem riqueza ou originalidade tanto de ritmo quanto de melodia, com padrões de sonoridade batidos e repetitivos, quase nada sai do medíocre lugar comum.

 E quanto às letras, a situação é ainda pior. Em muitos casos, chamar certas "letras" de letras é uma ofensa à palavra. Em outros, ainda que a letra diga alguma coisa, o que diz é tão raso, tão sem graça, tão igual a milhares de outras letras, tão "mela cueca", que chega ser abaixo do nível do "comum". Bem, mas o que esperar de um país dominado, desde antes do século XXI, por essas coisas  caça-níqueis dos otários, como o dito funk, o axé, o pagode que não é samba, o sertanejo universitário que não é sertanejo...? 


Abaixo, publico trechos de uma entrevista com Marcelo Sandmann, professor de Literatura da Universidade do Paraná (UFPR), que analisou as letras das 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras. Vamos ver a que conclusão o professor Marcelo Sandmann chegou (a entrevista pode ser conferida na íntegra aqui):



Todas as letras, sem exceção, tratam de relacionamentos amorosos. Esse “monotema” indica uma falta de preocupação com outros objetos?

Sim, as letras tratam exclusivamente de relacionamentos amorosos, o que chama especialmente a atenção, pois outros temas, mesmo que em menor escala, também costumam ser frequentes na canção popular. Um assunto muito presente, e com tratamento variado, seja, por exemplo, no samba dos anos 30 e 40, no baião dos anos 50, na canção de protesto dos anos 60 e 70, ou no rap mais recente é a questão social e/ou política, ausente dos exemplos aqui trazidos. O conflito não se dá apenas do “eu” com o parceiro amoroso ou algum rival, mas também em relação a situações de desigualdade social, carência material, opressão política etc.

Embora o sertanejo predomine, não há tematização da cidade, do campo, ou do deslocamento, por exemplo. Algum palpite sobre o motivo?

O “sertanejo” aqui já não pode ser entendido no sentido primeiro do termo, como uma música oriunda do “sertão”, ou do campo em oposição à cidade, e que apresentaria, portanto, questões como origem rural, deslocamento, nostalgia da origem, confronto cultural e social com o meio urbano ou adaptação a ele como assuntos importantes, conjugados à temática amorosa. O “sertanejo” aqui se define muito mais como um gênero já consolidado, com determinadas convenções de composição, arranjo, instrumentação e performance que remetem a uma certa tradição “sertaneja”, mas que na verdade já se deslocou em relação a ela. Trata-se de uma música absorvida pelo mercado, com um público alvo específico e que circula como um produto, dentro dos padrões que regem a produção e circulação de bens de consumo. Não é à toa que diante de toda essa onda, aparecem sempre aqueles que defendem o “sertanejo legítimo” ou a “música caipira de raiz”, o que daria espaço para vários outros questionamentos e reflexões.

Algum palpite sobre por que esses são os temas (e o gênero) que dominou as FMs? Certamente há outras produções, inclusive mais interessantes, que até já dominaram a cena em outros momentos. Há um “empobrecimento” da música brasileira?

Se considerarmos variedade formal e temática, maior complexidade musical e poética como valores positivos, há um evidente empobrecimento da música popular brasileira. Esse sertanejo urbano e massificado passou a dominar o mercado na passagem dos anos 80 para os 90 (Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, entre outros) e hoje, com seus herdeiros, impera nas FMs de maior difusão e está muito presente nas televisões abertas, mas não só. Penso que em alguma medida é uma reação da grande indústria da música e do showbizz à ampliação da produção e fragmentação da circulação musical nas duas ou três últimas décadas, possibilitadas pelo barateamento das tecnologias de gravação e o acesso à internet como meio de difusão. A forças pluralizantes (democratizantes ou mesmo anarquizantes), contrapõem-se outras, centralizadoras. Uma questão de controle do mercado musical, portanto. Podemos pensar também nas mudanças sociais no Brasil das últimas décadas, com o advento da tão falada “nova classe média”, inserindo novos sujeitos no mercado de consumo, sem que a isso corresponda necessariamente algum tipo de transformação realmente significativa na formação educacional e cultural. 





06 novembro 2015

Contribuição à Literatura Nacional

literatura do agrado
dessas
amiga de todos
de mandar beijos aos quatro cantos
que acende vela a deus e ao diabo
pode ser tudo
menos literatura

literatura sorriso
dessas
de cana açúcar melado
de pingar calda em concursos - feira
sob a baba de plateias - fake
pode ser tudo
mas não é arte

ok, pode ser muitas coisas:
sabujice – adulação – servilismo
medíocre – pelego – ordinário
chatice – laxante – excremento
até escravatura

tudo isso e mais o que se queira
menos literatura




04 novembro 2015

da Música

a música é um mistério
(mas só
quando música)
e como tal não se pode
nem de porre
podê-lo ou sabê-lo

a princípio
precipício
a sete notas acima
ou sete palmos abaixo
ou céu a mais
verbo não-verbalizado
sem vice-versas
nem (des)entendimentos
equivocados:
é para cada ser que o seja

à música
não há preciso selo
não se carta
não se mensagem:
quem ouve
é que deve sê-lo

ainda que a música
diga dizeres
matemáticos ou linguísticos
não se pode dizer
que foi sendo como dito:
o que vale é o que som
infinital e arquetípico
absoluto
desracional
desanalítico

desde o canto do galo
ao galopar do cavalo
é um elevado alto
ditado em não se dizer
que é mister
misteriá-lo

02 novembro 2015

A Esperança Curvada ao Desumano

derradeira decadência das massas
pela invicta derrota do que humano
vontades que naufragam ano a ano
nos fundos tormentados das não-taças         

o não-haver de tudo que se faça
o em-vão irrevogável do não-plano
a esperança curvada ao desumano
nas vastas pradarias da desgraça

passo a passo de um algo que maldito
sobre as patas-arcanjos de um cavalo
entre os olhos sedentos do inaudito...

a nulidade do ato de salvá-lo
dessangra entre vermelhos de infinito
e o Horror levanta a força do seu falo...