22 outubro 2014

Dia 20 de Outubro foi o Dia do Poeta. Nada a Comemorar.


É, nada. Num mundo cuja humanidade é cada vez menos humana, cada vez mais robótica, mecânica e desprovida de senso crítico e de sensibilidade, a poesia aos vai ocupando um lugar cada vez mais restrito. Deixo dois poemas abaixo que abordam essa temática. Antes, um trecho de Mário Pederneiras:

"É minha poesia que me isola do rastejo vulgar de toda gente...
Na sua estranha calma é que minha Alma se eleva
E purifica."

o homem que não muda

com a muda
de árvore
nas mãos miúdas
espera o homem
(que nunca muda)
mudar o mundo

o homem que não-muda
entre a merda e o medo

e a poesia muda
como quem observa
um morto
como sendo grave
a poesia em silêncio
como sendo árvore


Adeus, Poesia

I
adeus, Poesia

não vês
que o fim te bate a porta?
só os raros ainda vivos
não pensam
que tu estás morta

II
Poesia
não serves para nada
sempre foste muito
para ser (f)útil

sábia demais
para os sermões

e alta
entre os anões

 III
da tua última carta
mais ninguém
abrirá o selo.
melhor assim...
o que verdade
(agora)
antes morrer
do que dizê-lo

IV
adeus, Poesia
abandonas o mundo
para ir com a alma
que abandona os homens

e isto ficará escrito
em sangue
e espírito

2 comentários:

Louis Allien disse...

nem sempre há o que se comemorar
mas lembremos que comemorar significa
"lembrar junto"
belas palavras, afiadas e fundas como navalhas.
como a Saudade...
E a nossa Poesia é Morta-viva!

Weimar Donini disse...

Embora um pouco atrasado e mesmo que não haja muito a comemorar, parabéns pelo teu dia.
Um abraço.