08 setembro 2013

Fragmento Absurdo de um Existência Futura n°4 – A Cabeça no Meio da Rua

Mais um maldito ano insuportável. 2047. Secas, furacões, enchentes e terremotos pela frente. E o diabo! E, não sei por que, venho me irritando demais com essa alteração na cor dos céus. Não é mais aquele azul celeste reconfortante, mas uma tonalidade modificada, algo opaco, desbotado, amarelecido. Não sei se alguém mais percebe. Mas eu poderia jurar que, há alguns meses, além da opacidade, os céus passaram a apresentar, uma tonalidade avermelhada que tem me inquietado profundamente.

Será mesmo que somente eu percebo essa merda? Talvez eu esteja com alguma doença nervosa, psíquica. Sim, eu devo estar doente da cabeça. E talvez seja melhor assim, para sobreviver neste caos fodido. Tenho certeza, aliás. Também não me importo com qual doença pode estar me afetando. Que diferença faria? Nunca me senti bem mesmo. Em nenhum sentido.  É possível que se trate de uma nova enfermidade, afinal, nos últimos anos, surgiram tantas moléstias desconhecidas, pestes incontroláveis, algumas de uma fatalidade brutal. Eu seria só mais um entre milhões de desgraçados. Grande bosta!  Mutações de vírus e bactérias. O homem virou especialista em criar pragas. Tudo isso fruto da grandiosidade da ciência e da destruição da biodiversidade. Mas o pior é que ainda há imbecis que acham a ciência o máximo. E que estamos evoluindo. Ah, que se fodam, essa gente nunca terá jeito mesmo.
           
            O que sei é que há alguns meses, percebi, ou julguei perceber, uma sutil alteração na coloração do céu, que estaria sendo “invadido” por uma espécie de “avermelhamento”. Talvez sejam alucinações. O sintoma de alguma enfermidade? Não sei, sei que essa quase imperceptível tonalidade rubra, seja ela real ou fictícia, atrai-me de um modo insano, irresistível.

            Todos os dias, sem variações, sinto-me “obrigado” a sair durante o momento do ápice do sol, ou seja, ao meio-dia, não importando as condições climáticas. Saio até abaixo de chuva. Caminho em direção a um campo aberto e desabitado, sento-me sobre a grama, olho para o céu, e fico contemplando, não sei por qual merda de motivo, durante quase uma hora, aquilo que julgo ser uma invasão lenta, insidiosa, do céu azul por uma tonalidade vermelha estranha, muito estranha. Nos primeiros dias, sentia-me bem após o fim da minha contemplação imbecil, embora continuasse melancólico. Porém, com o passar do tempo, essa melancolia foi se transformando em depressão, em um desalento total, em um desânimo tão profundo que havia dias que eu não conseguia nem mesmo erguer a cabeça ao retornar para casa.  Perambulava como um idiota deprimido pelas ruas, eu não passava de um estúpido zumbi. Olhava para as outras pessoas, todas infelizes, desesperadas, imersas em problemas sem solução. Ou então, estavam ali  escancarando um sorriso abestalhado entre a inexpressão e a perversidade. Enquanto eu ficava ainda mais deprimido.

            Ao chegar em casa, eu me atirava sem forças na cama, sem comer, sem tomar banho, um verdadeiro palerma. Enfim, sem fazer porra de merda nenhuma, dormia até a manhã do outro dia, sendo torturado durante todo o período de sono por pesadelos com os seres mais absurdos. Sonhava com monstros de aparência indescritível e de uma maldade extrema.  Os cenários de meus pesadelos eram os piores possíveis, e eu até os descreveria se tivesse um pouco da genialidade de Dante.


            Ao me acordar, quase sempre por volta das 9h, a depressão parecia ter passado, e eu me levantava, comia alguma coisa malfeita, quase sempre horrível, dava uma cagada, realizava uma higiene pessoal ridícula e pensava em ir para a merda do meu trabalho. Mas não tinha forças. Então, sentava-me, aguardando ansioso, angustiado, o momento de sair para a contemplação absurda dos céus que se avermelhavam, conforme meu julgamento de louco. Quando chegava o meio-dia, eu ia pra aquele campo e lá permanecia, por períodos de tempo cada vez maiores. Até que deixava apalermado o local, às vezes debaixo de chuva ácida. Era como se eu arrastasse um maldito manto de chumbo, tamanho era meu desânimo. Chegava em casa e jogava-me demolido em meu sono fodido e atormentado. O calor era tão desgraçado que eu às vezes acordava banhado em suor e tapado de mosquitos, mesmo mantendo o ventilador ligado toda a noite.

(Amanhã, o final do Fragmento n°4)

Nenhum comentário: