16 abril 2013

Fragmento Absurdo de Uma Existência Futura n°1


Fumando mais um cigarro, sentado no horror da minha cozinha, recordo-me, em deprimente indiferença (uma suprema indiferença tem sido a tônica da minha vida), os tempos em que eu assaltava bancos com meus amigos.  Bons tempos. Agora devem estar todos mortos. Eles, meus familiares e aquelas mulheres, poucas, bem poucas, que amei. Ou quase isso. Na verdade, nem sei se estão mortos ou não. Nunca mais soube deles. Nem tenho como saber, por mais que eu deseje. E também, agora,  já nem desejo tanto assim.  De que adiantaria? Mas devem estar mortos, é o lógico, dadas as circunstâncias. E em breve eu também estarei morto, é só uma questão de tempo. Sinto-me realmente doente. Não sei de qual doença se trata, é tudo tão confuso, uma reunião de sintomas de que nunca ouvi falar, sobre os quais nunca li, mesmo com os razoáveis conhecimentos de medicina que possuo. 

É como se minha pele ardesse e coçasse, saindo pequenas feridas purulentas em várias partes do corpo. Meus olhos ardem e estão sempre vermelhos. Às vezes, tenho pequenos sangramentos do nariz, dos olhos, das feridas da pele. Meu catarro grosso e amarelado volta e meia está manchado de sangue. Seguidamente, tenho febre. Por vezes, alta. Minha cabeça dói. Tenho tonturas, vertigens. De vez em quando, algum tipo de alucinação. Além de outros sintomas menores. Deve ser alguma doença oriunda da água contaminada ou da comida apodrecida. Ou, talvez, levando-se em conta os problemas de pele, pode ser efeito da radioatividade. Afinal, ela deve estar muito alta nessa região. E não só aqui, obviamente.  Aliás, a doença não deve ser A doença, mas AS doenças. Devo estar com um monte de merda em meu corpo. Só sei que não é aquele vírus que dizimou a cidade, porque o principal sintoma da epidemia era diarreia, e isso, pelo menos, eu não tenho. Ou também pode ser uma mutação do vírus, sei lá. Mas enfim, agora, o que importa? Como sei que não há forma de me curar, ainda que eu soubesse do que se trata, aguardo a morte. E mesmo que eu pudesse me curar, viveria pra quê?

Seja como for, a doença não me tirou o apetite. Tenho fome. E muita. Agora mesmo, estou pensando no que vou comer. Há meses, eu e alguns vizinhos, que já estão mortos, saqueamos todos os supermercados da cidade. Eu e meus vizinhos fomos os únicos que sobrevivemos após a epidemia do vírus desconhecido. O vírus havia contaminado a rede de água da cidade, mas nunca bebíamos água da torneira. Bebíamos de um grande poço artesiano que mantínhamos em conjunto. Quando a população inteira foi morrendo rapidamente, defecando sangue e pedaços de órgãos, isolamo-nos em nossas casas, bebendo água somente do poço e nos alimentando de nossos estoques. Mas, quando os estoques acabaram, tivemos que sair para procurar comida.

Nas ruas, cadáveres e mais cadáveres, todos mortos, todos. O fedor era insuportável. É interessante notar como a necessidade imperativa, imediata, de alimentos parece debochar daquilo que chamamos de “humanitarismo”, “compaixão” “amor ao próximo”. Pisando por entre cadáveres, sofríamos com a morte de outros seres humanos, muitos, conhecidos meus, mas isso não impedia que corrêssemos por entre eles esmagando involuntariamente seus crânios ou afundando os pés na sua carne apodrecida, ou chutando seus corpos para abrir caminho o mais rápido possível, sem absolutamente nada daquilo que chamaríamos “respeito pelos mortos”. E quanto aos meus vizinhos, em nenhum momento eu pensei em auxiliá-los na busca por alimentos, ou em dividir parte do que eu tinha conseguido saquear. Muito pelo contrário, era cada um por si, e o que conseguíamos pegar antes que algum outro pegasse era comemorado como uma gloriosa vitória. Naturalmente que brigas existiam, e violentas. Eu mesmo tive que matar dois de meus vizinhos. Quando digo que tive de matar, era porque a questão era simples: ou eles ou eu. O primeiro, matei com um espeto que estava ao meu alcance em um supermercado, pois disputávamos os últimos pedaços de carne fresca. O segundo, estourei os miolos com minha pistola, para poder ficar com um imenso estoque de frutas secas que ele tinha roubado.

De modo que agora, logo ao acabar de fumar meu cigarro, comerei algumas nozes. É curioso notar a forte semelhança do formato interno das nozes com o cérebro humano. Mais interessante ainda é o fato de eu ter obtido essas nozes estourando o cérebro de um dos meus vizinhos, com o qual eu até mantinha uma amigável relação. Remorso? Que nada!  O que significaria agora o remorso? Fiz o que deveria ter feito. E isso é tudo. Valeu a pena pelas nozes que comerei agora.

3 comentários:

Crisjoli Fingal disse...

Obrigado Al Reiffer por ter aderido ao meu blog. Seja bem-vindo e volte sempre. Aquele abraço.
Crisjoli Fingal

Luiz Alfredo disse...

Que conto - eu diria pra mamãe
eu nem lhe conto
um dos gêneros que mais gosto
e este esta um horror de lindo
estupendo
se permitir vou lê-lo na minha sala de aula
quando passar o documento arte do Solon

mui belo

Luiz Alfredo - poeta

Sissym disse...

Al, querido, seu texto é tragico porque retrata os absurdos das mentes doentias que querem enfrentar políticas internacionais pondo fim a vida de inocentes.

Bjs