05 outubro 2012

A Censura a Monteiro Lobato e a Ditadura do Politicamente Correto


Creio que os leitores do blog estão a par acerca dos debates sobre o livro “As Caçadas de Pedrinho”, famosa obra de literatura infanto-juvenil de Monteiro Lobato, nosso maior escritor na área. Estão dizendo que o livro é racista devido à seguinte passagem: “E tia Anastácia (...) trepou, que nem uma macaca de carvão, pelo mastro.” Ok, parece haver uma conotação racista. Muito embora, considerar apenas um trecho isolado em uma obra literária é, no mínimo, uma insensatez. No mesmo livro, Monteiro Lobato classifica Tia Anastácia como uma “boa pessoa”. E todos sabemos que a personagem em questão é vista com muito bons olhos pelo autor. Ah sim, ela é uma empregada submissa... Ora, e essa não era a realidade da sociedade brasileira durante a maior parte do século XX, ou seja, os negros como empregados? E será que mudou tanto assim? Será que negros e pobres ainda não são vistos como aqueles que “devem trabalhar para o patrão”? Mas, mesmo que exista racismo no trecho, então por isso o livro deve ser proibido?  

Primeiro, será que somente nesse livro da literatura brasileira há trechos com conotações racistas? Como bem lembrou o colega blogueiro Zatonio Lahud em seu blog Interrogações, devemos proibir também Jorge Amado, devido ao seguinte trecho: “negro de treze anos, forte e o mais alto de todos. Tinha pouca inteligência, mas era temido e bondoso”. Se quisermos, podemos ver aí uma conotação racista: era negro, e, por isso, tinha pouca inteligência. Ora, convenhamos, estão forçando demais a barra.

Agora, estão dizendo que Monteiro Lobato era racista, que há vários indícios do fato em sua vida e que o mesmo teria dado declarações racistas. Digamos que realmente tenha sido assim. Que Lobato era racista. Eu não estou certo, mas digamos que o fosse. Muito bem. Mas só ele? Se formos analisarmos, quantos outros escritores brasileiros e estrangeiros eram racistas? E não só escritores, mas também advogados, políticos, filósofos, historiadores, professores, enfim, o diabo! E não só aqueles que eram. E aqueles que são? Ou dirão que hoje ninguém mais é racista? O escritor francês Céline é um exemplo claro. Céline era racista, nazista, fascista, e isso está em suas obras. No entanto, o escritor é considerado um gênio, um dos melhores escritores franceses, apesar de seu racismo, e suas obras não são proibidas em parte alguma, até onde sei.

Se há ou não racismo, ou qualquer outro tipo de preconceito, em obras literárias, ou não-literárias, que analisemos, que discutamos, mas... proibir? Censurar? Coibir a liberdade de expressão? Se é assim, vivemos em uma nova ditadura. A ditadura do politicamente correto.

Alguns dirão que isso é coisa pouca para afirmarmos que estamos sob uma nova ditadura. Pode ser, mas aos poucos, as tempestades e os furacões também vão se formando. Aos poucos, uma doença pode tomar conta de um organismo e levá-lo à morte. As coisas começam assim. No afã de acabar com determinados preconceitos, vão criando outros. Primeiro, perseguirão os fumantes que fumam em público, depois irão proibi-los de fumar em casa. Depois irão proibir as pessoas de poder decidir se querem fumar ou não. E depois passarão a proibir outras de nossas escolhas. De como se vestir, por exemplo. Ah, todos devem andar na moda. Imaginem alguém sair na rua com uma roupa fora de moda, com um vestuário retrógrado. Será, no mínimo, esculachado. Imaginem alguém não fazer academia! Mas que absurdo! Percebam que o importante não é o indivíduo fazer exercícios, o importante é ele fazer exercícios em alguma academia, ficar sarado. Exercícios em casa? Ah, isso não adianta nada.

Imaginem alguém que não cuida da sua aparência. Meus Deus, o que é que os outros vão dizer? Imaginem alguém com um celular de sete anos atrás! Nossa, mas que pessoa desatualizada, caipira! Para os vegetarianos e veganos, imaginem alguém comer um pedaço de carne! É um monstro, um desumano! Comer um pedaço de boi que foi assassinado? Que horror! Enquanto isso, nossos animais selvagens são trucidados todos os dias nas estradas pelos atropelamentos e ninguém fala nada. Imaginem alguém que não é feliz, que não anda com um sorriso imbecil na boca todos os dias de sua vida miserável! Inadmissível! Onde se viu alguém do nosso tempo não ser feliz e alto astral! Quanta hipocrisia!

            Então Monteiro Lobato deve ser proibido, mas as letras de funk e de outras imundícias ditas “músicas” podem tocar à vontade Brasil a fora, enquanto adolescentes de 12, 13 anos quase transam em público enquanto “cantam” – “goza na minha cara, goza na minha cara!” E se alguém critica, é contra as manifestações populares, não quer deixar o povo se divertir.

            Pois estamos assim: ter sensibilidade é ser elitista. Defender uma cultura mais elevada é querer aparecer ou ser mais que os outros. E pensar é ser um pé no saco. E assim caminha a humanidade. Politicamente correta. Corretamente robótica. Mundo melhor.

8 comentários:

Janice Adja disse...

Forma de expressão comum para todos.
Isto que estão querendo fazer é pura ignorância.
Deveriam tb tirá de circulação a música que diz: mais como a cor não pega mulata, mulata eu quero o teu amor. Todos cantam, branco, preto , verde, os amarelos. E todos são felizes no carnaval.
O preconceito está na cabeça das pessoas com má intensão.
Beijos!!!!

Ana Bailune disse...

O que as pessoas querem? Que Monteiro Lobato e Jorge Amado, que viveram em uma época onde os valores eram diferentes dos nossos, tivessem adivinhado que no futuro qualquer coisa que dissessem poderia - e seria - usado contra a obra deles? Acho que a frase sobre Anastácia subindo na árvore como uma macaca de carvão é apenas isto: uma alusão à habilidade dos macacos para subir em árvores. 'De carvão' refere-se à cor dela. O que queriam que ele tivesse dito? 'De marfim?' A mulher era negra, pelo amor de Deus! E já fui chamada de branquela, branca azeda, urso polar, e nunca me ofendi por isso. Acho que o que acontece hoje, é que as pessoas estão por um fio; um esbarrão, e a bomba explode. E parece que todo mundo está doido para levar um esbarrão, para que tenham uma desculpa para explodir. É isso. Abraços!

karin disse...

Eu concordo. Há tempos tenho dito que começam proibindo o cigarro, controlando o sal e logo estão vasculhando a nossa biblioteca e a nossa vida. Abraço!

MARILENE disse...

Monteiro Lobato não disseminou racismo e só encantou. Obras literárias e artísticas, de todos os estilos e formas, merecem aplausos. Gostei da colocação que fez no tocante às letras do que chamam "música". Há tanto que se fazer e perde-se tempo denegrindo a imagem de muitos que, por anos e anos, nos ofereceram sabedoria e competência.
Daqui a pouco não se poderá vestir roupas pretas, amarelas... sob pena de se estar fazendo apologia ao racismo. Bjs.

Nadine Granad disse...

*APLAUSOS*

Assino embaixo ;)

Marie Motta disse...

Argumentou muito bem. Infelizmente vivenciei um problema em relação a isso. Tenho a pele branca e já fui professora. Passou uma aluna e como sempre fui muito brincalhona dei língua para ela. Ela gritou "parece uma macaca" e me deu língua também, eu respondi que agora ela também parecia. Pois bem, ela sendo negra não se incomodou com o comentário, pois estávamos brincando, porém um pai que passava pelos corredores foi a direção reclamar que eu fui racista com uma aluna. Para mim nunca deu problema pois os pais da aluna e a direção sempre conheceu o meu trabalho. Agora me pergunto, se eu fosse uma novata? As pessoas não tem atitudes racistas elas pensam como racista e maldam qualquer comentário alheio. Isso é triste. Os negros acrescentaram muito na nossa história como paladar, danças, músicas, religião cultura em geral.

Beijos.

Milene Lima disse...

Até nem tantas décadas assim ser racista era algo quase que considerado normal. Monteiro Lobado ainda refletiu pouco o que pensava a sociedade acerca dos negros e de como eles deveriam se colocar nos seus devidos lugares, que não era a sala de estar.
Desse seu texto incrível eu só discordo do que se refere ao cigarro, porque o sujeito que fuma do meu lado está automaticamente me obrigando a fumar também. Tá, é um politiquês chato, mas necessário, eu acho.

Abraços.

Anônimo disse...

Não deveria ter escrito A Ditadura do Politicamente Incorreto.Na boa...o que você entende como correto?Politicamente correto é não censurar.Deixa de neologismo e bestismo...O correto de uma política depende de cada político.O correto é aquilo que é de acordo com o bom senso e o bom caráter.O resto é história...pra boi dormir.