29 maio 2012

Fernando Pessoa e a Eternidade do Poeta - E Bach e o prefeito de Brandenburg-Schwedt

Ninguém melhor que Fernando Pessoa, gênio que não obteve sucesso em vida, para falar sobre a eternidade do poeta. Hoje, Pessoa é unanimidade absoluta, maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da poesia universal do século XX. 

A maioria absoluta das pessoas, ainda que importantes e famosas em vida, são filhos do seu tempo. Morreram, passaram. É o caso dos políticos, em quase sua totalidade. Mas o poeta, o artista, se verdadeiro, continua, seja para poucos, seja para muitos. 

Achei sempre que a virtude estava em obter o que não se alcançava, em viver onde se não está, em ser mais vivo depois de morto que quando se está vivo, em conseguir, enfim, qualquer coisa de difícil, de absurdo, em vencer, como obstáculos, a própria realidade do mundo.


Se me disserem que é nulo o prazer de durar depois de não existir, responderei, primeiro, que não sei se o é ou não, pois não sei a verdade sobre a sobrevivência humana; responderei, depois, que o prazer da fama futura é um prazer presente — a fama é que é futura. E é um prazer de orgulho igual a nenhum que qualquer posse material consiga dar. 


O milionário americano não pode crer que a posteridade aprecie os seus poemas, visto que não escreveu nenhuns; o caixeiro de praça não pode supor que o futuro se deleite nos seus quadros, visto que nenhuns pintou.


Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)

O trecho me lembra um incidente ocorrido com Johann Sebastian Bach. Em 1721, o compositor alemão dedicou a Christian Ludwig, margrave de Brandenburg-Schwedt, uma espécie de prefeito da época na Alemanha, os seus 6 Concertos de Brandenburgo, uma das obras musicais mais geniais já compostas. O próprio margrave havia encomendado as obras. Porém, o senhor Christian Ludwig não deu muita importância para os concertos. E os concertos de Brandenburgo não foram executados. Ficaram lá, jogados a um canto. Até porque, na época, quem era Bach? 


Bach não era reconhecido como o gênio musical que é hoje. Vivia de forma muito modesta, tinha que trabalhar muito para sustentar sua numerosa família. Não enriqueceu com sua arte. Muitas de suas obras nunca foram executadas durante sua vida, várias se perderam. Bach era visto como um grande organista e cravista, mas não como um grande compositor. Julgavam-no como um compositor menor. Não entendiam seu gênio. Achavam sua obra muito hermética, difícil, sombria, e até retrógrada. De modo que o pouco caso do senhor margrave, um ilustre político, não foi algo surpreendente.


Porém, como o mundo dá voltas, não? Quem hoje conhece Herr Christian Ludwig? O leitor conhece? E quem não conhece Bach? Se o senhor ex-prefeito Christian Ludwig ainda é lembrado no mundo, é como aquele para quem Bach dedicou os Concertos de Brandenburgo. E que não os quis executar. Ou seja, é lembrado como um idiota.

3 comentários:

Alberto Ritter Tusi disse...

Pois é esse é o caminho dos fortes, Reiffer... Salieri era o grande compositor da corte de Viena, não Mozart; "Já que não temos o grande Telemann, nos contentamos com Bach", falava a comunidade de Leipzieg; Borges ficou sem o nobel; Quintana fora da ABL; Debussy quase foi expulso do conservatório de Paris; ... Ao infinito.


Abraço
...

Natália Campos disse...

Tão bom vir...! É sempre bom vir aqui. Não há como decepcionar com seus textos - nenhum sequer. Bom demais. Salve, Pessoa :D

Beijos, querido.

Sonhadora disse...

Querido Poeta

Ao chegar aqui deparei-me com uma foto de Fernando Pessoa, e por momentos parecia o meu filho...eu explico:
o meu filho foi o protagonista de um Filme/Documentário que se chama (Ophiussa – Uma cidade de Fernando Pessoa),e as parecenças são tão grandes que por vezes quase se confundem, acho que gostarias, uma vez que contém toda a poesia de Pessoa sobre a sua tão amada Lisboa.

Beijinhos e obrigada pela visita
Sonhadora