07 dezembro 2011

Entrevista para o Blog Joguete do Destino

Publico na íntegra a entrevista que concedi à blogueira Ana Karoline, de Itapajé, Ceará. Seu blog pode ser conferido aqui

"O Blog  Joguete do Destinodivulga hoje a entrevista feita com o poeta Alessandro Reiffer, de Santiago, Rio Grande do Sul.


Santiago é conhecida como “A cidade dos poetas”.
Sim, ele é gaúcho, e diferente dos que aqui – Itapajé – habitam, ele é um cara bem bacana e profissional naquilo que faz.


1-Acredito que aqui no Ceará você não é conhecido, com essa entrevista talvez você terá um pouco de repercussão por aqui, então eu gostaria que você se apresentasse, quem é Alessandro Reiffer?

Costumo me definir de maneira bastante simples e direta, embora, talvez, um pouco estranha: um Arauto do Fim.

2-     Você já lançou seu segundo livro – (Poemas do Fim e do Princípio) – como você vê o futuro dos livros impressos, eles vão continuar sobrevivendo por muito tempo ou você acha que os livros digitais daqui a algum tempo vão dominar total? Lembrando que você também o lançou em formado digital não é mesmo?

Acredito que o livro impresso não irá desaparecer, não pelo menos num futuro próximo, porque ainda há muitos leitores que não o trocam pelo digital, eu mesmo prefiro os impressos. Mas não há dúvida que irá perder cada vez mais lugar para os digitais. Foi pensando nisso que lancei meu segundo livro também em formato digital, que é bem mais barato e mais ecologicamente correto que o impresso. Inclusive o digital tem tido mais saída.

3-     Santiago é tida como “A cidade dos poetas”. Sua influencia inicial partiu do lugar em que você vive, foi aos poucos adquirindo talento por ler obras de outros escritores que não seja daí ou é genético? Alguém da sua família também escreve?

 Não, não acredito em influência do lugar onde vivo, ou genética, porque sou o único escritor de minha família. E o fato de se ler bastante não faz de ninguém um poeta. Há muitas pessoas que leem muito, até mais do que eu, mas não conseguem escrever um só poema autêntico. Na verdade, já se nasce poeta ou não poeta. É da alma. Se não se nasceu poeta, nunca se será um.

4-     Mesmo que você não viva exclusivamente da literatura, sua família teve certa resistência ou você é bem apoiado? Tinhas vergonha de mostrar o que escrevias para as pessoas de tua família, ou até mesmo amigos no inicio? Se sim, por quê?

 Minha família sempre me apoiou, e continua me apoiando. Não, nunca tive vergonha de mostrar qualquer trabalho, mesmo que depois descobrisse que ele não era tão bom quanto eu pensava, rs. Um poeta não deve ter vergonha do que escreve, se tiver, não deve escrever. Deve escrever. Se os outros gostam ou não, aí já é outra questão.

5-     Já é uma espécie de tradição perguntar a escritores sobre a nova literatura que está monopolizando a juventude. Não é preciso nem citar nomes, porque todo mundo já sabe do que se trata. Qual sua opinião sobre Best Seller, e sobre essa força que eles ganharam na literatura e no cinema? E vindo de você, um autor que de certo modo tem aspectos vampirescos, o que acha dessa nova roupagem que os vampiros estão ganhando?

 Quanto aos vampiros, sua origem e significado foi totalmente distorcida e degenerada pela mídia. Tudo que vira moda se degenera. Os vampiros autênticos não existem mais nem na literatura nem no cinema contemporâneos. Quanto aos Best Sellers , deixarei uma frase de Einstein: “O que é muito popular, é muito ruim.” Ela fala por si próprio.

6-     O que você acha daqueles filmes antigos com mansões e aquela sala de biblioteca enorme, aquele piso de madeira, etc...Atualmente não é preciso nem ser mansão, qualquer pessoa pode montar em casa sua biblioteca particular, mas qual a sua opinião sobre a quantidade de árvores que poderia ser preservada se não fosse o enorme uso de papeis para a impressão de tantos livros que existem no mundo, não só os de literatura, mas todos no geral?

 Acredito que os livros contribuíram muito pouco para a devastação florestal, se comparado com outros produtos, embora também tenham contribuído. Há coisas que causaram muito mais devastação, como a agropecuária e o avanço das cidades. Mas claro que hoje em dia, com os livros digitais, há mais um motivo para se evitar a devastação, evitando os livros impressos sempre que possível.

7-    A sua poesia é cercada por uma áurea sombria. O frio da região sulista, marcada por resquícios europeus e de um hibridismo sul-americano tem alguma coisa a ver com o seu estilo?

 Sim, tem a ver, claro, também me influencia, embora não seja decisivo. Se eu vivesse em um local quente, creio que escreveria quase que da mesma forma. Mas não há dúvida que o clima e as características da minha região estão presentes em minha obra, consciente e inconscientemente.

8-     Muitas vezes suas palavras deixam transparecer uma espécie de submundo no qual você se encontra. Qual a sua relação com esse submundo adotado como o seu ambiente poético? Existe algum lugar especial – físico – onde você entra em contato com o seu submundo? Existe alguém que te transpareça esse lado sombrio?

Não, um local físico não existe. Meu “submundo” está dentro de mim mesmo. Posso entrar em contato com ele a qualquer momento e em qualquer lugar. Claro que há situações que o favorecem, principalmente quando estou em contato com a arte, seja música, literatura, pintura, cinema, enfim...

9-  A maioria dos escritores começou a desenvolver sua técnica bem cedo, como Clarice Lispector que publicou seu primeiro conto aos 14 anos, Fernando Sabino que teve um conto premiado aos 13 e Rimbaud que “aos 17 anos era um caso sério da literatura”. Como foi sua iniciação na literatura? Existe algum “anjo da guarda” cujo você deve alguma gratidão?

 Escrevi meu primeiro poema com 8 anos de idade. Mas não dei continuidade. Somente aos 14 anos comecei a escrever de forma mais frequente, e, com 15 anos, publiquei meu primeiro poema. Mas não teve nenhuma pessoa que tenha sido decisiva para isso, apenas eu mesmo, a necessidade de minha alma. Se devo agradecer a alguém, é a meus pais, que sempre bancaram meus gastos com livros e para a publicação dos poemas e contos.

10-  Relacionando a sua poesia sombria, gótica, você sempre se encontrou nesse campo, aos poucos foi descobrindo sua própria estética ou teve de certa forma a intervenção de alguém?

A minha poesia tem elementos do gótico, mas não se limita a isso, pelo contrário. Desde que comecei a escrever, os temas sombrios surgiram sempre naturalmente, não foi propriamente uma escolha de temas. Eles surgem por si mesmos, a minha tendência é essa, o que não significa que seja sempre assim. E, claro, não teve a intervenção de nenhuma pessoa.

11- Como você define seu estilo atualmente?

 Literatura de Ocaso

12- O que você mais gosta de ler (conto, crônica, romance, técnico)?

 Poesia, contos e romances, dentro da literatura. A crônica me chama menos a atenção, mas não que não a aprecie. Evito os Best Sellers. Fora da literatura, leio com menos frequência, mas leio de tudo, filosofia, ciência, história, jornais, revistas, livros de ocultismo... Apenas não leio livros técnicos.

13- Alguns escritores acham saudável ler algo totalmente diferente do que estão escrevendo, quando estão escrevendo. Você também é assim?

Sim, é interessante, mas não é algo que eu siga como um padrão. Posso ler, posso não ler.

14-  De tudo o que você já escreveu até hoje, o que ou qual te trás mais orgulho?

 Sinceramente, não sei. E nunca parei para pensar sobre isso, rs.

15- Ao longo de sua formação quais os 5 principais autores que mais impactaram sua vida, suas 5 maiores inspirações, eles ainda são os mesmos de hoje em dia? Se não, quais são os de agora?


Os 5 que mais me impactaram: Edgar Allan Poe, Johann Von Goethe, Dante Alighieri, Fernando Pessoa, Victor Hugo. São e serão sempre esses.

16-   Você prefere literatura nacional ou internacional? Por quê?

 Prefiro a internacional, como se pode perceber pelos autores que mais me impactaram. Simplesmente porque a literatura internacional é bem mais ampla e mais rica que a nacional, e há autores com que me identifico muito mais. Mas não desdenho a literatura nacional (quem sou eu para o fazê-lo?), pelo contrário, temos nomes que muito me influenciaram e continuam me influenciando.

17- Relacionado à música, quais seus gostos? E qual sua opinião sobre a música brasileira, ela tem qualidade?

Sou um grande amante da música erudita, é o que mais escuto, e ela muito me influencia em meus escritos. Mas também aprecio alguns estilos e bandas dentro do rock, do metal, do eletrônico. E também aprecio a música nativista gaúcha.

Claro que a música brasileira tem qualidade, mas desde que se saiba selecionar. Há muito, mas muito lixo rolando pela mídia, o funk é um deles. E não é questão de preconceito musical. Funk nacional é lixo, seja do jeito que for. Em outros estilos, há coisas boas e há lixo. Há música sertaneja de qualidade, e há o sertanejo lixo. Há o samba de qualidade, e há o samba lixo. E assim é com todos os estilos musicais em nosso país. Então, como disse, há que se saber selecionar.

O problema é que a mídia dá prioridade para o que é lixo, porque as pessoas gostam de ouvir lixo. Esse é um sintoma da degeneração da civilização, na minha opinião. Na música erudita brasileira há coisas sensacionais, mas quem é que divulga, quem é que escuta?

18- Bem, como sabemos você é professor, é jovem, escritor... e muitas vezes isso gera uma certa paixão nas mulheres, você já lida com assédio de alunas e fãs? Se sim, como você reage diante disso?

Sim, acontece, mas também não é algo fora do normal, rsrs. Quando acontece, busco manter apenas a amizade. A não ser que eu também não queira só a amizade. “No amor e na arte tudo é possível.”

19- Pude perceber que você tem certo gosto por animais exóticos, qual o motivo disso, originalidade, desejo de ser diferente?

 O motivo é que me identifico com eles, é algo natural, não é uma busca de ser diferente. Identifico-me com os animais noturnos ou sombrios. Felinos, corvos, urubus, corujas, entre outros, me fascinam.

20- Quais seus projetos atuais?

Tenho dois livros quase prontos, um de poesia e outro de contos. Talvez publique um deles no próximo ano.

21-Relacionado à Literatura, quais seus planos para o futuro?

Continuar escrevendo e me aprimorando dentro do meu estilo.

 22-O que você mais gosta de fazer nas horas que deveriam ser ociosas?

O que seria uma hora ociosa, não estar escrevendo ou dando aulas? Bem, se for isso, leio, escuto música, vejo filmes, bebo, me reúno com os amigos, ou saio com eles... Mas mesmo nesses momentos, eu estou criando, buscando inspiração, porque são desses momentos que sai a literatura, da vida. Por isso quase sempre tenho papel e caneta comigo.

23-Pessimismo ou Otimismo? Brasil ou Europa?

 Com relação a nossa atual civilização, pessimismo. Identifico-me muito pouco, no geral,  com a cultura brasileira, por isso, Europa.

24- Como é o professor Alessandro Reiffer? Como é o filho Alessandro Reiffer? Como é o amigo Alessandro Reiffer? Como é o vizinho Alessandro Reiffer? Como é o homem Alessandro Reiffer? Qual faceta da sua vida mais entra em cena na sua literatura?

O professor: tento ser exigente sem ser chato, sem ser intransigente. Busco sempre a participação e a interatividade do aluno. Isso é fundamental.

O filho: tenho uma ótima relação com minha mãe, ela é muito compreensiva, e é muito difícil brigarmos. Meu pai faleceu quando eu tinha 18 anos, a relação era um pouco mais difícil, mas sempre o respeitei muito. Sempre respeitei e sempre fui respeitado por meus pais.

O amigo: tenho uma excelente relação com meus amigos, é muito raro me desentender com algum, sou uma pessoa bastante tranquila. E sempre fui respeitado por eles, assim como os respeito.  Aprecio bastante sua companhia e são bastante importantes para mim.

O vizinho: tenho pouca relação com meus vizinhos. Mas nunca tive problemas com eles. Talvez eu incomode um pouco quando coloco música muito alta, rs.

O homem: bem, talvez essa pergunta seja melhor respondida pelas mulheres com que me relacionei, rsrs. Olha, sou uma pessoa que dou muita atenção à pessoa com quem estou me relacionando, mas sem abrir mão de meus instantes de solidão e de minhas necessidades pessoais, daquilo que faz parte da vida de um poeta. Dedico-me o máximo que posso à mulher que está comigo, mas jamais permito que para isso seja necessário submeter minha personalidade. Tenho uma personalidade muito forte.

 A faceta da minha vida que mais entra em cena na sua literatura: a minha observação de quanto a humanidade está em um rumo sombrio. E a minha desilusão com o ser humano.

25-Você tem algumas dicas para as pessoas que estão começando a escrever agora?

 Leia, escreva e viva. Leia, escreva e viva. Leia, escreva e viva. E siga sua própria consciência.

26- Viver de literatura é possível no Brasil? Se sim, você acha que qual região seria mais favorável?

 Não, não é possível.
     
27- Você gostaria de dizer algumas palavras finais?

Gostaria, Ana, de te agradecer imensamente por essa oportunidade e pelo teu auxílio na divulgação de minha obra. Obrigado!

Também te agradeço por nos ter permitido saber um pouco mais de sua vida e pela sua disponibilidade de nos responder a essas perguntas. Fico grata também pela oportunidade de lhe conhecer e te desejo muito sucesso, você merece."

5 comentários:

Marcos Fernandes disse...

cara,leio teus escritos a muitos anos, e sempre te admirei por essa autenticidade, bem como de tua ótica acerca dessa civilização humanóide.

Mery disse...

Estou te acompanhando, li o poema que escreveu lá no blog do Zatônio*, eu li e me identifiquei com o teu jeito de escrever; e achei demais, essa entrevista,te sigo com prazer; se puder me visite, sou do Rio de Janeiro>* * Mery*))
Ótimo o comentário acima, estou cheia de mesmices...Aff!

Natália Campos disse...

Primeiramente fico feliz com essa ideia de você ser entrevistado, porque gosto muitíssimo de tudo que escreve e te conhecer um pouco incita-me ainda mais a curiosidade de você rs. Me identifiquei muito com algumas coisas que respondeu. Me admira seu contato com a arte em geral (música, literatura, cinema, pintura etc) e isso te faz ser um homem diferente e encantador. Música erudita aquece a alma e eu sou viciada em sinfonias, óperas...enfim, você tem um belo gosto musical. Essa tua característica sombria e sulista me instiga também; parece-me misterioso, eu gosto disso rs. Também quase sempre tenho papel e caneta comigo, porque estou sempre escrevendo por aí. E o que disse sobre ser poeta é uma verdade: já se nasce poeta ou não. É da alma. Quanto à sua dica a quem está começando a escrever, é lindo e verdadeiro o que disse. Ler, escrever e viver são essenciais na vida de um escritor. Bom, meu querido, gostei muitíssimo de você pelo pouco que li aqui. Acredito que seu universo seja bem maior e mais bonito que essas suas poucas e belas palavras. Espero poder conhecer-te melhor. Poxa vida, encantei!

Beijos com carinho. Au revoir :)

Ligéia disse...

Você já tinha a minha admiração pelo que escreve, e essa entrevista me fez conhecer um pouco mais de um poeta que admiro. Tenho uma ou outra opinião contrária, mas temos coisas em comum: também dou preferência à literatura estrangeira - em especial a do século dezenove - (só não acho que seja mais rica que a brasileira), amo os felinos (e os lobos também...) e Edgar Allan Poe.

beijo

Al Reiffer disse...

Marcos, já que tu não tens blog para eu responder, respondo por aqui. Muito obrigado. Seja sempre bem-vindo por aqui. Abraço.