11 julho 2011

O Fim das Coisas, de Augusto dos Anjos

Às vezes, é melhor deixar que outros poetas falem por nós. De preferência, um poeta de mais alto nível, como é o caso de Augusto dos Anjos.  Que ele fale, enquanto eu silencio.


O Fim das Coisas

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo: e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo da orbe, invente
A lâmpada aflogística de Davy!

Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio...

E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

Augusto dos Anjos

(Na imagem, detalhe do quadro "O Julgamento Final",  de Hieronymus Bosch.)

3 comentários:

Ligéia disse...

Poetíssimo Augusto dos Anjos! Meu poeta preferido. Ele diz tudo, para que possamos calar.

Gostei demais, Reiffer.

Um abraço.

Davi Machado disse...

Ah, cara, adoro esse soneto e casou bem com o quadro.
Tem um soneto do Camilo Pessanha que o final é parecidíssimo com esse, não lembro o nome, enfim, ótima escolha!

Analuka disse...

Poema e imagem afinadíssimos!!! Abraços alados e leves.