17 setembro 2010

“A política e o crime são a mesma coisa.” (FINAL)

O político fala:

Como não posso desabafar com ninguém, nem mesmo com minha família, que não sabe de nada, nem com meus correligionários, para quem eu pareceria ser um fraco, vou aliviar essa pressão que está me consumindo escrevendo algumas linhas. Dizem que escrever é uma ótima forma de descarregar tensões.

Nem sei por onde começar, o que sei é que devo dar um jeito naqueles miseráveis, filhos-da-puta, que não param mais de sugar o meu dinheiro, que é meu por direito, afinal, eu fui eleito, fui eu que o povo escolheu para cuidar de seus problemas, de seus anseios, e não eles, aqueles ladrões, desgraçados! Ah, como fui tão burro, logo eu, que sempre me julguei tão esperto, o mais esperto de todos, fui aquele dia cair na conversa daquela miserável. Mas como ela era bonita... e gostosa, meu Deus! Como eu iria resistir? Também sou humano, não sou um deus, não tinha como não cair naquela conversa doce e macia, naquele olhar ao mesmo tempo sedutor e desamparado, parecia ser tão puro... o qual percebi que há vários dias procurava os meus em nossas reuniões do partido.

Então ela veio, dizendo que estava apaixonada por mim, que queria ao menos ser minha amante, pois sabia que seria impossível ser minha esposa, afinal, amo minha esposa. Como, meu Deus! Como não me apaixonar também? Como não acreditar em suas palavras que pareciam ser tão sinceras, tão profundas, tão intensas... Não, eu não tive culpa, fui uma vítima. Apaixonei-me, e no afã cego da paixão, e para mostrar a ela como eu era um homem esperto, poderoso, muito rico, contei tudo, tudo! Eu contei tudo a ela! Que idiota! Como não desconfiei que poderia ser uma armadilha daqueles desgraçados, ladrões, porcos chantagistas! Agora eles sabem de tudo, têm provas, tudo gravado por aquela prostituta, aquela cadela vadia, que ainda roubou meus documentos. Eu devia ter lembrado daquela frase que li certa vez, não lembro onde: “O sexo é a pedra de tropeço.” Sim, é isso mesmo, tropecei nele, e caí. Maldito amor! O amor é mesmo uma piada. Mas agora não adianta ficar me lamentando, terei que fazer algo, mas o quê? Eles não param de me sugar, sabem o quanto sou rico e o quanto estou comprometido. À polícia não posso ir... Mas posso ir até eles e matá-los! Não, eu até poderia pagar alguém para matar alguns, mas jamais todos, e as provas continuariam com eles. Tenho que jogar como eles jogam, conseguir alguém que se infiltre naquela maldita organização e resgate as provas para mim... Sim, sim, acho que essa é a saída, farei isso! Ah, mas ela, aquela puta! Ela eu tenho que matar!

Meu Deus, como é difícil ser político neste país! Dei meu sangue por esse povo ingrato e agora sou vergonhosamente roubado, de um dinheiro que é meu, MEU! Sim, tudo bem que ele não faz parte de meu salário de deputado, mas o salário é muito baixo, ridículo, para todos os problemas e preocupações que tenho que passar. Nada mais justo do que pegar uma partezinha desse montão de verbas que aí esta, e de que todos pegam um pouco para si. Sim, sim, todos pegam, todos sabem disso, e qualquer um que for eleito e vir para cá, vai fazer o mesmo, vai pegar uma parte para si, por muito honesto que se ache. E eu acho isso perfeitamente justo, porque a verdade é que somos muito mal pagos, deveríamos receber muito mais, temos obrigação de ser ricos perante a sociedade, somos um espelho no qual o povo se reflete. Só o que fiz foi corrigir pelas minhas próprias mãos algo visivelmente errado. Mereço esse dinheiro que peguei do povo, porque trabalho pelo povo. Eu que tenho que decidir quanto devo ganhar, não os outros, o poder é meu, eu o mereci, fui escolhido.

Isso não é desonestidade, é uma questão de justiça, ainda que não esteja na lei. A lei também erra. Eu sou um homem honesto, honrado, digno da confiança que o povo depositou em mim. Cumpro minhas obrigações, apresentei e apresento inúmeros projetos para o bem de meu país, sou um pai de família respeitado. Só eu sei o que sofro na pele por ser político, todas as acusações falsas, as piadinhas que tenho que aguentar, todo o trabalho de ir até o povo, aos pobres, às favelas, e ter que estar sempre sorrindo e de bom-humor, apertando a mão, correndo o risco de pegar doenças, porque essa é a realidade. E essa gente é uma gente traiçoeira. Diz que vai votar em nós, mas depois não vota. Agora eu, eu tenho que falar sempre a verdade e ser sempre simpático! Ah, vão à merda! Então, se eu pego um dinheiro pra mais, é para fazer justiça a mim mesmo, para recompensar todos esses males por que tenho que passar como homem público. E quem não faria? Quem não pegaria uma justa recompensa para si?

Mas agora, agora surgiram esses vagabundos, que não querem trabalhar, e ficam roubando o dinheiro de quem trabalha, miseráveis! E ainda se utilizam de vagabundas sedutoras, fazendo com que eu, além de trair minha amada esposa, conte, como um patinho, meus segredos para aquela vaca, aproveitando-se do meu coração apaixonado e bondoso. Às vezes fico pensando que talvez eu devesse ouvir meu pai, quando dizia: “filho, seja um grande político, mas um político honesto, nunca vá roubar o dinheiro do povo.” Bem, o pai era um ingênuo, um romântico, eu sou um homem prático. O pai não entendia nada de política, não sabia que pegar algumas verbinhas não é roubar, mas ser justo consigo mesmo. Mas se eu tivesse ouvido o pai, agora não teria que dar a metade do meu dinheiro para aqueles ladrões. Talvez ser “honesto” fosse mais lucrativo...

11 comentários:

Fernández ♠♠ disse...

Compartilhamos de ideias parecidas sobre politica.

http://terza-rima.blogspot.com/

Mirze Souza disse...

Bravo Reiffer!

Deve ser por aí mesmo. A pessoa entra no jogo dos ladrões, e se veste de santo e depois assume a armadura.

Não dá nojo?

Você escreve bem demais!

Parabéns!

Um forte abraço!

Mirze

Anônimo disse...

Puxa, vc abacou de abrir seu voto na marina do PV, a mesma que chegar a erra seu próprio número e pede voto para o 45, número do Serra. acaso vc sabe alguma coisa sobre os inúmeros crimes ambientais do vice de marina, o multibilinário LEAL?

att

A. Reiffer disse...

Prezado Anônimo: votar para mim é escolher aquele que fará menos mal. Mal todos farão, seja por eles mesmos, seja pelo partido que representam, pelas pessoas e ideologias que estão envolvidas nele, seja pelos obstáculos que enfrentarão por terem escolhido tal ou qual programa de governo. Entre os candidatos a presidente, a que faria menos mal, na minha opinião, seria a Marina. Tu tens todo o direito de discordar. Grato pela leitura.

Denise Portes disse...

Esse quadro político da uma falta de esperança...
Éimpossível não refletir sobre isso e achar que estamos a parte de tudo.
Beijo e saudades de você e das suas reflexões.
Denise

Lau Milesi disse...

Ge-ni-al! Que lucidez!!! Parabéns, Reiffer!!!
Um grande abraço

Richard Mathenhauer disse...

Errar crendo ou duvidando?

Existe uma opção que parece uma perversão para muitos: o voto nulo. Ele não deixa de ser voto e não deixa de ser uma expressão do eleitor.

Como semrpe, ótimo texto.
Com amizade,

Matheus de Oliveira disse...

Genial, cara! Uma história perfeitamente construída, um fundo mergulho na mente de um político. Abraços!

Metáfora do Tempo disse...

Todo político deveria ler este conto. Que deve ser mais divulgado, hein. Abraços!

Marcus Vinícius Manzoni disse...

Vou deixar aqui minha opinião partidária. Eu voto 13! Porque a Marina, sinceramente é uma idiota que não sabe nem onde anda. O Serra é um mafioso desgraçado. Estamos todos muito bem, o país nunca esteve tão bem. E só tem a crescer!

A. Reiffer disse...

Marcus: Quanto ao que tu disse sobre a Marina,eu digo da Dilma o seguinte: o meu problema com ela é que ela é muito desenvolmentista, muito tecnicista. Não gosto disso, são pessoas com esse perfil que estão acabando com o planeta. Não posso compactuar com isso. Por isso não voto nela. O desenvolvimento brasileiro não é sustentável. É uma ilusão. Valeu pelo comentário.