27 agosto 2010

“Eu Estava Lá...” (poema-conto)

então, Ele fitou-me nos olhos e disse:

“eu estava lá
quando em símbolo
Adão e Eva foram expulsos do Paraíso
eu estava lá
simbolicamente
sendo a última gota
alastrada pelo final da cruz
do Cristo crucificado
eu gotejei com o sangue
da marcial espada romana
na forma do punhal
no rubro da força de César
eu estava lá
pairando sobre os cadáveres
de um terço da Europa
devastada pela Peste Negra
entre as sombras medievas
e sonhei nos delírios de Bosch
enquanto absurdos se derramavam
de sua visão apocalíptica
e estava na alma de Shakespeare
adejando ao final de suas tragédias
e deixei minha marca
na lâmina afiada da guilhotina francesa
e na neve russa
que aniquilou o exército de Napoleão
como também fiz ressoar meu canto
no último quarteto
que compôs Beethoven ensurdecido
estive em forma líquida
no delirium tremens de Poe
fui às duas grossas lágrimas
que derramou Brahms em seu leito de morte
e eu estava lá mais tarde
nas balas mortíferas da Máfia
e lancei-me em fúria
pelas metralhadoras dos alemães
durante o sangue da Segunda Guerra
espargido pelos buracos na carne dos soldados
eu voei segundos antes
das bombas atômicas sobre o Japão
eu estava lá
chegando ao coração das mães
que perderam seus filhos
no verde-fogo do Vietnã
e larguei ao vento os derradeiros gritos
dos animais mergulhados nos mares da extinção
e irradiei meus suspiros
pelo céu que encobria enfumaçado
o tombar das gigantes florestas
eu estava lá
e agora estou aqui
fitando fundo e firme e forte
os olhos encovados de toda humanidade...”

Ele então me disse todas essas coisas
e depois disse seu nome
e seu nome era Adeus...

4 comentários:

Lara Amaral disse...

Lembrou-me um pouco de "Há dez mil anos atrás", do Raul. É claro que aqui tem a marca do seu forte lirismo, da sua entrega incondicional.

Beijos.

Metáfora do Tempo disse...

Realmente, como disse a Lara, numa leitura inicial, lembra mesmo a música do Raul. Mas na minha opinião é só devido ao tom como as coisas são ditas e pelo fato de lembrar acontecimentos do passado. A temática é totalmente diferente, e muita mais profunda, mais séria, mais grave.
Particularmente achei um escrito fantástico,chamou-me muito a atenção, parece que cada momento mencionado foi matematicamente calculado como instantes importantes de fim na história, que então passa a tomar conta de toda a humanidade. Perfeitamente adequado ao teu estilo, e ao revelar-se o nome de quem fala no final, o Adeus, a impressão torna-se bastante forte. Muito bem sacado, abraço!

Richard Mathenhauer disse...

Uma música do Guns (perdoe a comparação!, mas é livre-associação, sobretudo hoje, com calor, ansiolítico e se pudesse algo a mais... rs).

Com admiração constante,

Davi Machado disse...

acho que o "adeus", essa palavra, é uma das poucas que não suporto.
você retratou bem algo do que ela representa.