06 abril 2010

A 4ª Sinfonia, de Brahms


Johannes Brahms compôs apenas 4 sinfonias. Mas todas elas absolutamente magistrais e estão no ápice da música sinfônica romântica. Brahms foi um exímio sinfonista. Dos maiores. Não é à toa que sua 1ª sinfonia foi considerada como sendo a 10ª de Beethoven. E todos sabem que Beethoven foi o maior de todos os sinfonistas.

Porém, entre as 4 sinfonias de Brahms, a última, a 4ª, Opus 98, é a minha preferida. Na minha opinião, é a mais madura, a mais bem acabada e a que melhor expressa a profunda alma de Brahms. É para mim uma das sinfonias mais trágicas e melancólicas já criadas. Os acordes iniciais de seu primeiro movimento já carregam o ar de uma densidade emocional escura e apaixonada. É uma música pesada, tensa, sem, no entanto, perder por um instante sequer o seu obstinado lirismo, a sua poesia introspectiva.

Este movimento desenvolve-se com absoluta perfeição, para desaguar em uma verdadeira catástrofe sonora, em um clímax furioso, marcial, devastador, que nos deixa a impressão de que o teto vai desabar sobre nossas cabeças.

O segundo movimento, dominado por um sentimento de outono, de inverno, é, ao mesmo tempo, lírico e solene, melodioso e taciturno, terno e misterioso. Passando pela vivacidade ensolarada e enérgica do 3º movimento, atingimos o 4º, onde a dilaceração emocional atinge o extremo, em notas carregadas de força e de tragédia. O breve instante de sol do movimento anterior dá lugar às sentenciosas sombras do final da sinfonia, onde se percebe uma forte influência de Bach. O 4º movimento afirma de forma indubitável o caráter sombrio e pessimista da obra, mas também ergue-se imenso, imponente, majestoso, como uma montanha castigada entre a tempestade. É uma definitiva obra de crepúsculo, o sol se põe ao final da sinfonia em um horizonte avermelhado...

Certa vez, escrevi um pequeno poema após ouvir a 4ª sinfonia. Eu o incluí em meu livro lançado recentemente, Poemas do Fim e do Princípio. Certamente, o poema não está à altura da obra de Brahms, mas creio que diz algo sobre ela. Aqui está ele:

Sinfonia nº 4

pelo outono do inverno de amar
atemporal tempestade
na sede que sedia meu sonho
a tormenta atormenta de sede

vós temporais sede
a sede de minh’alma acabada
a última de Brahms
que brames na última
tempes-tarde demais
não me a(l)mas
como não cometas
do céu caídos
em fim-nados
que vir já há-de
em mar-revolta
revolto
resignado
morrer de sede
na Tempestade

6 comentários:

Denise Portes disse...

Quando vi pela primeira vez sua foto pensei que você seria contratado imediatamente para fazer “Crepúsculo”, você é lindo como a família de vampiros! Eu sei que o filme é ridículo, mas os atores são belos!
Alessandro, até seu nome tem música, agora já sei que você é muito mais do que um “menino bonito” com uma áurea que brilha na sua foto.
Descobri que além de poeta, contista, escritor e professor de Literatura e Língua Portuguesa, você é famoso e mora na terra dos poetas.
Reiffer você traduz em palavras e sentimento a 4º sinfonia de Johannes Brahms da forma mais linda!
Um intelectual com coração de poeta, um menino com alma de profeta!
Muito me encanta passear pelo seu mundo, muito me encantam pessoas interessantes.
Adorei o poema.
Um beijo
Denise

Mai disse...

O mar bramindo...Morrer sedento.
De fato as imagens são fortes.
O milagre da música é acalmar as horas de tormentas. Eu costumo escrever ouvindo clássicos.

abraços

Lara Amaral disse...

Vc alcançou um tom magistral com essa poesia sobre a sinfonia de Brahms. Gosto desse compositor e de outros, estou sempre a ouvir música clássica para escrever.

Parabéns pelo poema.

Beijo.

Daniela Filipini disse...

Adorei sua poesia! Principalmente o início...

Cadinho RoCo disse...

Delicioso passeio pela sensibilidade musical que entornada em versos entoa canto magistral.
Cadinho RoCo

Carla Martins disse...

Grande compositor do Romantismo. Gostei muito do seu poema, acho que conseguiu na perfeição transmitir através das palavras as harmonias densas e as ideias temáticas que Brahms tanto gostou de explorar. Ele é para mim, o grande sucessor de Beethoven! Já agora...porque não escrever um novo poema para a ´n.º 6 de Beethoven, A Pastoral?? É a minha sinfonia favorita! Aqui lhe deixo um desefio. Grata pela sua partilha poética! Carla Martins