10 outubro 2009

E Todo Aquele Sangue (parte final)

(Na imagem, detalhe de "O Último Julgamento", de Hieronymus Bosch)

E em alguns canhestros e funestos dias, eu olhava para o céu e havia algo nele que não era normal... Nesses momentos, um rubro sino em desgraça reverberava por todo o azul decadente do céu. Quando digo decadente, é porque ele se avermelhava de forma lenta e implacável. E eu não sabia que vermelhidão era aquela. Quando se propagava pelo ar, o som do sino era um trovão, mas ao chegar aos meus ouvidos era um silvo sanguinolento de uma serpente escarlate.

E a serpente descia da mais alta das árvores, de um cipreste imenso e vetusto que perfurava o céu com seu cimo seco e pontiagudo. E o cipreste cortava o céu, e desse corte incurável jorrava uma tempestuosa chuva de sangue. Ela caía sobre meu pesar. E o silvo da serpente soava sangrento em meu desejo. Eu a sentia se aproximando, enroscando-se em minha perna e picando meu calcanhar. E da picada gotejava um sangue tão gélido que congelava as gotas sanguíneas da chuva.

Foi então que aves em chamas espiralizadas, aves nunca antes vistas, infelizes e devastadas, em bandos intermináveis, bicavam furiosamente, até que sangrasse todo o espaço celeste de forma definitiva. Ouvi grunhidos asfixiados do sol obscurecido por astros vermelhos. E o grunhido do sol era o retumbar do sino e o silvo da serpente. E das núpcias agourentas desses sons de morte, nasciam dos horizontes em fogo tartárico nuvens carregadas. Eram nuvens entrecortadas por veias onde eu via pulsar um sangue enfebrecido. As nuvens cresciam inexoravelmente, arrastadas com fúria por furacões ciclópicos de sopros cósmicos. E fundiam-se no centro do céu, e suas veias explodiam como no pior pesadelo. E toda a abóbada celeste tingiu-se do mais fatal vermelho de sangue. E eu queria saber por que essas coisas aconteciam comigo...

E, finalmente, em alguns canhestros e funestos dias, eu, na minha invisível solidão, saía massacrado a perambular pelas ruas de minha cidade. E diante de meus olhos ensanguentados, o desfile hediondo da civilização humana feria o mais íntimo de minha existência. Sim, eu via sangue em todos aqueles rostos, sangue que escorria de seus sorrisos de prazer, sangue que gotejava de seus olhos sem alma, sangue que brotava como orvalho de suor inútil de seus poros corrompidos.

E aqueles homens e mulheres, velhos e crianças, brancos e negros, ricos e pobres, esfaqueavam-se mutuamente contentes e diabolicamente satisfeitos. Mas não havia facas em suas mãos antes de esfaquearem-se. Porém, quando retiravam os dedos dos corpos de seus semelhantes, havia entre eles um punhal de ódio. E enquanto riam de prazer, eu observava todos os seus dentes caírem vermelhos na poeira do chão ardente.

E os prédios, casas, torres, igrejas, monumentos, tudo desmoronava infiltrado por um viscoso e ácido sangue que corroía suas estruturas. E sob as ruínas, eu contemplava milhares de corpos mutilados. Mas eles levantavam-se satisfeitos dos escombros e exibiam para que todos contemplassem os pedaços extirpados de seus organismos degradados. Enquanto isso, alguns homens corriam pelas ruas, masturbavam-se e ejaculavam sangue. E junto com eles, mulheres completamente nuas introduziam objetos não identificáveis em suas vaginas e sangravam copiosamente.

Não havia luz nos céus. Somente a luz mortiça, doentia e avermelhada de uma gigantesca lâmpada eletrônica projetada de forma macabra sobre a cidade. E ao seu redor, fervilhavam miríades de odiosas moscas, mosquitos, baratas e outros insetos que carregavam sangue enfermiço em suas patas. Então se alastrou uma música abominável. E havia nela uma risada demoníaca que me arrepiou impiedosamente. Era um deboche maligno que sangrava os ouvidos de todas as pessoas que eu avistava. E com a música odienta, um rio de sangue invadiu as ruas e arrastou com ele milhares de humanos. E naquele sangue, todos nadavam contentes, bebiam, comiam e defecavam, rindo e ostentando o ouro de seus dentes caídos, os quais eram recolhidos por entre o lixo infinito que trazia o sangue.

E todo aquele sangue era o sangue da morte do planeta. E eu... eu apenas delirava. E intuí porque essas coisas aconteciam comigo. É que existem alguns momentos em que se deve deixar o adeus para que se saiba quando a humanidade partirá para um novo destino...

3 comentários:

Anônimo disse...

Assombroso, realmente assombroso. Tua força imaginativa é rara e de uma densidade emocional assustadora.

André Vieira

Sapa disse...

Nossa pirei lendoooo,rs.Brigada,seu Blog é show,beijos

Cristiano Contreiras disse...

Parabéns pela proposta e atitude do seu blog, além de bem escrito - o contexto é elegante, tem seriedade e muito conceito! te sigo!