10 julho 2009

No Mistério do Eterno Retorno (Parte Final)

Então, percebendo as extremas alterações, desviei meus olhos do animal para ver o que ocorria ao meu redor, e para meu estarrecedor assombro, todos os elementos da floresta passaram a se modificar numa rapidez inaceitável. Árvores morriam e eram substituídas por outras que cresciam em inenarrável aceleração. Surgiam animais como que do nada e desapareciam de maneira tão rápida que eu nada saberia dizer sobre eles. Chovia em questão de segundos, ou menos que isso, e logo surgia o sol. Dias e noites se sucediam como relâmpagos, e tudo se alterava de maneira cada vez mais veloz. Até que não tive dúvida de que se tratava de uma inexplicável aceleração do tempo...

E eu ali permanecia estático, com somente a árvore e o felino diante de mim, enquanto ao meu redor nada continuava igual nem por uma fração de segundo. De modo que pude ver a presença de homens na floresta, e o número crescia incessantemente. E após, percebi que tais homens destruíam a mata, matavam os animais, e logo já se avistavam construções cujo número aumentava espantosamente. E o rio corria a meu lado, e em suas águas, grandes barcos desciam em absurda velocidade. E quando voltei meus olhos à direita, já não havia mais floresta, havia agora uma cidade habitada por milhares de humanos, e a cidade crescia em um ritmo assustador. E prédios gigantescos assomavam diante de meus olhos, e passei a vislumbrar máquinas estranhas que se moviam sozinhas, cada vez de maneira mais rápida, e então vi outras máquinas absurdas que voavam frenéticas pelos ares, como gigantescos pássaros de ferro.

E os ares foram escurecendo, cada vez mais cinzentos, e o rio foi reduzindo sua extensão, suas águas foram perdendo força, tornando-se cada vez mais sujas, imundas. No entanto, eu ali permanecia, com a árvore e o felino, sem que ninguém nos visse ou percebesse a nossa presença. Era como se estivéssemos em outra dimensão, jamais afetados pelas ocorrências exteriores.

E, finalmente, uma cidade hercúlea, ciclópica, caótica, infinda e superpovoada ergueu-se diante de meus olhos atônitos, e soube, não sei como, que ela era uma cidade de um país chamado Brasil, e que o rio ao meu lado, agora podre e morto, chamava-se Tietê. Porém, a corrida do tempo não cessou. Após a cidade atingir seu auge, vi o seu declínio vertiginoso, a sua destruição, contemplei a sua ruína causada por devastadoras catástrofes, por guerras monstruosas, por calamitosas doenças, vi a morte imperar absoluta, vi terremotos e dilúvios brutais, explosões inimagináveis, furacões de fúria infernal, enfim, vi o fim definitivo de toda a cidade, a morte de todos seus habitantes. E somente o que me ocorria era ver, porque todos os meus outros sentidos pareciam neutralizados. Eu nada ouvia, não sentia nenhum cheiro, nem frio, nem calor, nada além das visões.

E atingi o instante, sempre seguindo a progressão de absurda velocidade do tempo, em que ao meu redor não existia mais nada, em definitivo, a não ser um infindável deserto de uma matéria horrível e informe, que transmitia total desolação, sob um céu intensamente vermelho, em chamas eu diria, até que finalmente veio o fogo. Uma combustão apocalíptica e insalubre apoderou-se da massa informe e indeterminável e consumiu tudo. Então, nesse instante, o imenso felino, que continuava me fitando, para a expansão de meu assombro, o felino, ou algo ou alguém através dele, falou:

- Agora está concluído. Em breve virá o grande recomeço. Quando tu, amigo, chegaste até aqui, eu vivia em uma interminável floresta intocada e plena de vida. Mas o tempo passa, como aceleradamente presenciaste. E, talvez, tenhas te perguntado para onde foram todos os vegetais e animais que aqui existiam. Pois eu digo que seus corpos físicos foram aniquilados, porém suas almas permanecem, continua o ciclo da existência em uma outra dimensão do infinito universo, numa transmigração de acordo com as leis cósmicas. Lá, aguardam o momento preciso em que deverão voltar e “reconstruir” a gigantesca floresta que ocupou estas terras. Como a água que é evaporada pelo sol e depois retorna como chuva. É a sábia lei do Eterno Retorno.

Nesse momento, deixei de ouvir a humana voz do felino e de ver qualquer coisa. Creio que adormeci ou desmaiei... Não sei. Só o que sei é que quando retomei a consciência, eu me encontrava em uma imensa embarcação, em um navio pertencente a uma esquadra, que singrava o mar e se aproximava de uma terra desconhecida, da qual somente se avistava uma vasta e infindável floresta...

Após alguns instantes de verificação, pude comprovar, ao menos para mim, aquilo que intuitivamente suspeitava. Aquelas terras estavam sendo descobertas mais uma vez, tudo estava se repetindo. Já haviam sido descobertas na anterior civilização, cujo fim contemplei, por um homem chamado Cabral. Agora, quem realizaria a nova façanha chamava-se Labrac. E lá, adiante, eu podia vislumbrar a colossal floresta novamente erguida e vitoriosa, conforme profetizara aquele fantástico felino... “Não há nada de novo sobre a terra...”

2 comentários:

Äмbзr Gïrℓ ⅞ disse...

é assim, nossos olhos se prostam diante do desconhecido.

Blog Suicide Virgin

Davi Machado disse...

Olha só, eu to totalmente sem palavras, nossa! isso que vc escreveu merecia um livro, sem rasgação de seda, mas tu tem um talento INCRÍVEL, aposto que estou repetindo o que todos já dizem, mas isso que eu li está sem comparações, adorei, tá demais!!!
Tu teve uma inspiração foda cara!!!
grande talento!!!!

abraços!