28 janeiro 2009

O Pesadelo que Dominou um Mundo

Publicarei na íntegra o que ocorreu com aquele jovem naquele distante planeta desconhecido. A partir deste momento, ficaremos com as próprias palavras do estranho ser alienígena:

“Eu, deitado em meu leito por altas horas da noite, tentava dormir, quando, por acaso, principiei a observar dentro de mim, em minha mente, em minha psique, algo como uma série de vozes desencontradas, como se eu fosse internamente habitado por inúmeros seres que falavam ao mesmo tempo. Eu lutava para me concentrar em um único ponto, porém não conseguia, era-me impossível uma verdadeira concentração, pois não obtinha êxito em manter a mente fixa em um só pensamento nem por míseros três minutos. Vários pensamentos conflitantes surgiam-me simultaneamente: lembranças, desejos, sonhos, temores, ódios, cada um acompanhado de seus sentimentos correspondentes, em absurdas vozes que viviam dentro de mim. E tais pensamentos e emoções em mim se manifestavam não pela minha própria vontade, não era eu que os queria, eles surgiam em meu interior involuntariamente, e não conseguia controlá-los. E percebi que isso era o natural de minha espécie, durante todo nosso cotidiano somos vítimas de pensamentos e emoções que não desejamos e não dominamos e disso não nos damos conta.”

“E ocorreu que em determinado momento senti que aquelas vozes que em mim habitavam principiaram a desprender-se de minha psique, pareciam querer assumir uma existência externa, o que de fato confirmou-se. De súbito, fui cercado por uma infinidade de seres que eram todos partes do meu próprio eu, por entidades psíquicas que personalizavam meus erros, minhas fraquezas, meus desejos, a totalidade de meus defeitos. Formavam-se às dezenas, às centenas, aos milhares, todos com faces monstruosas e diabólicas, mas que tenuemente semelhavam-se à minha própria fisionomia. Olhavam-me de forma lugubremente odiosa, rindo sarcasticamente de meu estado de febril alucinação e pavor. E então verifiquei que aquelas seres, na verdade meus próprios filhos, pois vieram de meu interior, iniciaram a fundir-se em apenas uma representação física que possuía o meu exato aspecto. Todos aqueles demônios se transformaram em um único ente, que era o meu sósia em perfeição absoluta. Em seguida, o sósia deixou o meu quarto.”

“Então, de um abismo aberto sob meus pés, surgiram dois diabos com enormes asas de dragão, os quais vieram até mim, agarraram-me pelos braços e carregaram-me para fora de meu aposento. Fui levado à força para um local fantástico, de elevadíssima altura, de onde podia vislumbrar toda a minha cidade e ainda o interior de qualquer residência, como se possuísse alguma espécie de visão raio-x. Os demônios ordenaram-me para observar com detalhada atenção tudo o que acontecia na cidade. Então vi que nela estava meu sósia, a infame união daqueles seres satânicos, que havia assumido o meu lugar existencial. Sim, absurdamente, eles realizavam todas as ações que eu deveria realizar, no trabalho, na família, em toda a sociedade. Contudo, tudo o que aquele sósia executava era terrivelmente perverso, infinitamente maligno, e quem levava toda a culpa, não obstante, era eu.”

“Não suportava mais tamanha tortura e tentei me libertar dos demônios que me subjugavam, protestando e gritando desesperado que não era eu quem cometia aquelas maldades, que era um impostor, porém foi tudo inútil, somente obtive mais deboches dos diabos. Foi nesse instante que percebi que ao meu redor havia outras pessoas no mesmo estado que eu, isto é, que haviam sido trazidas por outros demônios particulares para aquele local de funesta e vertiginosa altura e obrigados a ali permanecer contemplando a cidade. Eram milhares de habitantes da mesma, muitos, conhecidos meus, e, para meu maior assombro, pude verificar estarrecido que todos eles também possuíam seus sósias, os quais usurparam seus lugares no mundo físico e ali viviam cometendo as mais bestiais atrocidades.”

“Em poucas palavras posso dizer que nós, os autênticos humanos, fomos expulsos de nossa própria existência, cedendo lugar a demônios nascidos de nós mesmos, e que agora ocupavam nossas vidas, realizando os mais horrorosos e degradados atos, estando nós absolutamente impotentes e desesperados diante de um pesadelo além de qualquer descrição verbal.”

“No entanto, creio que posso, em poucas linhas, transmitir uma débil idéia do horror catastrófico que presenciei como um escravo dos meus próprios males. Lá embaixo, ocupando o meu lugar e os lugares de todos os meus conterrâneos, nossos sósias demoníacos vivenciavam nossas existências como se tudo fosse absolutamente normal e corriqueiro, como se a perversidade, a inveja, a cobiça, a inversão de valores, o desprezo pela espiritualidade e pelos profundos sentimentos, pela arte e pelo belo fosse uma abominável regra geral. Todos os sósias, sem exceção, tão-somente buscavam o prazer vazio, sem o mínimo de sentido para a vida, em um consumismo impiedoso, alienado e sem freios, aniquilando rapidamente a totalidade dos recursos naturais.”

“Os dias passavam, os anos passavam, e eu e meus desgraçados companheiros de tortura permanecíamos dominados pelos diabos, contemplando o horror, a desolação que tomava conta de toda cidade. Observávamos dilacerados o crime e a violência imperarem absolutos, a baixeza psíquica e o reinado da aparência sendo guias e mestres de toda uma população. Eu fui a testemunha impotente do assassinato por motivos fúteis, do estupro hediondo, da execrável prostituição infantil, da inaceitável exploração humana em todos os níveis e categorias. Vi o horror desfilar diante de meus olhos e eu fazia parte dele, lá estava o meu sósia imbecilizado e depravado como todos os outros, descendo os degraus da mais baixa degeneração, esquecido de toda vergonha moral e orgânica, escravizado por uma mídia vazia e alienante. Eu gritava em completa desesperança para que aqueles diabos me libertassem e permitissem que eu reassumisse minha própria vida, mas minhas forças sucumbiam, e só me restava chorar em negra fatalidade.

Olhei ao meu redor e vi que todos os meus companheiros do inclemente horror faziam o mesmo, enquanto contemplavam o vício, o egoísmo, a ganância, a destruição, que se alastravam desimpedidos e triunfantes por um cenário de perfeita degradação ambiental. Da feral altura em que me encontrava, eu observava todos os nossos rios serem estupidamente poluídos, nossas matas devastadas, nossos animais massacrados, nossos ares contaminados, enquanto a multidão iníqua e inconsciente dos sósias ria e se fartava em festas imbecis, regadas a imundas músicas degradantes, contentes e satisfeitos com seu estado de infernal degeneração e miséria.”

“E após fui levado para outras regiões, para outras cidades e lá vi mais humanos prisioneiros e, abaixo, os seus sósias corrompidos, imperando vitoriosos. Não mais havia uma só gota do que chamávamos de amor. O mundo inteiro fora dominado pelo mais aterrador dos pesadelos, enquanto eu, berrando que meu sósia não era eu, lutava como um louco para me libertar.”

“Foi então que, desvairado, acordei-me. Tudo havia acabado, para meu lancinante alívio. E eu, ainda profundamente transtornado, refletia sobre o absurdo pesadelo que tivera, pensando comigo que não seria possível que em algum planeta do universo uma população vivesse naquele mesmo estado de minha alucinação. Não, impossível um planeta chegar a tão decadente nível de existência... só mesmo em um pesadelo...”

Até aqui as palavras e o pesadelo daquele distante ser alienígena.

2 comentários:

Micheli Pissollatto disse...

"Não mais havia uma só gota do que chamávamos de amor."
Hoje em dia é assim, certamente se houvesse amor não haveria o exagero de guerras, de violência.. mas a humanidade está cega demais para perceber.

materials disse...

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