31 outubro 2008

A Doença da Luz (ou o Relato de Carlos Walter Mann) - Cap.I

O Conto abaixo, do qual publico seu primeiro capítulo, talvez seja minha obra em prosa mais bem acabada, e também a de mais difícil realização. Tornou-se um pouco extensa, se considerarmos a dimensão média de meus contos. Por isso, confio na paciência dos leitores para o acompanharem através de capítulos que serão postados aqui de dois em dois dias. Estou certo que o final será absolutamente surpreendente.

7 de maio de 2025 - Meu nome é Carlos Walter Mann, e o relato que me foi solicitado pelos senhores encontra-se nas linhas a seguir. Procurei explicar os acontecimentos de acordo com as datas mais significativas para mim, algumas delas ficaram profundamente gravadas na memória. É a minha visão particular da catástrofe, vamos a ela...

23 de fevereiro de 2024 - Naquela manhã de verão plena de sol, ao levantar-me, percebi que a geladeira não estava funcionando. Tentei acender as luzes. Não havia energia elétrica. Imaginei que fosse apenas uma interrupção temporária no fornecimento de eletricidade. Logo deveria voltar. Minha esposa, Carolina, ainda dormia. Sentei-me e fui comer algumas frutas, e em seguida li o jornal. No entanto, passara-se mais de uma hora, a luz não retornara. Decidi ligar para a companhia de energia elétrica. O atendente não soube informar-me absolutamente nada sobre o que estava acontecendo. Disse-me que a interrupção no fornecimento de energia ocorrera durante a madrugada de forma misteriosamente inexplicável, e não era algo restrito a nossa região, mas atingia todo o país, melhor dizendo, atingia todo o planeta! Por mais absurdo que isso pudesse ser, até onde se sabia, não havia energia elétrica em nenhuma parte do mundo. Finalizou a breve conversa afirmando que o estranho e caótico caso já estava sendo seriamente estudado por milhares de técnicos e cientistas em todos os países do mundo e logo deveria ser solucionado.

Em seguida, telefonei para o celular de um amigo que trabalhava na própria companhia. Desejava ter uma idéia melhor do que ocorria. Com muita pressa e nervosismo, meu amigo limitou-se a dizer que tudo ocorreu de uma hora para outra, a energia simplesmente deixou de ser fornecida simultaneamente em todos os países, sem nenhuma causa aparente. Não houve falha em nenhum ponto, todas as unidades produtoras de energia elétrica estavam funcionando perfeitamente, sem nenhum erro. Porém, não existia energia. As usinas ao redor do mundo não produziam absolutamente nada de eletricidade. E, até o momento, não havia explicação alguma. E desligou o celular. Fui deitar ao lado de Carolina e ler um livro.

19 de março de 2024 – A energia ainda não voltara. Apesar dos terríveis esforços em todo o mundo, não só nenhuma solução foi encontrada, como também a causa do pior desastre da história da humanidade permanecia uma incógnita. E ainda pior que isso: não só a eletricidade oriunda de usinas (fossem elas hidrelétricas, termelétricas, nucleares...) deixou de existir, mas também qualquer tipo de eletricidade produzida pelo homem: pilhas, baterias, células fotoelétricas, enfim, nada mais funcionava. Não era mais possível ao homem produzir energia elétrica. Creio que os senhores podem imaginar perfeitamente o caos absoluto que reinou no planeta. Sem a energia elétrica, o homem atual não é nada.

Com o colapso energético, a comunicação entre os humanos deixou de existir, pois até mesmo as companhias telefônicas e os correios não tinham mais condições de funcionar. Sem telefones, sem internet, sem televisores, sem rádios, enfim, sem nada, teríamos regressado aos séculos em que não dependíamos da eletricidade, se isso fosse possível. Não era. Não estávamos preparados para tanto.


A humanidade paralisou-se completamente. Imaginem as negras conseqüências da catástrofe... Basta lembrar que todas as instituições, todas as indústrias, todas as empresas, toda a ciência, praticamente todas as profissões, todos os governos, os mais banais afazeres, desde um celular a um automóvel, de uma calculadora a um computador, de uma lanterna a um avião são dependentes de energia elétrica. É inenarrável a titânica magnitude do desastre que rapidamente estabeleceu o mais absurdo caos entre a civilização...
(continua...)



3 comentários:

Marcelo Amado disse...

Cara... Eu sempre acreditei que idéias vagam pelo ar e se cruzam em algum ponto com as idéias de alguém. Pode não acreditar, mas eu escrevi um conto baseado também na falta de energia num futuro distante. Apenas as datas estão mais adiantadas no meu caso. Esse conto está inclusive com o Richard, para apreciação e provável publicação.

De qualquer forma, estou ansioso pelos próximos capítulos. Obviamente o seu deve ter muito mais detalhes e mais técnica, uma vez que eu ainda estou aprendendo a escrever.

Um grande e horripilante abraço!

Júlio César de Lima Prates disse...

Belo texto. Realmente, de inigualável qualidade. Leitura agradável e cativante, própria apenas dos Grandes Escritores. Parabéns e sucesso.

Marcus Vinícius Manzoni disse...

Nossa! Esse vai ser demais, estou sentindo. Esse conto deverá entrar para a história dos melhores escritos santiaguenses. Estou muito ansioso para conhecer e apreciar o resto dele. Parabéns.